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Romaria no Alto Lima

Um circuito pelo Alto Lima com passagem pelo castelo de Lindoso e pelo santuário de Nossa Senhora da Peneda

Castelo do Lindoso

Este circuito não chega a ter 50 km mas, por se desenrolar através de estradas estreitas de montanha, pode levar um dia inteiro, sobretudo agora que, de Inverno, as horas de luz são poucas. Começa na aldeia fronteiriça de Lindoso, vai à Senhora da Peneda e termina na aldeia do Soajo. Se é pouco versado em navegação, recordo que o ponto-chave para lá chegar é Ponte de Lima (por sua vez acessível pela A3 a partir de Braga ou pela A 27 a partir de Viana do Castelo). Em Ponte de Lima basta apanhar a via rápida IC 28, direcção Ponte da Barca e, chegado a esta vila, tomar a N 304 para Lindoso/Espanha.

Chegado ao Lindoso olhe para um mapa de Portugal para entender a que ponto a posição ocupada pelo castelo medieval, perto do ponto onde o rio Lima entra em Portugal, era importante. A penetração de forças inimigas ao longo da margem contrária do rio é dificultada pela serra do Soajo. Para norte, até às portas do castelo de Castro Laboreiro, a fronteira natural era o profundo vale do rio homónimo. Para sul do Lindoso estendem-se as cumeadas da serra Amarela e só a Portela do Homem, 12 km a sueste, oferecia a antiga estrada romana como possível caminho de invasão. Por outras palavras, se o inimigo quisesse penetrar ao longo da margem direita do Lima teria primeiro que assegurar o domínio sobre o Lindoso.

Hoje a situação é completamente diferente, já que, devido à construção da barragem do Alto Lindoso, há uma vasta albufeira que se estende Galiza adentro, transformando o curso final do rio Castro Laboreiro num vasto lago (pelo menos até à aldeia de Várzea, na margem direita do referido afluente do Lima). A referida barragem, inaugurada em 1992, tem um dos mais altos paredões portugueses (110 m) e a maior potência instalada (500 mW).

Sentinela da fronteira

O castelo de Lindoso já existia no tempo de D. Afonso III mas D. Dinis mandou ampliá-lo e fortificá-lo. O recinto amuralhado tem a porta virada a sul, ladeada por dois torreões quadrangulares. Do lado norte ergue-se a alta torre de menagem. Após a Restauração (1640) os engenheiros militares portugueses voltaram a prestar atenção ao Lindoso, no contexto da defesa da fronteira do Alto Minho. Se em Castro Laboreiro era fácil derrubar as pontes do planalto para dificultar as expedições punitivas espanholas, aqui no Lindoso havia condições para a movimentação de exércitos de alguma dimensão. Em 1641 começaram as escaramuças de um e doutro lado da fronteira.

Começou-se então a proceder-se à adaptação do castelo medieval à artilharia. Foi construída uma cerca baixa, espessa e de perímetro em estrela envolvendo a fortificação do século XIII e dotada de bocas-de-fogo. As obras só viriam a ficar concluídas em 1720. O primeiro cerco ocorreu logo em 1642, com as obras de modernização ainda em curso. Não obstante, o castelo resistiu. Já com a fortificação abaluartada quase concluída deu-se novo cerco, em 1662. A fortificação foi conquistada mas seria retomada ainda nesse ano.

A poente do castelo estende-se o outro emblema da aldeia: o monumental campo de espigueiros assente numa laje granítica. São mais de 50 destas rústicas construções idealizadas pelos agricultores minhotos para salvaguardarem das intempéries e das pragas de roedores a produção cerealífera, designadamente o milho.

A caminho do vale glaciário

Do Lindoso desça para o paredão da barragem homónima e atravesse para a margem direita do rio Lima a caminho da serra do Soajo. Não sei se à data em que escrevo estas linhas as obras em curso já estarão concluídas. Se, porventura, a travessia pelo paredão da barragem não fosse possível, retroceda meia dúzia de quilómetros pela estrada para Ponte da Barca e corte para o Soajo seguindo daí para a Senhora da Peneda já ao longo da margem direita do Lima. Do Soajo deverá seguir por Adrão e Rouças e daí para o santuário.

Se pôde atravessar a barragem, suba sempre até uma bifurcação, onde deverá seguir pela direita, ignorando logo a seguir o ramal para a aldeia de Várzea, visível lá em baixo, junto ao rio Castro Laboreiro. Continue a subir até perto de Adrão, onde deverá entroncar à direita, seguindo até Rouças. Nesta aldeia as indicações para a Senhora da Peneda são claras. Vá apreciando o impressionante perfil em U do vale glaciário que vai começar a percorrer.

Maravilha barroca

Assim será até ao momento do deslumbramento: a chegada ao santuário. Imagine que por artes mágicas o Bom Jesus de Braga tinha sido transportado para um vale perdido na serra da Peneda. É quase impossível não ter esta sensação quando se olha pela primeira vez para a Senhora da Peneda, tal a semelhança dos dois santuários: o mesmo gosto barroco, a mesma escadaria monumental ladeada pelas capelas da Via Sacra dando acesso à igreja lá no alto.

Santuário de Nossa Senhora da Peneda

Santuário de Nossa Senhora da Peneda

Por aqui passava na Idade Média o caminho usado pelos monges cistercienses do mosteiro de Ermelo (cujas ruínas ainda são visíveis perto da aldeia homónima e do Soajo) nas suas deslocações à casa-mãe, o mosteiro de Fiães, perto de Melgaço (do qual subsiste a igreja românica). O caminho pedestre, recuperado pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês, coincide em parte com a estrada que liga o Soajo a Lamas de Mouro, nomeadamente na Portela do Sapo, ponto mais alto da jornada. O local ganhou esse nome devido à forma de um dos rochedos que o dominam.

Acossados pelo frio, pela neve e pelos lobos, os viajantes encomendavam-se à Senhora das Neves, a quem se prestava culto desde que uma imagem aparecera milagrosamente entre os penedos. A igreja data de 1742, bem como o escadório ladeado pelas capelas da via-sacra. O pórtico de entrada, de marcada traça barroca, é encimado pelas armas reais e data de 1778. Se visitar o local de Inverno poderá ter a sorte de ver a água cair do alto do vizinho Penedo da Meadinha, enquanto se o fizer de Verão, tenha presente que a romaria se realiza de 1 a 8 de Setembro. Para quem tenha boas pernas é possível subir um trilho junto ao penedo e alcançar uma zona alta muito bonita, com uma pequena barragem e uma albufeira de montanha.

Para regressar de carro faça o caminho inverso ao que o trouxe até aqui. Ou seja, se veio pela barragem, ao chegar às proximidades de Adrão vá pela direita, direcção Soajo. Se veio pelo Soajo, nesta mesma bifurcação vá pela esquerda, direcção Várzea e Paradela, descendo até à barragem do Lindoso se isso for possível ou seguindo pela beira Lima até ao Soajo, aldeia de cujas belezas e costumes curiosos vos falei numa crónica anterior, a propósito dos Passadiços de Sistelo.