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Vida Extra

Por estas bandas

A música portuguesa não para de crescer, vários são os músicos que têm enchido grandes salas a cantar em português. A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

D.R.

Lembro-me perfeitamente de ser criança e de perceber que as gerações à frente da minha, primavam por ouvir canções cantadas em inglês. Recordo-me dos meus primos, mais velhos, que apreciavam de facto o escutar da língua inglesa na música. E os nomes das bandas de garagem que eles inventavam? Nem uma tinha uma palavrinha na língua de Camões.

Os meus amigos que já estavam no liceu, e que também gostavam de ter a sua banda, eram todos de “Epic Fusion” para cima. Ouvi-os dizer frequentemente que tudo suava mais bonito naquela língua que não era a nossa... E o português ali à espera, cheio de sentidos e de palavras que vertem tantos amplos significados.

Esta semana, olhava para um cartaz de umas festividades que vão acontecer hoje por Marvila, “Ouro, Incenso e Birra”, promovidas pelas fábricas de cerveja artesanal ali da zona: que belo cartaz e que bela conclusão! Cantar em português tem vindo a crescer de uma forma homérica. Do Luís Severo, passando pela Catarina Munhá ou pelos Cassete Pirata, terminando com João Vaz Silva, Benjamim e com o podcast “Brandos Costumes” em modo Dj Set, está a programação feita.

E o que é que os liga? São habituais comunicadores que dão bom uso à língua portuguesa. “Ferro e Brasa”, canção do último álbum dos Cassete Pirata: é um bonito poema. “Isto de ser mulher” interpretada por Munhá e Hélio Morais ( também ele baterista dos Linda Martini), permanece na nossa língua mãe, e o implacável Luís Severo com o seu último “O sol voltou”, escreveu uma bela epopeia da primavera e do amor, num português encantador. Já o “Brandos Costumes”, tem-nos habituado a escutas que nos preservam os êxitos e os caminhos da música portuguesa, pelas vozes e ideias de Pedro Paulos e Marta Rocha.

Até o nosso cinema documental já chegou aos músicos destas gerações mais recentes, como se vê em “Pontas Soltas” de Ricardo Oliveira, um documentário sobre o terceiro disco de originais dos Capitão Fausto, ou em “Auto Rádio” de Gonçalo Pôla, onde acompanhamos os 5670kms de digressão de Benjamim.

É um curioso e bom facto: as nossas bandas, por estas bandas lusitanas não param de crescer e digo-o com vigorosa felicidade, não estivesse o meu spotify cheio desta geração de músicos surpreendentes.

É de louvar também o trabalho que rádios como a Antena 3 têm vindo a desenvolver ao longo dos anos, um trabalho que valoriza os artistas de cá, com emissões que nos atiram regularmente os nossos músicos aos ouvidos, com presenças frequentes em festivais, destacando sempre o que de bom se tem feito em Portugal.

Que no início da próxima década possa estar a escrever sobre algo tão prazeroso, como é escrever sobre o crescer da música portuguesa.