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Vida Extra

Esquecer que se gosta, para não se gostar

A memória é ferramenta do amor, esquecer pode ser tarefa inconsciente, mas relembrar também

D.R.

O cinema prolonga-se no tempo através de registos que nos permitem revê-lo, o cinema é dono de uma possibilidade de repetição fidedigna que o teatro não tem, querer rever um espetáculo é ter de contar com a memória.

Esquecer é tarefa comum, as memórias esfumam-se e com o passar dos anos apercebemo-nos que somos incapazes de relembrar ao minuto cada dia da nossa vida, ficam os momentos que por algum motivo nos vincaram a mente. Por outro lado, a vontade de querer esquecer sensações ou memórias, também é comum. Esquecer que se gosta, para não se gostar: um ponto peculiar, mas plausível.

Ao pensar nesta frase, a memória trouxe-me o “Eternal sunshine of the spotless mind”, e ao pensar no filme, reparo que me recordava essencialmente da vontade das personagens em apagarem de si, as recordações da paixão passada. Recorro à facilidade de o rever, e assimilo novamente algumas questões do enredo.

Uma clinica pronta a eliminar da memória qualquer vestígio do que foi amar alguém. Eliminar do pensamento tudo o que foi mau, mas também a amizade, a vontade, o desejo, o amor. Fazer desaparecer a intimidade, as conversas, as dissertações noturnas, as caminhadas, os beijos, os abraços: porque deu errado, porque não podia acontecer. No fundo, o esquecimento como solução.

Para além dos protagonistas o argumento atira-nos a história de Mary, uma das funcionárias da clinica que foi submetida ao esquecimento da relação extraconjugal que teve com o seu diretor. Mary foi obrigada a esquecer-se, continuando a lidar com o homem de quem gostou, sem o já saber aperceber.

O filme foca-nos os temas “passado” e “memória”, mas acima de tudo o amor. O que fazer quando parece que o universo conspira? O que acontece quando tudo corre mal? O que fazer quando gostar sai fora do controlo? E quando se gosta e não se deve gostar?

Platão chegou a descrever o amor como uma doença mental, mas ainda que assim fosse, as doenças não se apagam, curam-se. Porque o gostar não passa de uma força, de uma espécie de energia que se manifesta no interior, assim como uma recordação.