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O que é que Ana Moura e António Zambujo fazem com José Avillez?

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o novo conceito em Lisboa que quer elevar a experiência de restauração com música ao viv

António Zambujo, Ana Moura e José Avillez juntam a música ao vivo à comida portuguesa, no novo restaurante Canto

Boa Onda

A ideia é um ‘Ovo de Colombo’. Em particular para aqueles que exigem comida e música de qualidade (e um ambiente sofisticado), quando o que está em causa é juntar as duas coisas na mesma experiência. Pôr os músicos Ana Moura e António Zambujo como curadores de um restaurante com cozinha do chefe José Avillez é a resposta, com o Canto.

Neste novo conceito, as variáveis acabam todas por se conjugar, no espaço herdado do antigo Belcanto, que perde o ‘Bel’ para ser rebatizado, sem perder a ligação às origens, que remontam a 1955. O nome não podia ser mais apropriado. Remete para o posicionamento (o canto) e ‘pisca o olho’ ao Cantinho do Avillez. José Avillez explica que o destino inicial do espaço do antigo Belcanto (que no ano passado muda para a porta ao lado, onde se encontrava o Largo) começa por ser outro. O desejo de juntar o antigo ao novo Belcanto, ampliando a área deste restaurante com duas estrelas Michelin, é deixado para trás, devido à impossibilidade de partir as paredes que os separam.

O design de interiores do Canto é da responsabilidade do Estúdio Astolfi, que assina o projeto de reformulação do espaço do antigo Belcanto

O design de interiores do Canto é da responsabilidade do Estúdio Astolfi, que assina o projeto de reformulação do espaço do antigo Belcanto

Boa Onda

Nesta época, e desconhecendo o sucedido, Ana Moura procura José Avillez para partilhar a vontade de ter um espaço de música ao vivo, com boa comida e onde possa levar amigos em horários tardios. O resto da história está agora materializada no Canto, que reúne esta fadista e António Zambujo como curadores musicais. Na noite da apresentação do projeto, os dois artistas fazem as honras da casa numa atuação conjunta, com Filipe Melo ao piano. Uma junção no palco que não está incluída na programação (pelo menos até 8 de fevereiro), que inclui António Zambujo a solo (a 6 de fevereiro), depois do espetáculo de Ana Moura na noite de abertura ao público (a 28 de janeiro).

Por aqui irá passar, principalmente, música em português, seja de Portugal, do Brasil ou de países africanos (a 8 de fevereiro há Lusofonia&Mornas e Coladeras), desde cantores consagrados às novas esperanças. Apesar do foco na música nacional, em particular no fado, os artistas internacionais não estão excluídos. José Avillez garante (em tom de brincadeira) que a porta não será fechada a Woody Allen, caso este realizador de cinema queira vir até aqui tocar clarinete. É o que faz há vários anos no Café Carlyle, no bar do mítico hotel The Carlyle, em Nova Iorque, onde atua com a Eddy Davis New Orleans Jazz Band, à segunda-feira.

Os elementos decorativos refletem o espírito do Canto e o percurso dos seus mentores, como a fotografia de Ana Moura com Mick Jagger, por exemplo

Os elementos decorativos refletem o espírito do Canto e o percurso dos seus mentores, como a fotografia de Ana Moura com Mick Jagger, por exemplo

Boa Onda

A hipótese não é, de todo, descabida porque a matriz do Canto é portuguesa, no palco e à mesa (já vamos ao menu), mas de certa forma remete para a atmosfera acolhedora e intimista dos clubes de jazz. A primeira impressão, porém, é de que se entra em uma casa de fado sofisticada, devido aos elementos decorativos e à arquitetura da sala. Há retratos (e uma boneca) de Amália Rodrigues, guitarras portuguesas, capas de discos, cabaças, facas de cozinha e loiças antigas, bem como uma foto de Ana Moura com Mick Jagger, gramofones e telefonias, entre outros artefactos.

O design de interiores é da autoria do Estúdio Astolfi e as peças arrumadas nas estantes do Canto são parte dos espólios de José Avillez, Ana Moura e António Zambujo, ou têm origem em feiras de objetos em segunda mão. No Canto, que tem 46 lugares sentados, predomina a madeira clara e os tons de azul. A iluminação quente convida a permanecer ao longo da noite, com o modelo de funcionamento a ajudar. Há jantar com música ao vivo (de terça-feira a sábado, das 19h à meia-noite, com menu) e jantar fora de horas com música ao vivo (à sexta-feira e ao sábado, à carta), das 23h às 2h. Na primeira modalidade é preciso bilhete comprado previamente, na segunda é recomendado fazer reserva.

Duas das hipóteses do menu são o arroz de marisco e o bacalhau à brás, todos servidos nos pratos Cozinha Velha, da Vista Alegre

Duas das hipóteses do menu são o arroz de marisco e o bacalhau à brás, todos servidos nos pratos Cozinha Velha, da Vista Alegre

Grupo José Avillez

Seis parágrafos depois de estar a escrever sobre um restaurante sem referir o principal, eis a comida. José Avillez traz ao Canto as referências da cozinha portuguesa, com um menu que inclui três entradas frias, três entradas quentes, um prato principal e uma sobremesa, ambos à escolha. Todos eles são clássicos portugueses reinventados, como, por exemplo, o escabeche de perdiz, a santola recheada, os croquetes de rabo de boi e a alheira de Mirandela, nas entradas. Nos pratos principais, José Avillez dá o toque pessoal aos clássicos arroz de marisco, bacalhau à brás, pluma de porco alentejano e leitão assado, entre outros.

O pudim abade de priscos, o toucinho do céu, o pastel de nata e as farófias são as opções de sobremesa, que circulam pelas mesas num tabuleiro, uma atualização do tradicional carrinho. Apesar da atmosfera contemporânea e da abertura à diversidade musical, a curadoria de Ana Moura é um chamariz para quem procura ouvir o melhor do fado, em particular os turistas endinheirados que querem esta experiência aliada à comida com assinatura. Com António Zambujo, atualmente um dos músicos portugueses mais conhecido no Brasil, o Canto junta esta notoriedade junto dos brasileiros à de José Avillez, igualmente famoso devido à sua participação como jurado no programa de cozinha, ‘Mestre do Sabor’, emitido na Globo.

O Zambujo e o Moura, dois dos cocktails exclusivos do Canto, são inspirados nas preferências pessoais dos músicos que lhes dão nome

O Zambujo e o Moura, dois dos cocktails exclusivos do Canto, são inspirados nas preferências pessoais dos músicos que lhes dão nome

Grupo José Avillez

A prestação dos dois músicos não se fica pela atração de clientela nem pela curadoria musical. Ambos têm um cocktail com os seus apelidos, baseados nas suas preferências pessoais. O Moura tem uma base de gin Sharish, com Aperol e água Castelo e é apresentado com um ramo de alecrim e uma rodela de laranja. O Zambujo, igualmente criado por José Parelho (barman manager) leva rum Havana Club, puré de cenoura, manjericão e malagueta, rematados com raspa e rodela de lima.

A carta de cocktails (que inclui clássicos como Negroni, Americano e Aperol Spritz, por exemplo) está em harmonia com a música tocada no palco. Guitarrada, Bossa Nova e Samba são os nomes das misturas exclusivas do Canto (a par com o Moura e o Zambujo) e deixam clara a vontade de fazer a ponte entre Portugal e o Brasil, país que tem em Lisboa um número crescente de residentes e turistas, em busca de diversão com inspiração local, além das fortes ligações culturais. Há novos horizontes (sabores e sonoridades) no histórico reduto lisboeta de empresários e gestores. E quem diria que são resultado das circunstâncias, mais adversas e mais favoráveis.

Canto

Largo de São Carlos, 10 Lisboa

€75 (jantar e música ao vivo)

€20 (consumo mínimo jantar fora de horas)

canto.pt (programação e reserva de bilhetes)