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Louis Vuitton e Isabel dos Santos. Nunca se falou tanto em diamantes como esta semana

Na crónica ‘Sem Preço’, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o segundo maior diamante do mundo e as alegações contra a joalharia De Grisogono

A aquisição do segundo maior diamante de mundo representa mais uma declaração do desejo do grupo LVMH de crescer na joalharia, depois da compra da Tifanny&Co, em novembro de 2019/Créditos: Lorenzo del Francia

Se há uma época dos diamantes, essa, pode ser provavelmente esta semana. Não pela mesma razão. Enquanto o Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação desenterra a história do financiamento da De Grisogono (alegadamente com fundos do Estado angolano), a Louis Vuitton anuncia a compra do segundo maior diamante em bruto do mundo, sem saber ainda muito bem a sua rentabilidade. Esta pedra está a ser apresentada em Paris, a coincidir com o arranque das apresentações das novas coleções dos grandes joalheiros

Da mina Karowe, no Botswana, saem os maiores diamantes, como o recente Sewelô e o antigo segundo maior diamante bruto, o Lesedi la Rona/ Créditos: Lucara Diamonds

Da mina Karowe, no Botswana, saem os maiores diamantes, como o recente Sewelô e o antigo segundo maior diamante bruto, o Lesedi la Rona/ Créditos: Lucara Diamonds

Não é novo o contexto da entrada da Sodiam (empresa pública angolana com o monopólio da comercialização de diamantes de produção local), de Isabel dos Santos e de Sindika Dokolo no capital da joalharia suiça De Grisogono. Há muito que se especula sobre isto. A novidade é que a justiça angolana está a investigar os contornos da operação, que alegadamente lesa os cofres estatais, e que estará (no mínimo) a trazer dores de cabeça ao ex-presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, à filha e ao genro.

Menos polémica e mais surpreendente é a recente aquisição da Louis Vuitton, que está na posse do segundo maior diamante do mundo. O Sewelô (‘descoberta rara’ no dialeto Setswana) tem 1.758 quilates (a dimensão de uma bola de ténis) e representa mais uma declaração do desejo do grupo LVMH de crescer na joalharia, a divisão com menos peso no negócio do maior grupo de luxo do mundo. O sinal mais forte é dado em novembro de 2019, quando se torna no novo proprietário da Tifanny&Co, num negócio avaliado em 16,2 mil milhões de dólares (€14,6 mil milhões).

A cor negra do Sewelô (está revestido por uma camada de carbono) pode indiciar um diamante com uma qualidade inferior e o seu potencial só será revelado totalmente quando for cortado/Créditos: Lorenzo del Francia

A cor negra do Sewelô (está revestido por uma camada de carbono) pode indiciar um diamante com uma qualidade inferior e o seu potencial só será revelado totalmente quando for cortado/Créditos: Lorenzo del Francia

O preço do diamante agora adquirido não é revelado por nenhuma das partes envolvidas na transação: o grupo LVMH, a Lucara Diamonds (dona da mina Karowe no Botswana, de onde o diamante é oriundo) e a HB Company, empresa de Antuérpia que irá cortar e polir a pedra. Segundo Tobias Kormind, um dos fundadores do 77 Diamonds, um dos maiores retalhistas da Europa nesta área, não é fácil calcular o seu valor. Citado pela Forbes, Tobias Kormind faz uma avaliação entre 6,5 milhões de dólares (€5,8 milhões) e 19,5 milhões de dólares (€17,6 milhões), números bastante aquém dos 53 milhões de dólares (€48 milhões) pagos pela Graff Diamonds, em 2017, pelo Lesedi La Rona. Este é o diamante em bruto que (até à extração do Sewelô) é o segundo maior de sempre, com 1109 quilates, e cuja origem é também a mina Karowe.

O que explica a discrepância de valores (proporcionalmente aos quilates) não é só a diminuição das margens deste negócio nos últimos anos, mas também as características do Sewelô. A sua cor negra (está revestido por uma camada de carbono) pode indiciar um diamante com uma qualidade inferior e o seu potencial só será revelado totalmente quando for cortado. Antes disso há uma série de estudos a fazer, recorrendo à tecnologia de imagiologia, para ‘mergulhar’ no seu interior e aferir em detalhe a sua composição, qualidades e possibilidades, num processo que poderá demorar cerca de um ano.

A produção por encomenda de diamantes com os símbolos do monograma da Louis Vuitton (a flor arredondada e o motivo em forma de estrela) é um dos destinos do diamante

A produção por encomenda de diamantes com os símbolos do monograma da Louis Vuitton (a flor arredondada e o motivo em forma de estrela) é um dos destinos do diamante

Gregoire VieIle

Em comunicado, a Louis Vuitton avança o destino da ‘descoberta rara’, que passa pela produção por encomenda de diamantes com os símbolos do monograma da marca (a flor arredondada e o motivo em forma de estrela) e um outro projeto mais arrojado. Com o serviço de diamantes ‘bespoke’, a Louis Vuitton permite que o cliente seja envolvido no processo criativo e que defina o desenho da peça, o que elevará o preço para valores estratosféricos. Isto provavelmente não preocupa quem quer uma joia Louis Vuitton personalizada, com o segundo maior diamante do mundo.

O maior de sempre, extraído em 1905 na Premier Diamond, na África do Sul, tem um destino à medida do seu estatuto e que reflete o colonialismo britânico. O Cullinan faz história com 3.106,75 quilates e as suas pedras encontram-se na coleção de joias da Coroa Britânica. O Sewelô está desde terça-feira, 21 de janeiro, na Maison Louis Vuitton na Place Vendôme, em Paris, à espera de potenciais clientes. Um agendamento que não é feito ao acaso. Nesta localização, na praça que é o epicentro mundial da alta-joalharia, arranca esta semana a época das apresentações das novas coleções dos joalheiros de luxo, a par com a Semana de Alta-Costura. A Louis Vuitton mostra (e quer vender) o segundo maior diamante do mundo, capitalizando a afluência à capital francesa de milionários de todo o mundo.

O Cullinan é desde 1905 o maior diamante de todos os tempos e as suas pedras encontram-se na coleção de joias da Coroa Britânica, incrustadas em coroas e ceptros, por exemplo

O Cullinan é desde 1905 o maior diamante de todos os tempos e as suas pedras encontram-se na coleção de joias da Coroa Britânica, incrustadas em coroas e ceptros, por exemplo

Para lá das surpresas (boas ou más) que o interior vier a revelar, esta aquisição é um ‘ato de fé’ da Louis Vuitton, não só por ainda não se saber em quantas pedras de qualidade o Sewelô pode ser cortado. É que esta é a primeira vez que a marca de luxo francesa (a mais valiosa do mundo) adquire um diamante sem o ter pré-vendido a um cliente, como é comum entre os grandes joalheiros. Neste mercado (o que mais cresce no consumo de luxo, em particular na China), a Louis Vuitton ainda está a dar os primeiros passos, tendo em conta que lança a primeira coleção de joias em 2001, desenhada por Marc Jacobs, na época o diretor criativo. Em declarações ao ‘The New York Times’, Michael Burke, CEO da Louis Vuitton diz que se atira a um rio se o Sewelô não for tão rentável como parece...

O negócio dos diamantes vem de um percurso em quebra, apesar do aumento da procura. O impacto da guerra comercial Estados Unidos/China e o crescimento dos pontos de venda, em particular na Internet (que faz aumentar a concorrência, diminuir os preços e as margens de lucro) não têm ajudado o mercado global de diamantes, avaliado em 300 mil milhões de dólares (€271 mil milhões). A De Beers, a maior nesta indústria, prevê vendas de 4,04 mil milhões de dólares (€3,6 mil milhões) em 2019, uma diminuição face a 2018 (5,39 mil milhões de dólares/€4,9 mil milhões). Os diamantes sintéticos, por seu lado, ainda são pouco expressivos (cerca de 5% do mercado), mas a procura cresce com as novas gerações (focadas na sustentabilidade), que são o principal motor do consumo de produtos de luxo.

O The Costellation é vendido pelo valor mais alto de sempre (€57 milhões) à De Grisogono, empresa que agora está na mira da justiça angolana

O The Costellation é vendido pelo valor mais alto de sempre (€57 milhões) à De Grisogono, empresa que agora está na mira da justiça angolana

O impacto dos diamantes nas comunidades onde são extraídos é uma das questões em torno deste negócio, em particular em África, de onde são oriundos na grande maioria. Por esta razão, a Lucara Diamond assume o compromisso de reinvestir 5% do valor das vendas do Sewelô nas iniciativas comunitárias que desenvolve no Botswana. A mina de onde este diamante negro sai em abril de 2019 é a mesma onde, em 2015, é encontrado o The Costellation, pedra com 813 quilates que poderá figurar nas investigações da justiça angolana, reveladas esta semana.

É que, em 2016, este diamante é vendido por 63,1 milhões de dólares (€57 milhões) à Nemesis International, em parceria com a De Grisogono (fundada pelo libanês Fawaz Gruosi), na qual a empresa estatal angolana e Isabel dos Santos e o marido entram quando esta marca de joias, alegadamente, se encontrava em falência técnica devido a uma elevada dívida bancária. O The Costellation ostenta até hoje o título de diamante mais caro de sempre, apesar de ter menos de metade da dimensão do Sewelô, anunciado esta semana nas mãos da Louis Vuitton.

O The 4 de fevereiro é o maior diamante angolano de sempre (404,2 quilates) e é a origem do diamante de 163,4 quilates suspenso num colar de esmeraldas e diamantes, criado pela De Grisogono

O The 4 de fevereiro é o maior diamante angolano de sempre (404,2 quilates) e é a origem do diamante de 163,4 quilates suspenso num colar de esmeraldas e diamantes, criado pela De Grisogono

Não se ficando por aqui, a De Grisogono volta a destacar-se na imprensa internacional um ano depois, ao comprar o maior diamante angolano de sempre (com 404,2 quilates), por 33,7 milhões de dólares (€30,5 milhões), em 2017. Batizado como The 4 de Fevereiro, em homenagem à data do início da luta armada pela independência de Angola (em 1961), ascende à 27ª posição da tabela dos maiores do mundo. O regresso à ribalta da marca suiça, esta semana, não é pela melhor das razões. À justiça fica entregue o aclarar das alegações contra os principais acionistas da De Grisogono. Na Louis Vuitton cruzam-se os dedos para que, por baixo da camada de carbono, o Sewelô se revele um diamante cristalino e rentável. Agora, nem uns nem outros têm mais hipótese de recuo.