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Vida Extra

2020 é a morte do streetwear e o renascer da roupa usada

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre a tendência que está a acabar com o streetwear

O streetwear está transformado em ‘mais do mesmo’ e os millennials e a Geração Z estão obcecados com a sustentabilidade e com nostalgia do passado

Quando a maior força do streetwear de luxo na década passada, Virgil Abloh, declara que este é um mercado que vai acabar nos anos 2020, fica-se com a sensação de que algo se está a passar sem que estejamos a dar por isso. A ‘bomba’ lançada em entrevista à revista Dazed, em dezembro, não é uma forma de o fundador da Off-White (e diretor artístico de moda masculina da Louis Vuitton) ter protagonismo nem um reflexo da fase de exaustão física que atravessa em 2019.

É impossível não ficar surpreendida quando o ‘rei’ do streetwear declara a extinção da sua própria área de negócio, na qual é o responsável pela inclusão de novas referências no luxo. Principalmente quando os blusões insuflados, os casacos com capuz e os ténis estão por todo o lado, nas ruas, nos feeds das redes sociais e nas semanas de moda. Aparentemente, o movimento ‘pós-streetwear’ (que eleva o estilo descontraído do dia-a-dia a norma das marcas de luxo tradicionais) parece que ainda não tem os dias contados.

Virgil Abloh considera inevitável olhar para a roupa em segunda mão, trazendo uma abordagem renovada ao conceito de vintage

Virgil Abloh considera inevitável olhar para a roupa em segunda mão, trazendo uma abordagem renovada ao conceito de vintage

Mas Virgil Abloh vaticina que não há capacidade para continuar a vender muito mais ténis, casacos com capuz e t-shirts com logotipos e que há a necessidade de uma nova abordagem de finalidade do streewear. O território das ruas é altamente explorado na década passada não só pela Off-White, Supreme e Vetements, como pela esmagadora maioria das marcas de luxo, em particular a Gucci, a Balenciaga e a Dior, além da Louis Vuitton, onde Virgil Abloh é diretor artístico de moda masculina.

O que é que se passa então para que o visionário, que antevê (e impulsiona) a mudança de paradigma no consumo de moda de luxo, observando o comportamento e opções dos jovens? Além do streetwear se ter transformado em ‘mais do mesmo’, os millennials e a Geração Z estão obcecados com a sustentabilidade e com nostalgia do passado, face à incerteza do presente e do futuro. Neste contexto, é inevitável olhar para a roupa em segunda, trazendo uma abordagem renovada ao conceito de vintage.

O desfile Off-White da coleção de primavera/verão 2019

O desfile Off-White da coleção de primavera/verão 2019

A previsão de Virgil Abloh não é só uma expectativa. A venda de roupa e de acessórios usados está mais florescente do que nunca e multiplicam-se as plataformas digitais que intermediam este tipo de transação. De acordo com os dados da Global Data, o mercado de roupa em segunda mão já vale 24 mil milhões de dólares (€21,5 mil milhões) e até 2023 deverá chegar aos 51 mil milhões (€45,7 mil milhões). Até 2028, será 50% maior do que o mercado do pronto-a-vestir e atualmente já lidera o top 3 das categorias que mais crescem em termos de consumo, à frente da assinatura e do aluguer de roupa.

O vestuário de luxo em segunda mão, vintage, pré-amado ou pouco usado é um nicho dentro dos têxteis reaproveitados e está a ganhar dimensão com as gerações mais jovens. O grupo entre os 18 e os 37 anos está a optar por roupa em segunda mão duas vezes e meia mais rapidamente do que outros grupos etários (os mais resistentes são os acima dos 45 anos). Os mais jovens de todos, a Geração Z, são os mais abertos (46%), à frente dos Millennials (37%), da Geração X (18%) e dos Baby-Boomers. Entre aqueles que compram marcas de luxo, 26% prefere comprar roupas usadas de marcas como Gucci, Chanel ou Prada em vez de modelos novos.

Entre aqueles que compram marcas de luxo, 26% prefere comprar roupas usadas de marcas como Gucci, Chanel ou Prada em vez de modelos novos

Entre aqueles que compram marcas de luxo, 26% prefere comprar roupas usadas de marcas como Gucci, Chanel ou Prada em vez de modelos novos

Os dados da Global Data, que sustentam o vaticínio de Virgil Abloh, refletem também a explosão de lojas e plataformas digitais com vestuário e acessórios de luxo, que já tiveram vidas anteriores. O The RealReal, o maior e a referência na Internet em matéria de compra e venda de luxo usado, revela que 32% dos seus utilizadores está a optar por este segmento em detrimento da compra de roupa nova. As questões de sustentabilidade é o motivo referido por 80% dos utilizadores desta plataforma, de acordo com um estudo do The RealReal.

Em termos de marcas, as mais procuradas neste site são a Gucci e a Louis Vuitton, talvez por serem marcas de luxo tradicionais mas que se adaptaram ao novo perfil de consumidores. Entre as que fazem igualmente sucesso no The RealReal encontram-se a Off-White, a Supreme e a Balenciaga, por serem consideradas bons investimentos. As duas primeiras explodem na década de 2010 no território do streetwear, que está no ‘mindset’ dos millennials. A Balenciaga, criada em 1937, ganha uma legião de jovens fãs ao redefinir a sua história associada à alta-costura, com o lançamento dos ‘triple-s’, modelo de ténis com três solas, que é o ícone dos ‘ugly sneakers’ (ou ‘daddy sneakers’).

A Balenciaga, criada em 1937, ganha uma legião de jovens fãs ao redefinir a sua história associada à alta-costura, com o lançamento dos ‘triple-s’

A Balenciaga, criada em 1937, ganha uma legião de jovens fãs ao redefinir a sua história associada à alta-costura, com o lançamento dos ‘triple-s’

Afinal, Virgil Abloh pode não estar a decretar totalmente a morte do streetwear, tendo em conta que as marcas de luxo mais procuradas em segunda mão no The RealReal são aquelas que estão neste universo. O que isto pode significar é que os ciclos da moda estão tão acelerados que coleções com menos de dez anos já superam o apelo dos clássicos vintage de luxo. A razão pode ser o olhar das novas gerações para as épocas mais recentes (como confirma a atual corrida à roupa dos anos 1990), como o facto de serem peças mais apelativas (e financeiramente mais acessíveis) do que os clássicos.

Neste domínio, os leilões de roupa, joias e acessórios usados há várias décadas que enchem as medidas daqueles que procuram a estética do passado, artigos raros ou que nunca saem de moda. A Sotheby’s e a Christie’s têm sido as mais ativas neste segmento e apresentam a leilão lotes cada vez mais alargados, o que significa que há mais pessoas disponíveis para se desfazerem (e ganharem dinheiro) com as preciosidades que têm no armário. Há menos apego aos bens materiais e mais desejo de reciclar o guarda-roupa. De tal forma, que a leiloeira Bonhams arranca a nova década com a criação de um departamento dedicado a roupa, acessórios e malas. O primeiro leilão está marcado para abril e inclui lotes de pré-usados da Chanel, Dior, Louis Vuitton e Prada.

A nova loja da Off-White, em construção em Miami, é um dos projetos que Virgil Abloh tem para este ano

A nova loja da Off-White, em construção em Miami, é um dos projetos que Virgil Abloh tem para este ano

Com as peças do ‘arquivo morto’ a regressarem e o streetwear a transformar-se em vintage, na entrevista à Dazzed fica-se sem saber se Virgil Abloh vai explorar estes universos. Mas está mais do que provada a apetência deste designer para apanhar primeiro as tendências que andam no ar e redefinir o que é moda de luxo. É com esta sensibilidade que, no início, se depara com o desfasamento entre o mundo real e o da moda de luxo. Nos desfiles das marcas tradicionais, observa a audiência vestida com t-shirt, saia e ténis, opções que não estão refletidas nas passarelas.

A este filho de emigrantes do Gana, que cresce no Illinois, nos Estados Unidos, já ninguém lhe tira o estatuto de redefinidor de referências, seja no design de moda como de impossíveis. Para este ano anuncia a abertura em Miami de uma mega-store Off-White, uma coleção cápsula Louis Vuitton X NIGO e o projeto ‘Small Problems’, que está no segredo dos deuses. Em 2019 fica o processo de exaustão física que atravessa e a recomendação médica para desacelerar, o que o leva a trabalhar a partir de casa e a parar de viajar. A sua mente, essa, continua a pensar no que vem a seguir.