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Vida Extra

Reviver o passado em Savile Row

Uma confissão inesperada, a chegada da Hackett a Savile Row e a história desta rua de Londres ligada aos alfaiates de luxo dão o mote à crónica ‘Sem Preço’ desta semana

Savile Row, em Londres, é sinónimo de alfaiataria de luxo desde o início do século 19

D.R.

Há algo de desconcertante e, ao mesmo tempo, reconfortante nas entrevistas que resvalam para confissões íntimas ou catarses emocionais. Em 25 anos de jornalismo esta é a segunda vez que tal me acontece (a primeira é com Mohamed Al-Fayed, em 2000), estou igualmente em Londres e a conversa desvia-se para um revisitar de feridas do passado.

Jeremy Hackett faz as honras da casa na abertura em Savile Row, em Mayfair, da nova loja J.P.Hackett, a primeira a ser batizada com o seu nome completo e que integra igualmente a cadeia Hackett London. Quando estou frente-a-frente com o fundador da Hackett, penso que o assunto mais sensível a abordar na conversa é questionar a entrada de um conceito de pronto-a-vestir masculino, na histórica rua de Londres dos alfaiates de luxo. Não é que isto seja uma entrada inédita. A Abercrombie&Fitch já está por aqui (com uma mega-store e uma loja para crianças), desafiando a localização que no início do século 19 começa por ser exclusiva daqueles que desenham, cortam e costuram manualmente fatos de homem.

Jeremy Hackett regressa a Savile Row, onde trabalha como vendedor no início da sua carreira, para abrir uma loja no número 14, no espaço do antigo atelier de Hardy Amies

Jeremy Hackett regressa a Savile Row, onde trabalha como vendedor no início da sua carreira, para abrir uma loja no número 14, no espaço do antigo atelier de Hardy Amies

TARAN WILKHU

É a segunda vez que converso com Jeremy Hackett, mas não é por isto que o fundador da marca Hackett abre o coração (nem se lembra que o entrevistei em Lisboa por ocasião da inauguração da loja na avenida da Liberdade). O desbloqueador de conversa acontece quando o questiono sobre a influência dos pais no seu percurso (ambos ligados ao têxtil, nomeadamente a mãe costureira e antiga vendedora da Burberry). A resposta não só desdiz a sua biografia oficial e as suas entrevistas anteriores, como conduz a uma viagem às sombras do passado.

É adotado por este casal aos seis anos de idade (de quem herda o apelido), depois de um percurso terrível por instituições de acolhimento, na sequência de ter sido abandonado pela mãe no momento em que nasce. É fruto de uma relação entre uma inglesa solteira (enfermeira em Oxford) e um médico (casado) da Força Aérea norte-americana, nos anos 1950. Para evitar o escândalo de uma gravidez de um homem casado, a mãe entrega o recém-nascido a um orfanato.

É no edifício de estilo Georgiano que se instala a J.P.Hackett, versão melhorada da Hackett London, com serviço de fatos ‘à medida’ e ‘bespoke’

É no edifício de estilo Georgiano que se instala a J.P.Hackett, versão melhorada da Hackett London, com serviço de fatos ‘à medida’ e ‘bespoke’

TARAN WILKHU

Fala longamente sobre a sua história, sem que eu o incentive a tal. Recorda a primeira infância sem um único brinquedo, a inadaptação à família adotiva, os maus resultados escolares, as dificuldades emocionais e a rejeição inicial por parte da família biológica, quando a procura pela primeira vez há 20 anos, quando tem 46 anos de idade. O drama dos acontecimentos contrasta com a serenidade e paz de Jeremy, que no momento da nossa conversa decide que, neste tipo de entrevista, vai passar a contar a história tal como ela é.

Para mim, o contexto destas revelações é tão desconcertante como a entrevista a Mohamed Al-Fayed, também em Londres mas em 2000. Passam poucos dias depois de o milionário egípcio, dono do Harrod’s e do Ritz em Paris, ter exigido a reabertura do processo em torno da morte do filho, Dodi Al-Fayed, e da Princesa Diana. Estou mais interessada em saber o andamento dos negócios e os futuros investimentos, mas Mohamed Al-Fayed prefere falar-me sobre o fatídico desastre de automóvel em Paris e as dores de perder o filho mais velho, falecido três anos antes. Diz que depois deste acontecimento os negócios deixaram de lhe fazer sentido.

A reabilitação do antigo atelier de Hardy Amies, antigo alfaiate da rainha Elizabeth II, manteve o chão de madeira e a lareira originais

A reabilitação do antigo atelier de Hardy Amies, antigo alfaiate da rainha Elizabeth II, manteve o chão de madeira e a lareira originais

TARAN WILKHU

Aos 66 anos, Jeremy Hackett mostra-se mais apaziguado com a vida. Apesar de não ser mais o dono da marca que leva o seu nome, hoje, no número 14 da Savile Row tem motivo para celebrar. É a subida na escala de valor da Hackett London, marca de pronto-a-vestir masculino, que cria em 1979 a partir de uma banca de roupa em segunda mão, no mercado de Portobello Road, em Londres. A nova loja está instalada no edifício de arquitetura Georgiana que no passado alberga o atelier e a loja de Harry Amies, que se notabiliza por vestir a rainha Elizabeth II entre 1952 e 1989, data da reforma deste alfaiate.

O espaço, reabilitado por Ben Pentreath (arquiteto e designer de interiores britânico), mantém o hall original no piso térreo, que dá acesso às salas com a coleção de pronto-a-vestir e à escadaria. No primeiro andar encontra-se a área dedicada à alfaiataria, seja ‘por medida’ ou ‘bespoke’. Esta diferenciação é necessária porque no primeiro serviço é adaptado um modelo de fato já existente às formas do cliente, enquanto o segundo implica o desenho (de raiz e à mão) a partir das medidas e preferências do cliente.

A alfaiataria ‘bespoke’ distingue-se dos fatos ‘à medida’ por implicar o desenho e corte do tecido a partir das medidas e preferências do cliente

A alfaiataria ‘bespoke’ distingue-se dos fatos ‘à medida’ por implicar o desenho e corte do tecido a partir das medidas e preferências do cliente

TARAN WILKHU

É a alfaiataria ‘bespoke’ que faz desta rua em Mayfair o destino da realeza e de celebridades em busca do fato perfeito. Os alfaiates começam a fixar-se aqui no início do século 19 e as regras ditam que cada loja (que se queira digna do estatuto de alfaiate ‘bespoke’) envergue na porta o nome do respetivo autor. Apesar de, na verdade, o alfaiate-chefe ser um espanhol com menos projeção mediática do que Jeremy Hackett, a nova loja em Savile Row é batizada como J.P.Hackett. Uma denominação única na cadeia que detém mil pontos de venda Hackett London, entre lojas próprias (158), concessões e franchises. O controlo do negócio, esse, está nas mãos do espanhol Pepe Jeans Group, que inclui a marca que dá nome ao grupo e a Façonnable.

O movimento de consolidação há muito que chega também a Savile Row, cujos edifícios são todos detidos pela Pollen Estate. Um fundo imobiliário que trabalha em parceria com a assembleia municipal de Westminster para proteger o legado histórico desta rua. A vontade da Pollen Estate em preservar o passado não invalida a adaptação à evolução dos tempos. A Hackett chega a Savile Row seis anos depois da Abercrombie de criança, no número 3, quase em frente à mega-loja para adultos desta marca norte-americana. Uma abertura que, em 2012, é alvo de forte oposição por parte da associação The Savile Row Bespoke.

A entrada da Abercrombie&Fitch na Savile Row é alvo de protestos, que não conseguem travar a chegada deste gigante norte-americano do pronto-a-vestir

A entrada da Abercrombie&Fitch na Savile Row é alvo de protestos, que não conseguem travar a chegada deste gigante norte-americano do pronto-a-vestir

Stephanie Wolff

A Hackett entra de forma mais suave, ao fazer um up-grade com a estreia na alfaiataria ‘bespoke’ e a contratação de Juan Carlos Benito, o alfaiate espanhol que virá a Lisboa tirar medidas na loja da avenida da Liberdade, a 3 e 4 de abril. Apesar de ter o seu nome na porta, Jeremy Hackett garante-me que não percebe nada de corte e costura e que ninguém iria querer comprar um fato feito por si. Diz que é demasiado preguiçoso para estudar alfaiataria, mas bom a vender e a reconhecer a qualidade dos tecidos, bem como o fato mais adequado a cada pessoa. Conta que há mais de 40 anos chega a trabalhar em Savile Row (com John Michael), mas sempre como vendedor e a encaminhar clientes do pronto-a-vestir para os fatos ‘bespoke’.

A rua dos alfaiates tem vivido outros momentos disruptivos. Em 1969, Tommy Nurter junta-se a Edward Sexton e criam a Nutters of Savile Row, trazendo para a alfaiataria convencional a vibração da época, com os casacos de golas exageradas e as calças à boca-de-sino. Vestem Mick Jagger e Elton John, entre outras celebridades, e três dos quatro Beatles, na foto de capa do álbum Abbey Road (George Harrison opta por calças de ganga). Já nos anos 1990, os designers Richard James, Timothy Everest e Ozwald Boateng dão continuidade ao espírito de irreverência dos Nutters of Savile Row, com o movimento New Bespoke. A introdução de cortes mais contemporâneos e de cores vibrantes (muito presentes nos fatos em tecidos africanos de Ozwald Boateng) marcam uma nova era em Savile Row.

A abertura da J.P.Hackett é acompanhada pelo lançamento da colónia Nº14, em colaboração com a D.R.Harris. A venda é exclusiva no número 14 da Savile Row e no site da Hackett

A abertura da J.P.Hackett é acompanhada pelo lançamento da colónia Nº14, em colaboração com a D.R.Harris. A venda é exclusiva no número 14 da Savile Row e no site da Hackett

TARAN WILKHU

Esta rua estreita e pouco comprida encerra mais histórias, além dos fatos ‘bespoke’ e dos seus clientes famosos. Nos anos 60 alberga a sede da editora dos Beatles, a Apple, no número 3 (hoje a loja de criança da Abercrombie) e o livro ‘Volta ao Mundo em 80 Dias’ localiza no número 7 a morada do personagem principal, Phileas Fogg. No hall de entrada deste edifício há um painel que refere a presença desta personalidade fictícia, mas os vários pisos são ocupados atualmente por fundos de investimento e empresas gestoras de ativos financeiros.

Savile Row carrega às costas um início aristocrático (herda o nome da mulher do 3º conde de Burlington, Lady Dorothy Savile), a história da origem do termo ‘bespoke’e o privilégio de ser o sinónimo mundial de alfaiataria de luxo. Resiste (sem sucesso) à entrada do pronto-a-vestir, acolhe os interesses imobiliários e lida (desde outubro de 2019) com o agravamento de 13% para 25% da taxa de exportação dos fatos para os Estados Unidos, um dos seus maiores mercados de destino. Quando hoje se atravessa Savile Row há vários mundos e percursos num só lugar, mais ou menos compatíveis e pacificados, e com uma história comum. É a busca da harmonia com o seu todo pessoal o que leva Jeremy Hackett a assumir, confortavelmente, o lado menos linear do seu percurso. Tal como Savile Row.