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Vida Extra

Os sonhos anti-Web Summit e a Porsche

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre como os sonhos partilhados por 100 pessoas num jantar anti-Web Summit têm a ver com a Porsche

Uma mesa disposta em forma de serpentina é o cenário montado para a partilha dos sonhos de vida de 100 convidados

Sebastian Kubatz

O convite apresenta-se claro e dá-me direito a um arrepio na espinha, sinónimo de entusiasmo (ou de pânico). Partilhar os meus sonhos pessoais com 99 pessoas, em torno de uma mesa de jantar, onde se encontram pessoas de várias nacionalidades e distintos interesses profissionais. O objetivo da extravagância? Revelar desejos de vida, sem limites de razoabilidade, num encontro marcado pelo propósito de trazer humanidade aos negócios, na era da inteligência artificial.

O exercício soa-me a uma espécie de psicodrama em grande escala, mas o entusiasmo sobrepõe-se ao pânico a partir do momento em que assumo a presença apenas como observadora dos acontecimentos. O convite assinado pela Porsche X House of Beautiful Business leva-me até ao número 130 da rua do Comércio, a antiga morada da sede do banco do BPI, na Baixa de Lisboa, onde se encontra um Porsche Taycan estacionado à porta

O Taycan assinala a entrada para o jantar dos humanistas da House of Beautiful Business. O mesmo modelo de carro que estaciona num dos palcos de conferências do Altice Arena, durante a semana de celebração das máquinas, na Web Summit

O Taycan assinala a entrada para o jantar dos humanistas da House of Beautiful Business. O mesmo modelo de carro que estaciona num dos palcos de conferências do Altice Arena, durante a semana de celebração das máquinas, na Web Summit

Sebastian Kubatz

É o mesmo modelo que, ao longo dos cincos dias da Web Summit, está estacionado num dos palcos de conferências no Altice Arena. Durante esta semana, a House of Beautiful Business monta o quartel-general na Academia das Ciências, onde decorre o encontro anual desta comunidade pop-up que quer trazer beleza aos negócios. A ideia é celebrar a vantagem humana em relação às máquinas, a capacidade de amar e de sofrer, transcender e imaginar, e não apenas prever e agir.

A primeira edição do encontro da House of Beautiful Business, em 2017, decorre em Barcelona durante a semana tecnológica do World Mobile Congress, mas desde 2018 desloca-se para Lisboa em datas a coincidir com a Web Summit. Falar sobre humanidade em oposição aos algoritmos é a batalha da ‘casa’ que quer negócios bonitos. Com alma, diversidade, integridade e sustentabilidade. Uma voz de contracorrente ao domínio digital que, na edição deste ano, tem a força de 100 participantes, face aos 70.469 presentes na Web Summit.

O menu Life Dreams propõe nostalgia, melancolia, aspiração e visão como pontos de partida para revelar sonhos de infância, perdidos, desejados ou épicos

O menu Life Dreams propõe nostalgia, melancolia, aspiração e visão como pontos de partida para revelar sonhos de infância, perdidos, desejados ou épicos

Sebastian Kubatz

É com esta centena de sonhadores (fundadores e CEO das próprias empresas, colaboradores da Porsche, cientistas, músicos, investidores e ativistas, entre outros) que me sento numa mesa que serpenteia pelo 4º piso da antiga sede do BPI, num edifício pombalino do século 18 que se encontra vazio enquanto aguarda obras de reabilitação. Olho para o menu na expetativa de saber o que vai ser servido. Nostalgia como entrada, melancolia e aspiração como primeiro e segundo pratos e visão como sobremesa.

Cada um destes ‘pratos’ é apresentado com perguntas que pretendem instigar a revelação de sonhos, sejam de infância, perdidos, desejados ou épicos. Fico-me pelos pratos preparados por Sebastião Castilho, chef do programa ‘Just Cook It’ e autor do blogue Simply Sebastião. Sopa de cogumelos, atum dos Açores com sementes de sésamo, galinha com vegetais e brownie. Ao longo da refeição são poucos os que se aventuram a discorrer (de pé e microfone na mão) sobre o seu sonho de vida. Para tornar a coisa menos constrangedora, os comensais são convidados a gritar o seu sonho, numa frase curta, enquanto se levantam e acompanham a onda de braços no ar.

Pensar um futuro sem limites de possibilidades é o que leva a Porsche a associar-se à House of Beautiful Business e a patrocinar o jantar produzido por esta comunidade pop-up

Pensar um futuro sem limites de possibilidades é o que leva a Porsche a associar-se à House of Beautiful Business e a patrocinar o jantar produzido por esta comunidade pop-up

Sou repreendida por quebrar o efeito de dominó, mantendo-me sentada a escrever os sonhos que vão sendo disparados. Acabar com a Web Summit, ser presidente do Galatasaray, saltar de um avião sem paraquedas, o fim das fronteiras e inventar o teletransporte são alguns dos desejos e estão em linha com o mote da House of Beautiful Business: divagar no território do improvável até ao absurdo. Alguns dos sonhadores, mais prosaicos e mundanos, contentam-se com uma boa sobremesa, irem a lugares de que gostam, mudarem-se para Lisboa ou terem um Porsche.

Pensar um futuro sem limites de possibilidades é o que leva a Porsche a associar-se à House of Beautiful Business e a patrocinar o jantar produzido por esta comunidade fundada por dois alemães consultores de marketing, Till Grusche e Tim Leberecht. Nuno Carmo Costa, diretor de marketing e relações-públicas da Porsche Portugal, explica que a ligação à House of Beautiful Business começa na Alemanha, onde já trabalham em conjunto numa perspetiva de pensar o negócio dos automóveis de luxo. O objetivo é abrir janelas de reflexão para outras áreas de eficiência empresarial, além dos lucros financeiros.

Uma centena de sonhadores (fundadores e CEO das próprias empresas, colaboradores da Porsche, cientistas, músicos, investidores e ativistas, entre outros) sobe até ao 4º piso do edifício do século 18, que é a antiga sede do banco BPI

Uma centena de sonhadores (fundadores e CEO das próprias empresas, colaboradores da Porsche, cientistas, músicos, investidores e ativistas, entre outros) sobe até ao 4º piso do edifício do século 18, que é a antiga sede do banco BPI

Até porque isto já está concretizado. A oitava geração do icónico modelo 911 ostenta o título de carro mais rentável de 2019, quando comparado (em termos proporcionais) com qualquer outro (de todas as marcas) lançado em 2018. Este é também o modelo responsável por quase 30% dos lucros totais da marca, mesmo representando apenas 11% das vendas globais, de acordo com os dados da Bloomberg Intelligence. Com todos os modelos, as vendas mundiais em 2018 registam um aumento de 3%, para 256.255 veículos. Em Portugal totalizam 737 unidades vendidas em 2018 e a previsão para o fecho de 2019 é chegar às 770/780. Isto num contexto em que o mercado automóvel global está a decrescer cerca de 3%.

Estes números desafiam não só a tendência do setor como o próprio passado da Porsche, que em 1992 esteve à beira da falência e a ponderar a extinção. A salvação chega nesta data com a entrada de Wendelin Wiedeking, o novo presidente, que decide reformatar a produção e implementar o método Kaizen. Este sistema de foco na eficiência materializa-se com a criação de um novo modelo desportivo, usando metade das peças do 911, para ter economias de escala e um preço final mais baixo. Assim nasce o Boxster (em 1996), que há quem apelide de ‘911 dos pobres’.

Uma pista elétrica com carros de brincar democratiza o sonho de conduzir um Porsche

Uma pista elétrica com carros de brincar democratiza o sonho de conduzir um Porsche

Conduzir um Porsche (seja o modesto Boxster ou o luxuoso 911) é um sonho de vida partilhado por muitos e acessível a poucos, como é suposto ser uma marca de luxo. A House of Beautiful Business subverte esta lógica durante o jantar de sonhadores, recua até à infância e ‘democratiza’ a emoção associada a guiar estes carros. Coloca dois Porsche de brincar a disputar a dianteira numa pista elétrica, instalada na sala no rés-do-chão da antiga sede do BPI, onde se inicia a noite de imersão no universo da fantasia.

O sonho de brincar com uma pista de carros, partilhado por inúmeras crianças e outros tantos adultos, não me enche as medidas e decido-me a decifrar as frases em inglês, sobrepostas numa das paredes da sala. Não é tarefa fácil porque as palavras assumem sequências diferentes, dependendo do filtro (azul ou vermelho) que é usado para as ler. A intervenção é da autoria de Miguel Januário (o nome por trás do projeto artístico maismenos) e convida à reflexão sobre a mudança e o futuro.

A intervenção com frases em inglês é da autoria de Miguel Januário (o nome por trás do projeto artístico maismenos) e convida à reflexão sobre a mudança e o futuro

A intervenção com frases em inglês é da autoria de Miguel Januário (o nome por trás do projeto artístico maismenos) e convida à reflexão sobre a mudança e o futuro

No que diz respeito ao que está para vir, a Porsche quer pensar o seu negócio sem ser numa situação limite, como em 1992, na eminência de falir. A obstinação com o lucro que a faz criar o Boxster é a mesma que hoje impulsiona a procura de rentabilidade não só na produção como em todas as áreas da empresa. A tendência nos automóveis indica que produzir e vender não será suficiente no futuro. Nuno Carmo Costa refere um estudo da Accenture que indica que 48% da população mundial está disposta a abdicar do carro próprio.

Uma constatação que é o pesadelo para qualquer construtora automóvel, mas também uma oportunidade para explorar o menos óbvio. Neste território, a Porsche posiciona-se para tornar realidade o sonho de não precisar de ter carro, seja com leasings temporários ou com a entrega de alguns carros a embaixadores da marca, que se encarregam de os alugar. As possibilidades de novas formas de mobilidade são tão ilimitadas como os sonhos partilhados na mesa em serpentina, onde apenas uma pessoa assume que está a viver o seu sonho. Seja lá ele qual for.