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Vida Extra

Serenata à chuva de Reguengos a Mafra

Um passeio fora de estrada, das margens do Guadiana aos barros de Mafra

200 km de pistas de terra entre Alentejo, Ribatejo e Oeste

Photo Tabanez

Já houve quem dissesse que os 700 km da Estrada Nacional 2 são uma radiografia à espinha dorsal do território português, desvendando a diversidade de paisagens e povoamentos que se sucedem de norte para sul, das serranias transmontanas e beirãs até ao Alentejo e ao Algarve.

Há outro percurso, menos extenso mas não menos instrutivo, que consiste em ir da albufeira de Alqueva ao Atlântico, percorrendo Alentejo, Ribatejo e Oeste. E se estas duas centenas de quilómetros forem feitos, não pelo asfalto mas pelos caminhos rurais, mais surpreendente será a jornada. Se a N2 for uma radiografia, então esta outra viagem será uma espécie de TAC ou de ressonância magnética, permitindo ver para além das limitações decorrentes da viagem por estrada ou auto-estrada.

E, sobretudo, descobrir na paisagem e no traçado das próprias pistas os sinais, por vezes subtis, da transição da planura alentejana para a lezíria ribatejana. Tudo isto com alguns aguaceiros pelo meio, enriquecendo a experiência sensorial com jogos de luzes e sombras e uma vasta panóplia de cheiros. Com a vantagem, em termos de condução, de a chuva fazer assentar o pó e tornar os pisos menos desgastantes para as mecânicas.

Foi exactamente o que fizeram os participantes no passeio TT Reguengos-Mafra realizado pela Prolama, organização promotora de actividades fora de estrada, na maior parte dos casos competitivas mas algumas vezes lúdicas, como foi o caso no fim-de-semana coincidente com o Dia de Finados.

Estrelas, nuvens e Alqueva

Travessia noturna do burgo medieval amuralhado de Monsaraz

Travessia noturna do burgo medieval amuralhado de Monsaraz

Photo Tabanez

Há cerca de um ano, no feriado do 5 de Outubro, a viagem tinha sido feita em sentido inverso como oportunamente vos referi numa crónica desta série. Agora a partida foi em Reguengos de Monsaraz. Uma pequena etapa nocturna, realizada entre a sede do concelho e o burgo amuralhado de Monsaraz, permitiu descobrir um dos novos atractivos da região: o Observatório Lago Alqueva, centro de observação das estrelas num local tão livre quanto possível da poluição luminosa.

Não é que a noite estivesse muito estrelada, bem pelo contrário, mas pelo menos voltámos a aprender uma coisa sempre útil quando se anda de noite no campo: como identificar de forma expedita a Estrela Polar e, portanto, a direcção aproximada do norte geográfico. Mal daqueles que se tornaram escravos do GPS e do smartphone e não se sabem orientar à moda antiga se a electrónica falhar…

No coração da Tapada de Mafra

No coração da Tapada de Mafra

Photo Tabanez

Sábado de manhã começou a viagem na direcção de Mafra. Os primeiros quilómetros, de Reguengos até aos arredores de Évora (estação do Monte das Flores), deram-nos um retrato actualizado do Alentejo do século XXI, a começar por muita vinha, alimentando uma produção que não fica a dever à do Douro ou do Dão, tanto em qualidade como em quantidade.

Oliveiras, antas e menires

Tão ou mais patente na planura, uma outra mudança, esta de consequências ainda mal avaliadas: o plantio de milhares de renques de oliveiras anãs. Se estas estão adaptadas à apanha mecânica e produzem azeitona, cedo e muito, são geneticamente mais fracas e precisam de ser regadas quando não adubadas. Ao contrário da oliveira comum que é uma árvore bíblica, de uma longevidade a toda a prova…

Pelo caminho, foi aparecendo um ou outro troço mais escorregadio ou barrento para os condutores poderem aquecer as mãos e não pensarem que estavam a guiar nalguma espécie de auto-estrada para jipes…

Aquilo a que hoje chamamos Alentejo é habitado desde tempos imemoriais. A prová-lo, sucessivos vestígios da civilização megalítica de há 7000 anos em torno de Évora, entre antas e cromeleques (agrupamentos simétricos de menires). Ao cromeleque dos Almendres, mais antigo que o de Stonehenge no sul da Inglaterra, com a sua centena de monólitos só se chega por caminho de terra, ainda que acessível a qualquer veículo.

Transição de paisagem

E por terra (e água, pois chovia intensamente) se prosseguiu na direcção do castelo de Montemor-o-Novo. O rumo nordeste levou-nos às proximidades de Lavre. Foi nesta zona que se começou a desenhar a transição da planura para a lezíria. O terreno ganhava mais relevo, feito de colinas pequenas, a paisagem tornava-se mais arborizada, misturando pinhais e montados de sobro e, ao longo das linhas de água, começavam a surgir os primeiros arrozais.

A própria natureza das pistas também foi mudando. O piso tornava-se muito mais arenoso, com encadeados sucessivos de curvas e, num ou noutro local com alguma lama. Não muito longe, os famosos estradões entre Coruche, Lamarosa e Montargil onde chegou a decorrer a última classificativa do Rali de Portugal e por onde também se passava na saudosa Baja Portugal 1000. Era onde se andava mais depressa mas, com aquele piso e aquela largura de pista, não deixava de proporcionar uns minutos de descontracção pois, uma vez percorrido este troço, não tardaria a aparecer a sempre trabalhosa travessia a vau do Sorraia perto do Couço…

O convento e o memorial de uma viagem começada no Alqueva

O convento e o memorial de uma viagem começada no Alqueva

Photo Tabanez

Uma paragem para almoço junto à abandonada estação do Lavre pôs-nos a pensar na razão pela qual o Ramal de Vendas Novas passou apenas a ter serviço de mercadorias, deixando à margem da rede ferroviária nacional localidades como Coruche, Muge, etc.

Perto da Aldeia do Peixe e de Benavente, houve alguns momentos de divertimento em pistas muito escorregadias atravessando as zonas baixas ocupadas pelos arrozais, tendo ficado quase a ser inventada uma nova receita chamada arroz de jipes salteados.

Através dos barros saloios

No último dia, domingo, oportunidade para redescobrir as paisagens da zona saloia entre Mafra e Cheleiros, com travessia a vau do rio Lisandro e subida de alguns declives bastante barrentos, cavados e escorregadios, proeza que, como ficou demonstrado, não está ao alcance de todo…

Outra redescoberta, a de um empreendimento surpreendente a meia hora de viagem de Lisboa, a Aldeia da Mata Pequena, povoado saloio meticulosamente recuperado do abandono e onde se pode pernoitar em casas semelhantes às dos nossos bisavós, conciliando a tradição com o conforto dos nossos dias. E por falar em tradição um dos dois responsáveis do projecto (sendo estes Ana e Diogo Batalha) tem a quem sair: é neto do ceramista José Franco que criou a aldeia saloia miniatura no Sobreiro (entre Mafra e Ericeira).