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Sara Simba, a valente guerreira

A crónica de bem-estar de Cristina Diniz ganha nova entrada, sempre à quarta-feira, no Vida Extra

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As crianças pertencem a uma outra dimensão, são admiráveis pela simplicidade e genuinidade com que vivem a vida.

Tenho uma sobrinha chamada Sara, tem 5 anos e é uma menina lutadora e expedita. É muito organizada, honesta, amiga do seu amigo e gosta de ordem nas coisas.

Noutro dia teve uma bela iniciativa. Estava na creche, rodeada de meninos que por sinal estavam agitados e subitamente voltou-se para a educadora e botou discurso: “Isto não pode continuar assim! Vou falar com a minha tia para vir cá dar uma aula de yoga pois estes meninos estão muito irrequietos!”

A professora achou-lhe enorme graça, a minha sobrinha veio falar comigo sobre o assunto e eu preparei-me, pois não a podia deixar ficar mal. Foi assim que aceitei o desafio de ir à creche fazer uma aulinha de yoga para 18 crianças de cinco anos e que nunca tinham brincado a nada assim do género anteriormente.

O dia estava muito chuvoso e triste, completamente a antítese do grupo de meninos e meninas que encontrei e me receberam com sorrisos, olhos emocionantes, palavras sinceras e ofertas de todo o género de desenhos coloridos. A Sara claro, toda ela brilhava de orgulho, mas, azar dos azares, também fremia com febre. Tinha adoecido no dia anterior e nessa manhã cedo, apesar dos conselhos da mãe para se manter no resguardo da casa, ela insistiu em ir, pois era o aguardado dia de yoga na creche.

Falei uns dez minutos antes com as educadoras averiguando se eles sabiam o que era inspirar e expirar, direito e esquerdo, relatei muito por alto a história a que íamos assistir, pedi ajuda para o canto final e posto isto descemos todos a escadaria numa fila indiana imaculadamente ordenada e animada. Uma vez no ginásio sentámo-nos uma roda gigante e estabelecemos apenas uma norma: a música que tocava baixinho não podia deixar de se ouvir para que todos escutássemos a missão que tínhamos pela frente.

Como homenagem e agradecimento a esses 18 meninos encantadores que tão bem se portaram e porque tantos deles no final me perguntaram se também havia o filme da história inventada, aqui fica o conto escrito.

“Num reino muito longínquo existe um príncipe chamado Gopala com mais ou menos a vossa idade, só que ele está a ser ferozmente atacado por um demónio mau chamado Kasipu. Desesperada, a família do príncipe pediu ajuda às crianças de todo o mundo para que os ajudassem a salvar o seu filho encantado. Então, nós, o exército dos Simbas, temos uma importante missão e somos guerreiros bons com poderes especiais para combater Kasipu. Vamos partir cedo e muito calmos pois temos uma grande viagem pela frente.

Sentamo-nos serenos e como o Sol está a nascer fazemos uma saudação e uma respiração solar para energizar, usando apenas a nossa narina direita. Para isso, com os dedos da mão esquerda tapamos o buraquinho esquerdo do nariz e respiramos tranquilamente pelo direito.

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Partimos, caminhando por montes e vales e imitamos as montanhas que encontramos, imóveis, altas. Ninguém mexe, direitinhos.

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Vemos árvores de todo o tipo, bem enraizadas no chão, umas até abanam com o vento.

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Unidos caminhamos tanto que, por vezes, até já conseguimos ver o mundo ao contrário.

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Olhem, que lindo bando de borboletas coloridas, amarelas, laranja, verdes, lindas. Vamos fazer como elas. Juntamos os pés, agarramos nos tornozelos e abanamos as pernas.

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Uau! E ali à frente, vejam, tantas flores bonitas, as suas pétalas abertas ao Sol. Que cores vibrantes: vermelhas, cor de rosa, roxas. Conseguem imitá-las a abrir as suas pétalas? Vamos fazer. Agarramos perto dos pés, afastamos e abrimos as pernas para o alto.

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Simbas, agora é altura de atravessarmos um grande rio de barco. Temos de chegar à outra margem, ninguém pode tombar. Aí vamos nós, navegando até ao nosso destino final, equilibrados e felizes.

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Conseguimos! Que bom. Esperem, cuidado, aqui já existem animais ferozes, vamo-nos disfarçar e agir como eles.

Aqui uma pantera, acolá um tigre

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Creio que estamos muito perto do reino de Gopala. Acho que estou já a ouvir ruídos do exército do demónio Kasipu.

Vamos espreitar por detrás das nossas costas, com cuidado, lentamente, olhar dum lado e do outro …

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Ah! Ah! Ali estão! Simbas, todos de pé. Vamos lutar contra os maus! Somos guerreiros corajosos.

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Esperem, esperem. Daquele lado vêm guerreiros bons para nos ajudar. Mudamos para o guerreiro da paz e unimo-nos a eles. Erguemos bem o braço esticado em sinal de paz.

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Agora sim, todos juntos vamos fazer um cerco, combater e derrotar por completo o demónio Kasipu que atormenta o príncipe Gopala.

É chegada a hora de vos contar sobre os nossos poderes especiais. Nós Simbas estamos dotados de uma força de leão, tornamo-nos meninos e meninas leões e assim o vamos vencer e destroçar. Vamos esticar muito os braços, abrir muito os dedos das mãos como se fossem garras ferozes, inspiramos profundamente e quando expiramos, tiramos muito a língua de fora, fazemos caras de maus, olhamos para a ponta do nosso nariz ou fixamos os olhos entre as nossas sobrancelhas e rugimos, rugimos como leões zangados e decididos a vencer.

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E assim acabámos com o demónio Kasipu e todos juntos salvámos o belo príncipe Gopala.

A sua família e amigos descansados, felizes e muito gratos convidaram todos os meninos para uma grande festa e ensinaram-nos esta música Gopala, Gopala, Devakinanda Gopala que vamos entoar num tom bem alegre.

E agora, finalmente podemos relaxar, aquietar, pois fizemos uma bela ação. A Lua já vai alta no céu e vamos também saudar e agradecer à Lua por nos ter guiado e protegido. Sentamo-nos serenos, tapamos com o dedo o buraquinho direito do nosso nariz e respiramos só pelo lado esquerdo.

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Simbas, a nossa missão chegou ao fim e podemos descansar felizes. Vamo-nos deitar, acalmar, deixar as mãos sobre o nosso coração, escutar e sentir a nossa respiração. Bem calmos e contentes.”

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E assim termina a história e a prática de yoga na creche da minha sobrinha.

Todos os meninos e meninas foram encantadores, muito sinceramente portaram-se lindamente, colaboraram e mantiveram-se atentos e valentes guerreiros na altura certa.

Próximo do fim já a minha doce sobrinha Sara Simba tremia e ardia em febre. Ela sim, foi extraordinária e uma valente guerreira. Teve a iniciativa, propôs à educadora, convenceu (muito facilmente) a tia, deu indicações prévias aos colegas para se portarem muito bem, argumentou com a mãe e persuadiu-a a ir à creche mesmo doentinha, lutou e aguentou até ao fim. Uma verdadeira e magnífica heroína.

O yoga toca assim esses meninos e meninas, e eu desejo que se mantenham sempre com o espírito aberto e o carácter alegre, sincero e singelo que lhes é próprio.

Namasté.

Boas práticas!