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Vida Extra

A cabeça de Carmen, a memória e o Brasil

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Foi em setembro de 2018 que nos chegou a notícia que o Museu Nacional do Rio de Janeiro ardia: perderam-se mais de 20 milhões de objetos, uma série de coleções históricas. O que é que significa para o Brasil perder o seu Museu Nacional? O que é que significa, de facto, a história que arde? Em Agosto deste ano, parte da Amazónia ardeu a uma velocidade frenética, queimava-se o pulmão do mundo, lugar e casa de muitos outros. O que o fogo leva não podemos recuperar: os objetos, os signos, o passado. O que é que nos fica? A consciência e a memória?

Memória é talvez das palavras mais bonitas que conheço, e não fosse também o cinema um valente na salvação da mesma. “Tragam-me a cabeça de Carmen M.”, de Catarina Wallenstein e Felipe Bragança, é sem dúvida um filme que vai ao encontro daquilo que é lembrar, um filme que nos agita as recordações, não só através da ideia de uma figura icónica brasileira, mas também do significado de país: um filme político que não precisa de dizer que o é. Existe, corre na tela para os nossos olhos e lança-nos perguntas que fingem não perguntar.

Esta busca pela voz de Carmen Miranda que a Catarina nos dá é a busca de uma voz que tem palavras para nos dizer, que tem pensamentos para falar: a voz de uma mulher que procura incansavelmente a voz de outra, para que se possa ouvir. A mulher que na história foi durante tantos séculos calada.

É emocionante a delicadeza dessa busca, o cansaço que ela provoca, mas que não é mais forte que a persistência. A Catarina tem uma voz que nos tem falado, e o remate final desse facto (sem o ter que provar) é assumir-se também como realizadora e autora de um filme. Assumir uma ideia (ou várias) que são levadas ao cinema, depois de uma pesquisa sobre um país: e o que seriam as pesquisas sem as memórias dos lugares? Um Brasil que arde de fúria, ou que vai mal “como uma imensa casca de banana”.

O que continua a ser belo é o facto de o fogo, por mais que tente queimar as memórias físicas, não apagará a história que nos fica no pensamento nem nas ideias, aliás, no fundo é isso que é a memória.

“A minha voz é grossa, o meu sotaque é falso, eu sou a imitação de um lugar impossível. Eu sou a utopia tropical.” O retrato do lugar possível, daquilo que existe e que está longe de ser utopia, levado ao cinema pelos olhos, pelas mãos e pelo coração de uma dupla, que prima pelo belo e crueza de um país cheio narrativa.

Dia 3 de dezembro no Cinema Ideal, projeção do filme "Tragam-me a Cabeça de Carmen M.”.