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Vida Extra

Preciso de falar sobre António de Macedo

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Em 1972 estava o Cinema Novo português convicto, nascia então inspirado na peça “A promessa”, de Bernardo Santareno, um filme com o mesmo nome, realizado por António de Macedo.

Contrariamente aos seus colegas da época: Paulo Rocha, Lauro António ou Fernando Lopes, Macedo construiu com o seu cinema um caminho que vai dar à fantasia, ao paranormal ou à ficção científica. Comum naquelas que eram as crenças do Novo Cinema português, que tanto foi beber à Nouvelle Vague francesa? Nem por isso. Mas nada nos seus filmes é comum se olharmos para o que se fazia nos anos 70 em Portugal.

Às vezes sinto uma necessidade enorme de falar dos filmes de Macedo, é uma espécie de justiça, que reparo que o cinema não lhe deu: ousar realizar filmes do fantástico, num país onde os orçamentos para se criar nunca foram abastados, é sem dúvida um ato quimérico, e aí que está o encanto da sua filmografia.

No cenário para o enredo de “A Promessa” está uma aldeia de pescadores (comunidades de Mira, Tocha e Gala) que nos é apresentada nos primeiros planos de forma crua e sublime. Uma carroça surge, um grupo de vendedores faz anunciar a sua chegada. Pelas reações inquietas e ansiosas que nos são apresentadas percebemos que os maus presságios se aproximam, e é aí que temos a porta aberta para conhecer a história de Maria (Guida Maria) e José (João Mota).

Não, não é inocente a razão desta dupla nos soar familiar, casados há menos de um ano, o casal mantém em cumprimento, um solene voto de castidade como promessa, relacionado com um pedido. Desta forma ganhamos a figura de um casal que por amor à família se mantém longe das tentações do sexo. – Há uma bonita forma de retrato do país, que o realizador nos oferece.

Para quem conhece o texto original de Santareno, o ponto aqui não é a história mas sim a forma como Macedo a pensa e a filma: esta é uma ficção que documenta nobremente o quotidiano das comunidades de pescadores, as rotinas, as romarias, os receios de quem aguarda o fim das longas temporadas dos que trabalham no mar.

Com direção de fotografia de Elso Roque, as cores frias da praia embalam-nos de forma áspera, tudo isto ao som de um canto religioso que desaparece e aparece descoordenadamente, numa espécie de alerta que nos provoca desconforto.

Ouço muitas vezes os lamentos sobre o facto de Portugal nunca ter tido um filme nos Óscares, mas muito honestamente e sem hipocrisia, acho que temos outras alegrias em que nos podemos focar: o cinema de Macedo é uma delas.- Não excluindo obviamente, a extrema alegria que seria ter um filme na corrida das estatuetas americanas.

Em “A promessa”, o desencadear de maus acontecimentos começam a surgir na história, e é possível do campo da superstição olhar para a promessa do jovem casal como a causa dos acontecimentos súbitos: a promessa que não pode ser cumprida e a profanação.

Com olhar de quase antropólogo, António de Macedo faz da sua promessa, um filme portentoso. É tão bonito, tão cheio de pormenores ou de signos prodigiosos que fica difícil não o pensarmos mais vezes, ou gradecer por vir de um autor português.