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Onde os castelhanos se atolaram

Uma viagem à vila alentejana de Fronteira, cenário de uma batalha histórica e de uma corrida de todo-o-terreno não menos famosa

Famoso quadro de Jaime Martins Barata sobre a Batalha dos Atoleiros

Quando se entra em Fronteira, vindo de norte ou de sul, é praticamente inevitável ir parar à Avenida Heróis de Atoleiros. A batalha aqui travada em plena crise de 1383/85 ocupa um lugar central na mitologia deste concelho alentejano. Aqui o condestável Nuno Álvares Pereira ensaiou as tácticas e armamentos que viriam a garantir a vitória em Aljubarrota e a preservação da independência lusa.

Uma coisa é certa: os portugueses não teriam vencido se uma das características desta região do norte alentejano não existisse. Trata-se dos solos barrentos que após as chuvadas se transformam em atoleiros monumentais.

Capital do todo-o-terreno

 Largada da prova 24 Horas TT/ Vila de Fronteira

Largada da prova 24 Horas TT/ Vila de Fronteira

Esses lamaçais que em Abril de 1384 ajudaram a derrotar os invasores são um dos cartazes turísticos do concelho, já que aqui se disputa há mais de 20 anos a única prova portuguesa de todo-o-terrno realizada em circuito. Os 17 km do perímetro utilizado para a realização das 24 Horas TT de Fronteira ganharam merecidamente o epíteto de “terródromo” por analogia com os autódromos das provas de velocidade ou resistência. Com o que tem chovido nos últimos dias corre o risco de ser rebaptizado “lamódromo” e disso mesmo vos falarei a partir de quinta-feira, mas na Tribuna, quando participar na 22ª edição das 24 Horas TT de Fronteira.

Mas deixemos os mais de 400 pilotos (à razão de 3 a 5 por viatura) e as 85 equipas que largarão para a corrida de 24 horas no sábado às 14 horas, a contas com as últimas afinações das máquinas e definições das estratégias.

Retrocedamos 635 anos no tempo e olhemos para a povoação onde hoje se situa a sede do concelho de Fronteira. Tirando o casario moderno, os silos visíveis ao longe e as estradas asfaltadas, a paisagem não mudou assim tanto: uma zona de planuras entrecortadas de colinas suaves com uma ou outra linha de água, predominando o montado de sobro.

Combater sem cavaleiros

Em 1383 tinha-se aberto uma crise dinástica com a morte do rei D. Fernando sem herdeiro masculino, o que deixava o trono português à mercê

de D. João de Castela, casado com D. Beatriz, filha do falecido rei luso. A perspectiva de um rei estrangeiro era rejeitada por sectores da população como os mercadores e artesãos das grandes cidades, o povo em geral e uma parte da nobreza.

Poucos meses depois de D. João, Mestre de Aviz, ter sido aclamado em Lisboa “regedor e defensor do reino” Nuno Álvares Pereira, responsável pela defesa do Alentejo, resolveu dar batalha a uma hoste castelhana que tinha passado a fronteira e tinha ocupado a vizinha vila do Crato.

Perante a desproporção de forças, muito em especial de cavalaria pesada, o comandante português vai fazer algo de inovador mas que prefigura o que sucederá nalgumas das grandes batalhas da Guerra do Cem Anos entre franceses e britânicos, então em curso. Se na época este conflito dividia os reinos europeus, o mesmo sucedia com o Grande Cisma do Ocidente, opondo os seguidores do Papa de Roma ao de Avinhão. Portugueses e castelhanos estavam em campos opostos: o rei espanhol seguia o Papa de Avinhão e os franceses, enquanto os portugueses eram seguidores do de Roma e futuros aliados dos ingleses.

Nuno Álvares vai tentar compensar a inferioridade numérica e qualitativa com um judicioso aproveitamento do terreno e dos pontos fortes dos seus soldados. A 6 de Abril de 1384 dispõe as suas forças 2,5 km a sul da actual vila de Fronteira numa encosta sobranceira à Ribeira das Belas Águas. A separá-lo dos castelhanos, não só o declive como a zona de barros à volta da linha de água.

Manda desmontar os seus cavaleiros para reforçar a primeira linha de defesa onde a infantaria crava estacas no chão e vira para o inimigo uma linha de piques e lanças. Atrás dos lanceiros, com vista e linha de tiro perfeita sobre o campo de batalha, arqueiros, besteiros e fundibulários cujo tiro se vai concentrar na “zona de morte” para a qual os atacantes vão ser atraídos: o lamaçal a subir onde nem cavaleiros nem infantes conseguem avançar depressa, se estorvam uns aos outros e começam a ser flagelados por uma chuva de projécteis.

Amortecido, graças à lama e ao declive, o poder de choque da cavalaria e com o inimigo incapaz de transpor a primeira linha de defesa lusa, a batalha rapidamente se decide, prefigurando o que virá a suceder em Aljubarrota a 14 de Agosto do ano seguinte.

Aqui, como na Escócia de William Wallace (batalha da ponte Stirling) ou na Normandia (batalhas de Azincourt e Crécy), começará a declinar o papel

da cavalaria pesada como rainha dos campos de batalha europeus que a ainda incipiente artilharia haveria de apressar. Tudo isto é exemplarmente explicado, com recurso a tecnologias multimedia no Centro de Interpretação da Batalha de Atoleiros.

Museu multimédia sobre a batalha

O substrato científico do museu é da responsabilidade de João Gouveia Monteiro, docente da Universidade de Coimbra e um dos melhores especialistas em história militar medieval, autor de livros como “Nuno Álvares Pereira, Guerreiro, Senhor Feudal e Santo” (Manuscrito 2017) ou “Grandes Conflitos da História da Europa”(Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016).

Há uma rota pedestre criada pela Câmara de Fronteira que passa perto do local da batalha e permite perceber melhor o tipo de terreno onde esta decorreu. Trata-se da Rota dos Atoleiros, percurso em anel de 12 km com início e final junto à antiga estação de caminhos-de-ferro de Fronteira e usando partes do antigo Ramal de Portalegre.

Passeios a pé pela planura

O referido ramal unia Portalegre a Estremoz, aqui derivando para Évora ou Vila Viçosa. Com 60 km passava em Cabeço de Vide, Fronteira e Sousel, tendo ficado concluído em 1949. Não resistiu ao “comboiocídio” dos anos 90.

Desactivada a linha, as estações foram-se degradando. As de Fronteira e Cabeço de Vide eram decoradas por belos painéis de azulejos, da autoria de Leopoldo Battistini. A Câmara de Fronteira instalou um centro de estágio e alojamento na estação da vila e recuperou os edifícios. Já em Cabeço de Vide, após alguma depredação e roubo de azulejos, a estação foi adaptada a estalagem com o nome da Rainha D. Leonor.

Decorre agora e por iniciativa do município a adaptação de 12 km do troço ferroviário desactivado entre Fronteira e Cabeço de Vide, a ecopista.