Perfil

Vida Extra

É possível ter 50 semanas de luxo supremo com uma única coisa

A coluna ‘Sem Preço’ celebra esta semana a 50ª entrada e a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o seu maior luxo, que se encontra neste meio século de crónicas

Os estudos sobre felicidade no trabalho raramente ou nunca questionam os entrevistados sobre a concretização pessoal que obtêm com o desempenho das suas funções

Nora Carol Photography / Getty Images

Há precisamente 50 semanas apresentava-me neste cantinho do ‘Vida Extra’, com o primeiro texto da coluna ‘Sem Preço’ e o propósito de abordar e refletir sobre marcas e experiências que o dinheiro pode comprar e outros luxos impagáveis. Durante quase um ano, passaram por aqui algumas das grandes marcas internacionais, negócios e protagonistas, mais os produtos locais e artesanais que constituem o novo luxo e outros luxos menos óbvios, como o sono e a água.

Na semana em que escrevi a primeira crónica já estava mais do que claro que o luxo enquanto sinónimo de produtos ultra-caros continuava em expansão, quanto mais não fosse pelo crescimento acentuado de milionários no mundo. Mas, em paralelo, estava a ganhar cada vez mais forma um novo luxo, feito do que é autêntico e genuíno ou do bem-estar e da qualidade de vida que proporciona. Ao longo de 50 crónicas percorri estes universos. Desde as históricas e reconhecidas Louis Vuitton e Chanel, até aos produtos gastronómicos que só se encontram na ilha de São Miguel ou o primeiro hotel de cinco estrelas na ponta do Algarve mais esquecida.

Pelo papel que assumo nesta coluna (intermediária e mediadora entre estas marcas e contextos e quem me lê) dedico-me a estudar e a conhecer os vários caminhos e materializações do luxo, em Portugal e lá fora. Ser os olhos e os ouvidos (e também as emoções) de quem disponibiliza parte do seu tempo, semanalmente, para carregar no link para este meu cantinho. Seleciono, pesquiso e reflito sobre o que de mais relevante e fresco se passa nestas dimensões. Com mais gratificação no processo de criação (até chegar ao ponto final de cada uma das crónicas), do que propriamente com as experiências pessoais que são inerentes ao trabalho de colunista de luxo.

Getty Images

A primeira crónica ‘Sem Preço’, publicada a 27 de novembro de 2018, terminava com uma das ideias-chave do livro ‘O Luxo Eterno – Da Idade Sagrada ao Tempo das Marcas’, de Gilles Lipovetsky, que explora a ideia da desmaterialização do luxo e a abertura para o luxo das emoções, associado ao bem-estar e à garantia de que a vida foi bem vivida. Na última frase do texto que inaugurava esta coluna, assumia o compromisso de trazer até aqui o velho e o novo luxo, olhando para o preço e para aquilo que é impagável, certa de que cada um teu a sua própria definição de luxo.

O jornalista, por defeito de profissão, vive e trabalha a olhar muito para fora e pouco para dentro. Significa que questionamos mais os outros e o que nos rodeia e menos a nós. Foi preciso entrevistar há cerca de um mês o mesmo Gilles Lipovetsky da primeira crónica, para ter a minha resposta a uma pergunta que nunca fiz a mim própria, mas que me farto de fazer aos entrevistados: qual é a sua definição de luxo e o seu luxo pessoal?

Antes de revelar a resposta de Gilles Lipovetsky (que já foi publicada na Revista do Expresso de 12 de outubro e que se encontra na entrevista disponível no link da coluna ‘Sem Preço’) recuo três parágrafos neste texto, onde refiro a gratificação pessoal que tenho com o processo que culmina com a escrita destas linhas. Para Gilles Lipovetsky, o maior luxo de todos é amar aquilo que faz e fazer algo porque deseja e não para ganhar a vida. Acrescentaria a isto o uber-luxo de ganhar a vida a trabalhar naquilo que se ama.

Curiosamente, os estudos sobre felicidade no trabalho, recorrentemente divulgados nos meios de comunicação, raramente ou nunca questionam os entrevistados sobre a concretização pessoal que obtêm com o desempenho das suas funções. A maioria destas análises põe na balança o ambiente no local de trabalho, a conciliação com a vida pessoal ou o reconhecimento das chefias, por exemplo. A remuneração salarial ou a atribuição de outras compensações materiais surge em alguns estudos, mas não é o aspeto mais explorado, provavelmente para evitar uma unanimidade de inquiridos que se consideram mal-pagos.

Getty Images

O alinhamento pessoal e a satisfação com o trabalho são esquecidos, talvez para não descobrir outra unanimidade de infelizes com aquilo que fazem. As atuais tendências de recursos humanos tendem a fomentar o bem-estar dos funcionários com a disponibilização de massagens e aulas de ioga no escritório, fruta fresca gratuita ou a oferta da mensalidade do ginásio, entre outros atrativos que estejam na moda no momento. Esquecem-se que estas não são as curas para a insatisfação interior.

A resposta de Gilles Lipovetsky à minha pergunta vai fundo nesta perspetiva. Para o filósofo francês, as pessoas precisam que lhes deem os meios para criarem e não os meios para consumirem. “Fazer aquilo que não nos interessa é uma forma de ganhar dinheiro, um dinheiro sem sabor. Ser apaixonado por aquilo que fazemos é o que nos permite continuar a fazê-lo até ao final das nossas vidas. O consumo é pobre comparado com a criação, que todos os dias é nova. O que as pessoas precisam é que lhes deem os meios para criarem e não apenas os meios para consumirem”, conclui Lipovetsky, dando-me a chave para o meu luxo, que acontece nesta coluna todas as semanas.

A recompensa que retiro da escrita não é mensurável na esmagadora maioria dos estudos sobre recursos humanos. Essa gratificação inclui o ambiente de trabalho, o reconhecimento das chefias e a conciliação da vida pessoal. Mas, acima de tudo, é uma concretização interior e solitária, tendo como companhia e inspiração cada uma de todas as pessoas que, na minha imaginação, vejo a lerem estes textos. Chego a este meio século de crónicas certa que usufruo do maior dos luxos: amar aquilo que faço. E isto não tem preço.