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Vida Extra

Ligados à máquina, a conquista da década

A opinião do editor de novas tecnologias da SIC, Lourenço Medeiros, em mais uma crónica "Futuro Extra"

Karl Tapales / Getty Images

Esta foi a grande mudança da década que passou. Esta foi a década em que ficámos ligados à máquina. No anos 80 já Bill Gates sonhava com “um computador em cada secretária, um computador em cada casa”, sem saber ainda o impacto que a Internet viria a ter, como prova a aposta tardia que viria a fazer na rede das redes. O smartphone, o iPhone e o sistema Android vieram potenciar a ideia de um computador em cada bolso.

Hoje, claro que os números variam, devem existir cerca de 3,5 mil milhões de utilizadores de smartphones no mundo. Não é nem metade da população mundial, mas para lá caminha a passos largos. São 3,5 mil milhões ligados à máquina. O smartphone é o interface, a ligação ao mundo todo com que a ficção científica sempre sonhou.

Ao longo destes dez anos, o smartphone que já existia, foi substituindo as nossas máquinas fotográficas, os nossos mapas e depois os GPS, o rádio e o gira discos. Está ainda a mudar a forma como consumimos vídeo e até jogos. Mas, sobretudo, é a nossa ligação aos serviços, às lojas, ao Estado, até aos nossos amigos.

Para os mais novos estar com os amigos é estar permanentemente em rede com o seu círculo, através do pequeno ecrã. O smartphone é a primeira extensão cyber do homem. Afinal, não foi um fio ligado ao cérebro nem braços artificiais com ligações de dados aos computadores. Sem sequer darmos por isso criámos a ligação que nos une à nuvem e sem a qual cada vez menos sabemos viver.

Enquanto essa ligação nos serve está tudo bem, mas temos que estar atentos ao outro lado. Não porque as máquinas vão dominar o mundo, mas porque do outro lado estão homens que percebem muito mais disto do cada um de nós, sobretudo que percebem muito mais disto do que os políticos que supostamente deveriam zelar pelos nossos direitos. Mais ainda, porque nem sempre sabem tanto assim e a verdade é que muitas vezes avançam como o aprendiz de feiticeiro sem a mínima consciência das consequências sociais dos seus actos, e sim, estou a falar dos Zuckerberg deste mundo.

A cada pequena conveniência fomos abrindo mais e mais a porta, ficando mais e mais dependentes, quando nos sentávamos ao computador tínhamos inevitavelmente que sair da cadeira de vez em quando, com o telefone estamos mesmo a ficar ligados à máquina. Não ao telefone em si, mas a tudo a que ele nos dá acesso, aos grandes servidores da Amazon, da Apple ou da Microsoft e mesmo do Facebook. Na próxima década tudo indica que nos preparamos para tornar esta ligação ubíqua, estaremos ligados à máquina, aos tais grandes centros e serviços, estejamos onde estivermos e tenhamos ou não um telemóvel no bolso, e todas as coisas que nos rodeiam farão de certa forma parte da própria máquina.

Parece demasiado? Ficção científica? Falamos daqui a 10 anos.