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Vida Extra

O clamor de Antígona

A autora Judith Butler, assume Antígona como uma figura anti-identitária. Que mulher seria nos dias de hoje?

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Aquilo que nos chegou dos Gregos continua a ser levado a cena, a ser discutido, a ser pensado. Refiro-me essencialmente e neste caso em particular, às peças teatrais como Édipo ou Antígona. A vontade de fazer o chamado repertório por parte de alguns encenadores continua a existir, mas desconstruí-lo ou repensá-lo com outras fórmulas (pós) dramáticas, também.

Que mulher seria Antígona nos dias de hoje? Que mulher seria Antígona, hoje num país como Portugal? Pode ser pensada como um ícone feminista, com uma causa transversal a tantas outras mulheres? Há na peça uma luta de géneros?

A autora Judith Butler, assume Antígona como uma figura anti-identitária, ou seja, na sua perspectiva, a personagem da peça de Sófocles define-se com traços marcadamente andrógenos, justificando-o não só, mas também pela forma corajosa como ela enfrenta o poder do rei: rei esse que refere que nenhuma mulher deverá nunca assumir o seu poder.

Filha de um casamento incestuoso, Antígona pode também representar a pluralidade dos desejos e dos modelos tradicionais de família heterossexual. Butler refere-a como algo impreciso talvez para o feminismo, no sentido em que a forma de desafio que ela pratica, acabou por levá-la a por fim à sua vida.

Como é que o feminismo acolhe o seu enforcamento dentro da gruta para onde foi colocada?

Talvez Antígona, como Lacan sugere, caminhou apenas até ao limite de realizar algo que podemos chamar um puro e simples desejo da morte como ela é: mas afinal o que é que impulsiona a sua ação para a vontade de morrer? A relação psíquica com a vida em sociedade, pode por vezes, colocar as situações como intratáveis ou punitivas, aquilo que por exemplo Freud chamou de "a cultura da pulsão de morte".

Isto é, na sua teoria da pulsões, descreve-nos duas pulsões antagónicas: Eros – pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e a pulsão da morte (Tânato), que leva ao afastamento de tudo o que é vivo, à destruição. Aqui Antígona mostra-se consciente que a morte é o seu castigo.

A herança de uma sina trágica e amaldiçoada “obrigou-a” a este final, ou foi tudo uma opção consciente fora do controlo divino? - Antígona desistiu da sua luta ao matar-se, ou rematou-a?

Pergunto-me então, como seria o mundo em que Antígona pudesse sobreviver?