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Vida Extra

Clarice: atriz cantautora, tipo analgésico

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

D.R.

Foi no verão de 2016 que tropecei nas cancões de Clarice Falcão, bem depois de ter conhecido o seu trabalho como atriz. Uma figura que me fazia parar nela quando olhava o ecrã, parar no seu humor peculiar, leve e delicado, polvilhado de uma ironia charmosa.

O seu trabalho no projeto Porta do Fundos era completamente notável, a Clarice era especial. Há uma espécie de nuvem de criatividade que lhe sai cada vez que respira. Ela é autora a explodir de narrativas, com um vocabulário que só uma atriz (como ela) consegue conjugar. Escrevo hoje sobre Clarice, pelo simples facto de andar há semanas, (novamente) em passeios pelo seu álbum de estreia: cada vez mais me faz sentido a sua posição enquanto artista, enquanto criadora.

Se há álbum que me faz estremecer de compaixão, é o seu “Monomania” de 2013, as suas letras são pequenas histórias que perfeitamente podiam ser transformadas em curtas, que a tela apreciaria. Do amor ao ciúme, do cinema à vida real, que por vezes tem golpes mais cinematográficos que um argumento pomposo, ou do medo à dor, resolvidos com copos de whiskey.

As suas cancões são poemas do contemporâneo, onde não há medo de assumir os tabus que se sentem numa relação. A sua escrita é de uma liberdade calmante e transversal a uma quantidade imensa de jovens mulheres: quem nunca esperou até o bar fechar, ou imaginou narrativas trágicas que ultrapassam a ética?

Clarice é a representação do universo da mulher pronta e imparável, que aguenta as maleitas do mundo, mas que assume que dói e que deixa ferida. O assumir da vontade da existência de momentos Kitsch e de grandes golpes dramáticos, sobre o não sair da vida daquele que se ama.

Mas o que me atrai tanto naquilo que escreve, é o seu mundo de intérprete levado às canções: o desfoque das camaras de filmar para definir os protagonistas, a alusão à mudança de argumentistas da vida real, ou a sugestão de posicionamento de um beijo para que na tela imprima bem, só que no quotidiano. Esse constante vigiar de ações, que tem tanto de cómico como de verídico, oferece ao seu trabalho uma graça imensa que tem um ingrediente adorável: uma espécie de ingenuidade bem moldada.

A sua galáxia de histórias é infinita, e quando penso na Clarice penso nela como uma belíssima inspiração. Clarice, uma atriz cantautora tipo analgésico.