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Vida Extra

Perdemos a vergonha de entrar em hotéis?

Os restaurantes nos hotéis de luxo são procurados por quem não está hospedado, mais ainda no Natal, escreve a jornalista Catarina Nunes na crónica ‘Sem Preço’ desta semana

O icónico hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, faz história com o seu restaurante como o favorito das estrelas de Hollywood e outras celebridades

A crónica desta semana há muito que anda às voltas na minha cabeça, em busca de resposta para uma pergunta. Porque é que, nas grandes capitais do mundo, a maioria dos restaurantes da moda, os mais procurados por celebridades e as suas entourages, estão localizados em hotéis e isto não acontece em Lisboa?

O fenómeno internacional da popularidade dos restaurantes em hotéis é mais evidente na primeira década dos anos 2000. É quando Londres, Paris, Nova Iorque e Los Angeles apresentam-se como as cidades do momento nesta matéria. Nesta época é frequente as celebridades serem apanhadas por paparazzis a sair de hotéis, que ganham nome por terem um clima de festa. Às cinco estrelas acrescentam um ambiente ‘com onda’ e uma consequente aura de desejo, por serem frequentados pelo jet-set local e internacional.

O hotel Costes, em Paris, tem maior rotatividade no restaurante do que nos quartos

O hotel Costes, em Paris, tem maior rotatividade no restaurante do que nos quartos

Em Paris, o Costes tem maior fama mundial com os frequentadores do restaurante do que com os hóspedes do hotel, dada a rotatividade de clientes ao almoço e ao jantar, bem mais acelerada do que as entradas e saídas dos quartos. O Chiltern Firehouse, em Londres, o Gramercy, em Nova Iorque, e o Chateau Marmont, em Los Angeles, por exemplo, são algumas das referências de restaurantes em hotéis que são um pólo de atração. Não só dos residentes locais (famosos, bem sucedidos e endinheirados), como de turistas com o mesmo perfil ou aspirantes a satélites destas personalidades.

Por cá, os restaurantes em hotéis têm um histórico ligado à formalidade dos almoços de negócios, com empresários, políticos, gestores e advogados sentados à mesa. Para a esmagadora maioria dos portugueses, transpor a porta de um hotel no qual não estão hospedados ainda pode ser intimidante, mas o à-vontade está a crescer. De tal forma que os restaurantes em hotéis são cada vez mais a opção na noite de Natal, com as famílias a passarem aqui a consoada, ou o almoço de dia 25, regressando às suas casas depois das refeições.

O Grill D. Fernando, no Altis Grand Hotel em Lisboa, é um clássico em matéria de abertura a não-hóspedes. Aqui, o jantar e o almoço de Natal estão esgotados desde novembro

O Grill D. Fernando, no Altis Grand Hotel em Lisboa, é um clássico em matéria de abertura a não-hóspedes. Aqui, o jantar e o almoço de Natal estão esgotados desde novembro

João Bessone

O Altis Grand Hotel, na rua Castilho, em Lisboa, é um clássico em matéria de abertura a não-hóspedes. É dos tais que (a par com o Ritz, o Dom Pedro e o Mundial, por exemplo) faz história com os passantes no seu restaurante e bar. De sede do PS em noites de eleições a palco de reuniões secretas, o Altis Grand Hotel é também um dos preferidos este Natal, com o jantar de dia 24 e o almoço de dia 25 no Grill D.Fernando esgotados desde novembro.

Dentro deste grupo hoteleiro, a cafetaria Mensagem, no Altis Belém, tem nesta quadra as mesas completas, desde o início de dezembro. No Altis Avenida, o restaurante reabre no jantar de 25 e a ceia e almoço de Natal têm direito a um cenário a combinar com a época, na sala Rossio. A corrida aos restaurantes de hotéis de cinco estrelas no Natal pode ter várias leituras: há menos pachorra para cozinhar em casa e mais dinheiro para comer fora, as casas têm menos capacidade para receber famílias numerosas ou estamos a viver mais isolados e procuramos passar esta época com companhia.

O restaurante Sítio, no hotel Valverde, convida à entrada de passantes na avenida da Liberdade através de sessões de fado ao final do dia, brunch, pequeno-almoço e chá da tarde

O restaurante Sítio, no hotel Valverde, convida à entrada de passantes na avenida da Liberdade através de sessões de fado ao final do dia, brunch, pequeno-almoço e chá da tarde

A isto soma-se o facto de os restaurantes de hotéis de cinco estrelas serem dos poucos que estão abertos nestas datas, quando a esmagadora maioria da restauração fecha a porta. A hotelaria capitaliza esta situação e faz a sua parte, montando menus com sabor a Natal. O Hotel Valverde, por exemplo, não só alinha com esta tendência como ao longo do ano abre-se cada vez mais aos não-hóspedes. Chá da tarde direcionado para baby-showers, pequeno-almoço, brunch e sessões de fado ao final do dia, além dos almoços e jantares no restaurante Sítio, são os serviços do Valverde que convidam à entrada de passantes na avenida da Liberdade.

A localização, na artéria mais procurada para compras de luxo, e a ausência de porteiro ou de uma entrada imponente (e intimidante) facilitam a circulação de quem está de passagem. Em busca de uma refeição ou de um momento de descanso no pátio do hotel, um oásis na artéria mais movimentada da cidade. Por aqui, cerca de 70% dos frequentadores dos serviços de restauração são pessoas que não estão hospedadas, uma percentagem que é cada vez mais comum em alguns hotéis de luxo.

Atrair quem não está hospedado no Epic Sana Algarve é o que leva o Al Quimia a apostar na alta-gastronomia, com os olhos postos na conquista de uma estrela Michelin

Atrair quem não está hospedado no Epic Sana Algarve é o que leva o Al Quimia a apostar na alta-gastronomia, com os olhos postos na conquista de uma estrela Michelin

O aumento do turismo de qualidade ajuda nesta tendência, mas os portugueses também estão a perder a vergonha de entrar em hotéis. Se até há uns anos, os restaurantes e os bares são pensados para servir só quem pernoita, hoje são posicionados para atrair quem vem de fora. São uma área de negócio em desenvolvimento, com a certeza de que já não chega vender apenas camas. Talvez também porque, nesta matéria, a explosão do alojamento local pode ter tirado alguma clientela, apesar de este movimento poder ter menos impacto na hotelaria de cinco estrelas.

É esta lógica de incentivo às vendas a quem vem de fora o que leva o Epic Sana (na praia da Falésia, no Algarve) a apostar na alta-gastronomia, com o Al Quimia e os olhos postos na conquista de uma estrela Michelin. O restaurante abre e em 2013, mas é remodelado este ano para poder ir mais além em termos da cozinha (que passa a estar aberta para a sala de jantar), do design do interior e da garrafeira. A localização, entre o pinhal da Falésia e vários hotéis de luxo, ajuda a atrair quem busca fine-dining sem pernoitar no hotel. Um grupo que representa cerca de 70% dos clientes do Al Quimia, entre estrangeiros e portugueses.

O Atlântico, no Intercontinental no Estoril, há muito que é percecionado como um restaurante autónomo, por ter entrada direta a partir da rua

O Atlântico, no Intercontinental no Estoril, há muito que é percecionado como um restaurante autónomo, por ter entrada direta a partir da rua

Regressando à Grande Lisboa. No Intercontinental no Estoril, o Atlântico há muito que é percecionado como um restaurante autónomo. A entrada direta a partir da rua faz evitar a receção e o lobby, espaços que são a tal barreira intimidante. Este ano, o Intercontinental dá mais um passo na abertura ao exterior com a inauguração do Bag du Vin, que funciona também como um espaço para receber as visitas dos proprietários dos apartamentos (o edifício tem uma parte de habitação). Neste novo restaurante, os vinhos (com serviço a copo), queijos e enchidos raros e de topo são as estrelas.

Se a oferta cresce e acompanha a diminuição do desconforto, o mesmo não se pode dizer em relação à questão que motiva esta crónica. Porque é que, nas grandes capitais do mundo, a maioria dos restaurantes da moda, os mais procurados por celebridades e as suas entourages, estão localizados em hotéis e isto não acontece em Lisboa? Olivier da Costa é o primeiro, e talvez o único, que sabe criar formatos de restauração em hotéis, que entram nos circuitos dos famosos, profissionais bem-sucedidos, empresários, milionários e turistas endinheirados.

No Seen, no topo do Tivoli Lisboa, é retomada a fórmula ‘ver e ser visto’, que Olivier da Costa já tinha posto em prática no Olivier Avenida, no hotel Avani (antigo Tivoli Jardim)

No Seen, no topo do Tivoli Lisboa, é retomada a fórmula ‘ver e ser visto’, que Olivier da Costa já tinha posto em prática no Olivier Avenida, no hotel Avani (antigo Tivoli Jardim)

A junção da gastronomia a um ambiente com ‘onda’ é a fórmula que permite ao Oliver Avenida, no final da década passada, ser o local para ver e ser visto, com animação à mistura e festas extravagantes. A lista diversificada de contactos de Olivier (amigos e conhecidos nestes circuitos) é o segredo para manter uma movida consistente de celebridades, no seu restaurante no hotel Avani (antigo Tivoli Jardim). Depois de anos a marcar o destino do jet-set , a explosão de restaurantes em Lisboa acaba por dispersar os reduzidos grupos de estrelas para outras localizações.

Olivier da Costa retoma a fórmula que tão bem conhece, no final de 2018, com o restaurante Seen, no topo do Tivoli Avenida com uma vista privilegiada sobre Lisboa. A denominação remete para o propósito deste espaço (ser visto) e é ‘irmão’ do Seen São Paulo (no Tivoli Mofarrej), que tem também Olivier da Costa na liderança. Lisboa parece não ter falta de restaurantes de alta-gastronomia na hotelaria. O que falta é a massa-crítica de Los Angeles, Paris, Londres e Nova Iorque em termos de uma clientela famosa constante, que crie o ambiente de festa. Estamos a perder a vergonha de enfrentar os porteiros, os lobbies ou os elevadores dos hotéis. O crescimento do turismo de luxo ajuda nisto, mas não há como contornar a escala do país.