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Vida Extra

Os Muros não se erguem

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Markus Senft / EyeEm / Getty Images

Esboço um ligeiro sorriso quando, há umas duas semanas, reparo que a viagem que tinha marcada para Berlim coincidia, precisamente, com a data de celebração dos 30 anos da queda do muro. Celebra-se hoje essa data, símbolo de liberdade, que desejo honestamente que não saia da nossa órbita histórica, política ou até pessoal. É o passado que nos ensina a fazer o futuro.

A celebração dos 30 anos da queda do muro tem mais cinco anos que eu — o que faz com que a minha perceção sobre o assunto seja apenas através dos livros, dos jornais e de relatos do meu avô materno, que viveu numa Alemanha (como ele dizia) “peculiar”. Ouvi-lhe muitas histórias, falava de Colónia com carinho, mas tinha episódios infelizes que partilhou comigo, sobre os seus amigos de outros lugares, de quem simplesmente nunca mais ouviu falar. Regressou definitivamente a Portugal um ano antes do muro cair, e ainda que eu fosse apenas uma criança, recordo-me dele falar da queda do muro, anos mais tarde, com uma alegria imensa, com uma sensação de vitória justa. O meu avô só podia estar certo quando partilhava comigo o entusiasmo dessa história tão real.

A história ajuda-nos a moldar as convicções e o meu avô ajudou-me a compreender a história. Tenho caminhado pelas ruas de Berlim e esforço-me para pensar na liberdade que tenho hoje nas mãos. Esforço-me para ser consciente da sua existência, olhá-la nos olhos e dar-lhe valor. Acredito que ser livre é o bem mais precioso que se pode ter dentro de um país.

Aprender com os erros do passado podia ser um mote para os dias de hoje, até porque trinta anos não são suficientes para nos esquecermos dos malefícios que um muro pode provocar.

Ao entrar na Akademie der Künste, e ao confrontar-me com uma fotografia postal da Sibylle Bergemann, relembro a sua obra melancolia, e a crueza que lhe chegou do Leste da Alemanha, onde viveu grande parte da sua vida: que memória da história nos sopre ao ouvido, e nos ensine que muros que caem, não se erguem.