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Vida Extra

Pensar em Ana Hatherly

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

D.R.

Demorei a decidir-me sobre qual o assunto com que iria iniciar este 2020 de crónicas. Viemos de um conjunto de semanas frenéticas que vertiam listas dos melhores e mais surpreendentes, iniciamos agora o ano com palpites e previsões dos que vão dar que falar. É tudo tão efémero, tudo tão rápido, que decidi não me render a nenhum grupo de coisas, mas sim a alguém que está cimentada no meu imaginário: lembrei-me de Ana Hatherly.

Lembrei-me de como é bom lembrá-la com tempo, calma e dedicação.

Tempo é, certamente, uma boa palavra para se descrever Hatherly, ela é o tempo no sentido mais humano e transversal, ela que tanto sabia de tantas matérias, dos dias de hoje e dos outros tempos. Artista plástica, realizadora, escritora e professora de Literatura Barroca, foi uma artista completa e marcante. A sua relação com a época Barroca é fascinante, ela que sempre fugiu daquela ideia básica de que o Barroco é só e apenas o excesso decorativo, ela procurou a sua essência, procurou a verdadeira forma de como o Barroco esculpia o mundo.

É tranquilizante que uma artista tão experimental, que prima pelo prazer de rabiscar, reinventar e colorir seja tão próxima de uma época tão imponente, (ela que nasceu no século XX). Mas o tempo tem dessas coisas, o de observar e absorver o que a arte nos está a falar, e Hatherly ouvia, ouvia e transformava as talhas douradas em danças de tinta nos seus cadernos.

Quando olho para a sua “Romã”, de alguma forma me tranquilizo. É o jogo de cores e de invenção de algo que conhecemos, de uma forma simples e feliz - metamorfoses da romã são vinte e três desenhos em espécie de ensaio.

Talvez fosse por essa sensação de felicidade que Ana chamava a esses momentos de “Happy Hour”: momentos em que se sentava com os seus lápis, tinta ou recortes e se deixava levar livremente para criar aquilo que, ao seu tempo, lhe saia das mãos e da imaginação.

Gosto de pensar em Hatherly de vez em quando, e de olhar os trabalhos dela devagarinho: cor por cor, traço por traço, rabisco por rabisco, pensamento por pensamento, ideia por ideia. A sua obra é vasta e preenchida por matérias intercaladas com o mundo, a Ana soube sempre ser tanta coisa e sempre todas tão bem.

De ano para ano sinto que somos mais dispersos com um desejo sôfrego pelo imediato, gostava de pegar na beleza dos jardins Barrocos e traze-la para 2020, em forma de tempo.