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Vida Extra

Boogie Nights: também vamos mudar de década

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

No filme “Boogie Nights” de 1997, realizado por Paul Thomas Anderson, assistimos a uma passagem de ano, mas também a uma mudança de década. Hoje é o ultimo sábado de 2019, e o próximo já será nos anos 20.

Várias foram já as vezes que vi “Boogie Nights”, em casa ou na Cinemateca Portuguesa, sempre gostei de o repetir, sem nunca ter perdido gosto ou admiração por aquelas duas horas e trinta e cinco minutos. Como já é habito nos filmes de Thomas Anderson, há uma narrativa construída de forma exímia, que neste filme em particular toca o genial.

O meu fascínio nunca diminuiu nem um bocadinho, por mais que já o tenha revisto, é sempre uma agradável surpresa encontrar ou redescobrir os seus fantásticos pormenores.

O filme começa com um plano de sequência absolutamente brilhante, onde a câmara desfila entre néons típicos dos anos setenta, atravessando uma festa num bar, onde vamos encontrar o nosso protagonista: tudo isto ao som de “Best of my love” de “The emotions”.

Um filme sobre a indústria da pornografia, sem qualquer cena de sexo explícita, cenários e adereços apetitosos à época e um grupo de atores que vai de Julianne Moore a John C. Reilly.

Mas certamente que uma das cenas que mais me marcou foi a morte da personagem Little Bill, interpretado por William H. Macy, precisamente em noite de ano novo. Diretor de fotografia da indústria que o filme nos apresenta, na história é também casado com uma das atrizes que vive da pornografia. Numa sequência de embaraços relativos à falta de sensibilidade da sua esposa, Little Bill vinga-se.

Um frame que nos mostra a entrada para a festa, com uma faixa vermelha: “Goodbye 70... welcome 80” - o filme oferece-nos a partir daí outro plano de sequência absolutamente arrebatador. O personagem de H. Macy atravessa a festa à procura da sua esposa, descobre-a a traí-lo ( mais uma vez), o plano caminha de novo entre a festa até ao carro, e regressa ao quarto, onde dispara (não percebemos exatamente em quem): a sequência termina com o seu suicídio.

Há uma qualquer pressão relativa a essa celebração de mudança de ano, uma impertinente sensação de que é suposto tudo ser perfeito. Há uma série de rituais que se aconselham, para que o ano que chega seja ainda melhor que o anterior.

Honestamente tenho perdido a paciência de ano para ano, para essa imposição de diversão social, onde quase somos obrigados a ser extremamente felizes. As ruas ficam insuportáveis e a obsessão por uma felicidade forçada também.

Vale mais ficar em casa a ver um Thomas Anderson, com um bom vinho, claro.