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Brahmacharya – a moderação dos sentidos

A crónica de bem-estar de Cristina Diniz ganha nova entrada, sempre à quarta-feira, no Vida Extra

D.R.

De entre as várias disciplinas éticas (yamas) abordadas numa das mais importantes escrituras antigas do yoga — os Sutras de Patanjali — a moderação dos sentidos ou Brahmacharya ocupa, para mim, o lugar das mais delicadas de abordar.

Como em qualquer tipo de ascese, há preliminares que o yoga não dispensa. Por isso os princípios de não violência (ahimsa), verdade (satya), não roubar (asteya), não-apego (aparigraha) e continência (brahmacharya) estão sempre presentes.

Brahmacharya no seu significado mais ortodoxo aponta sobretudo para a prática da abstinência sexual, para o celibato, tem como objetivo a conservação da energia sexual e neural, a continência e castidade. É, na sua essência, a privação de atos sexuais e da própria tentação carnal.

Como total respeitadora e procurando a mais sincera divulgação e preservação dos ensinamentos tradicionais do Hatha yoga não posso deixar de referir os conceitos tal qual como são.

Não esquecendo a nossa essência humana e a cultura contemporânea onde nos inserimos, este conceito não deverá ser apenas interpretado superficialmente e provavelmente com algum afastamento imediato, mas sim visto com um olhar mais atento e com esmero.

O refreamento mencionado (Brahmacharya) pretende, na verdade, levar a um estado humano mais “purificado” e livre de excessos, não fundado apenas nas sensações, mas, pelo contrário, conducente a uma prática mais espiritual.

Tenhamos em conta, por um lado, que na cultura védica a palavra Brahmacharya denotava a primeira das quatro fases da vida de uma pessoa — a de estudante, e esse aspirante que passava muito do seu tempo com um professor espiritual era naturalmente um jovem celibatário.

Por outro lado, o yoga atribuía uma especial importância à reprodução e considerava que o ato sexual dispersava uma energia preciosa, debilitava a capacidade cerebral e dificultava a concentração. O brahmachari deveria ser económico no seu sémen, ter absoluta abstinência sexual e não dissipar a energia através do orgasmo. Os vínculos e atos reprodutores que o ligavam à sociedade privavam-no da sua liberdade e impediam que se consagrasse ao estudo que levaria à evolução espiritual. O objetivo era procurar refrear a sua força geradora, optar por uma vida de celibato e de comedimento que lhe possibilitassem o estudo da tradição védica e a união com uma alma suprema.

Essa energia sexual não dissipada era usada para o despertar pessoal, para a progressão individual e redirecionada para o autoconhecimento. É como se os prazeres sensoriais fossem substituídos por uma felicidade interna.

D.R.

Mas o conceito não implicava somente negação, proibição ou austeridade forçada. Essa não dissipação da sexualidade e a tentação vencida equivaliam a uma força ganha! Não só se dominava o que se tinha renunciado, mas era como se se fosse compensado com um atributo que contrabalançava a sua renúncia. Através da sua firme disciplina ele adquiria outros “poderes miraculosos” (siddhi).

Ora, numa visão mais ampla e atual deste conceito, Brahmacharya indica não só a continência do corpo, a consciência e controlo dos excessos que cometemos, como também comedimento no nosso discurso e nos pensamentos.

É também e sobretudo nos dias de hoje sabermos não desperdiçar o uso dos nossos pensamentos em situações vãs e que na verdade não mereçam tanta importância como damos. É ser moderados e não gastar palavras e ações em atividades excessivamente menores e mundanas.

É ser moderado e ter nas nossas mãos a nossa vida, desfazermo-nos dos excessos prejudiciais por exemplo na alimentação, no trabalho desmesurado, no cuidado de terceiros, na navegação na internet, nos jogos de computadores.

É saber parar e questionarmo-nos se estamos a fazer algo em excesso e averiguar porquê. É perceber se isso conduz a algum desequilíbrio, se nos deixa com pouca energia ou alguma frustração.

Para os praticantes de yoga é importante manter o equilíbrio no mundo dos sentidos, e apostar em restaurar a harmonia no corpo e na mente. Procura-se transformar hábitos nocivos e libertar-se de dependências; voltar a atenção para dentro, cultivar o autoconhecimento, o desenvolvimento pessoal e empenhar-se no seu bem-estar e no dos outros.

Em suma é saber repousar os sentidos, encontrar satisfação dentro de nós, poupar a energia vital através duma moderação assertiva e fazer seleções acertadas numa miríade de estímulos e escolhas que pululam as nossas vidas.

Boas práticas!