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Vida Extra

Não há São Silvestre como o transmontano

De Miranda do Douro a Montesinho e Vinhais, lembranças e saudades de passagens do ano para lá do Marão

D.R.

Para lá do Marão, além de mandarem os que lá estão, é também para onde os citadinos vão. Não todos, claro, mas aqueles que, como eu, sonham, uma vez por outra, com um simbólico rito de passagem longe das multidões urbanas etilizadas e dos programas tolos de televisão.

A primeira passagem de ano em terras transmontanas de que me lembro foi por volta de 1989, num tempo em que o IP 4 ainda não chegava a Bragança e o IP 5 estava por acabar. A viagem fez-se num UMM emprestado. Só tinha dois lugares porque era a versão de competição e a capota era de lona, ideal, portanto, para o Inverno transmontano… Motor não lhe faltava como provou a atravessar, numa noite escura e fria, os 1200 m da serra de Bornes, ainda que fazendo, numa ou noutra curva, misteriosos gemidos dignos dos efeitos especiais de um filme de terror. Nunca cheguei a saber se não teria atropelado uma alma penada, um trasgo ou um lobisomem.

Conhecemos nessa altura um arquitecto que trabalhava no Parque Natural de Montesinho e nos levou de jipe ao encontro dos segredos deste paraíso nortenho, incluindo a brama dos veados, os uivos distantes dos lobos e os trilhos perdidos entre Rio de Onor e Guadramil. Chamava-se Carlos Guerra e viria a ser director do parque e mais tarde presidente do Instituto de Conservação da Natureza.

Quando os parques tinham director

Nesse tempo, cada parque tinha um director que, bem ou mal, era o rosto local do Estado e da respectiva política ambiental. Havia um Instituto da Conservação da Natureza que supervisionava, melhor ou pior. Estávamos em pleno cavaquismo e, portanto, não era propriamente a época de ouro da política ambiental mas, comparativamente falando, a regressão é profunda: desde há anos que os parques passaram a ser teleguiados a partir de Lisboa e uma nova entidade agregou a Direcção-Geral das Florestas e o Instituto de Conservação da Natureza. Como o todo nem sempre é igual à soma das partes, o novo mega instituto, criado no tempo de Assunção Cristas, nem faz o que fazia a DGF nem o ICN mas, seguramente, menos que os dois juntos.

Recordemos, a propósito, o episódio delirante passado nos últimos Verões com o Estado a delegar em militares da GNR a questão de saber se árvores de fruta, castanheiros, carvalhos ou hortas perto de casas, infringiam, ou não, a lei sobre as faixas de protecção contra incêndios florestais.

Estranho país este onde ainda não se percebeu que a lógica dos gabinetes de consultores não se aplica forçosamente à reforma da máquina do Estado. Se os génios de fato azul, gravata encarnada e folha de Excel pudessem, fundiriam PSP e GNR numa só entidade “porque é tudo polícia”. Da mesma forma em que, no tempo de José Sócrates, se amalgamaram no IGESPAR serviços e escolas de pensamento tão miscíveis como a água e o azeite: a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, cujas décadas de saber precioso em matéria de restauro se perderam e o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) que classificava sítios e construções mas, por regra, não reedificava.

Velas num cruzeiro

Noutra passagem de ano, a base de operações foi Miranda do Douro. Estavam presentes, entre outros, o Pedro Villas-Boas e o Giorgio Bordino, cada um de nós com o seu Land Rover Discovery. E foi com estes 4x4 britânicos transformados em veículos anfíbios que percorremos uma longa azinhaga transformada em sucursal do rio Sabor. À meia-noite comemos passas e abrimos garrafas de espumante num cruzamento de quatro caminhos, resguardado dos poderes infernais por um belíssimo cruzeiro de pedra onde a Margarida e a Ana Barbosa acenderam tremeluzentes velas.

Mais tarde, mostrei a aldeia de Montesinho à minha filha e vimos arder o descomunal madeiro que, segundo a tradição, há-de queimar desde a Consoada até ao São Silvestre. Fizemos a rota pedestre entre o povoado e a barragem da Serra Serrada, perdemo-nos no meio do nevoeiro mas fomos salvos pela ancestral prática dos pastores e caçadores de deixar mariolas (montes de pedras) a marcar o caminho certo. Fomos e viemos num Range Rover em segunda mão que tinha comprado e do qual me despedi, anos depois, com a convicção de que o melhor era embrulhá-lo e mandá-lo pelo correio para o Japão, acompanhado da seguinte missiva: “Esta é a ideia geral do carro – agora trata-se de o fabricar como dever ser…”

Rio Tuela

Rio Tuela

D.R.

Entre três reinos

E já com a Constança um pouco mais crescida estivemos na belíssima casa de Moimenta de Vinhais, à beira do rio Tuela, construção do Parque Natural de Montesinho que, tanto quanto sei, entretanto se degradou. À volta, a Fraga dos Três Reinos que marcava a fronteira entre Portugal, Galiza e Leão e a gruta de Dine, habitada em épocas remotas. Dessa vez usámos uma carrinha VW Transporter que nos deu água pela barba no relvado molhado e enlameado que rodeava a casa.

Um destes anos, volto a soltar o Miguel Torga que há em mim e regresso ao reino encantado de Trás-os-Montes.