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Vida Extra

Inventava um óscar para o George Mackay

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

D.R.

A guerra, soldados caídos, fardas sujas pelo pó e pela terra, a fome, o cansaço e o desalento nos corpos dos homens que lutam. A angústia nos rostos filmados, as cores pálidas e esbatidas que pretendem camuflar ou esconder. Podemos definir o universo de “1917” de Sam Mendes como desesperante, mas também como belo na sua forma de filmar. E não é novidade nenhuma, isto de Sam Mendes saber bem o que faz.

Foi graças ao seu avó que ouviu muitas das histórias, que o inspiraram a criar este filme, as epopeias do seu avó e os dois historiadores que o acompanharam na rodagem do filme: até parece que Mendes ficou um habitual visitante do Imperial War Museum de Londres.

Não sei adivinhar que obras exatas poderia ter lido Sam para se inspirar nesta construção, mas quando se teve um avô que sabia contar histórias, o carinho em continuá-las na tela deve ser ainda maior.

A beleza da sensação dos planos de sequência está sempre lá, é em absoluto um filme absorvente, um épico de guerra que para além das magníficas capacidades técnicas de que todos já ouvimos falar, tem um factor fundamental: os atores, todos eles. Sendo que posso garantir-vos que há muito tempo que não ficava completamente encantada, como fiquei, com a forma de representar de George Mackay. O filme começa quando descobrimos a sua cara, não dá para esquecê-la nunca mais: ossuda e bem desenhada, com um olhar transparente que nos faz perceber as intuições do filme.

De facto a I guerra mundial, não deve ser a temática mais fácil de abordar, está cheia de tópicos pesados, de mágoas e notas históricas imperdoáveis. Presumo que para Mackay tenha sido uma rodagem árdua.

Há cenas bastante delicadas, seja a morte de um companheiro, o confronto com os corpos com que se cruza, a fuga no rio, mas é impressionante como em todas elas não há um segundo em que se deixe de acreditar no seu olhar. As intenções certas, na cara certa, num corpo desgastado que se tenta manter firme, com todas as angustias que chegam.

O filme não é emocionante graças às extraordinárias manobras técnicas, o filme torna-se emocionante pelo trabalho do protagonista. Que soberba forma de representar, natural, verdadeira, presente!

Lamento a sua não nomeação nesta corrida para os óscars, soa-me injusta e impensável. Com tantas grandiosas capacidades técnicas, era bom que não nos esquecêssemos dos atores, porque sem eles só ficavam as explosões e as paisagens.

Se eu pudesse inventava um Óscar para o George Mackay, não podendo, fico esperançosa que os seus 27 anos consigam esperar mais um pouco e sem esforço, para ele segurar uma merecida estatueta dourada.