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Vida Extra

Quando o vinho se junta à melhor amiga

Na crónica Sem Preço desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o que de melhor se pode experienciar, depois do fim das vindimas, com vinho e a sua melhor amiga

Com 900 referências raras e de topo (das quais 450 são vinhos estrangeiros), a garrafeira é o cartão-de-visita da Wines by Heart

D.R.

Está encerrada a época das vindimas. Isto, no entanto, não significa que a experiência vinícola tenha de ficar-se por aqui, à espera que as uvas concluam o seu caminho até se apresentarem em estado líquido, alcoólico e engarrafado. Esqueça a ruralidade e os pés descalços a pisarem uvas em lagares artesanais. O próximo destino este outono é no coração de Lisboa e quer tocar o coração dos apaixonados por vinho.

Garrafeiras e bares de vinho a copo há muitos. Mas nem todos se limitam a servir os melhores do mundo. Na Wines by Heart não só entram apenas as garrafas mais exclusivas, como a prova quer-se acompanhada ao mesmo nível. Aqui, a comida de autor é a melhor amiga do vinho e deixa na dúvida se estamos numa garrafeira ou num restaurante gourmet. A localização numa rua paralela à avenida da Liberdade, a poucos passos de tudo o que são lojas e hotéis de luxo, não é escolhida ao acaso.

O Château Mouton Rotschild 2005 (tinto de Bordéus) é o vinho mais caro e está disponível para levar para casa (€899 a garrafa de um litro) ou para degustar a copo (€175) no wine bar

O Château Mouton Rotschild 2005 (tinto de Bordéus) é o vinho mais caro e está disponível para levar para casa (€899 a garrafa de um litro) ou para degustar a copo (€175) no wine bar

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Guilherme Côrrea, sommelier brasileiro dono deste projeto com mais três sócios, explica que a ideia é criar uma experiência de vinho e gastronomia ao nível do comércio desta zona da cidade e capitalizar os turistas e os residentes que por aqui circulam diariamente. A garrafeira é o cartão-de-visita, com 900 referências (das quais 450 são vinhos estrangeiros) e alguns dos néctares mais premiados e raros do mundo. À cabeça surge o Château Mouton Rotschild 2005, um tinto de Bordéus e um dos cinco premier crus desta região, classificação criada em 1855 para vinícolas de excelência e que foi atribuída a este vinho em 1973.

Com mais de 80% de Cabernet Sauvignon, este vinho está disponível para levar para casa (€899 a garrafa de um litro) ou para degustar a copo (€175) no wine bar. Nesta modalidade, o serviço faz jus ao Château Mouton Rotschild 2005, que é servido através do sistema Coravin, que extrai o precioso líquido da garrafa sem lhe retirar a rolha. Como? Com um aparelho com uma agulha fina que perfura a cápsula e a rolha, num processo semelhante ao funcionamento de uma seringa. O espaço vazio do vinho que foi retirado é preenchido com gás árgon, que se encontra num tubo acoplado ao aparelho.

O vinho do Porto Kranemann 20 (€45) anos está no ‘top 5’ das raridades à venda na Wines by Heart

O vinho do Porto Kranemann 20 (€45) anos está no ‘top 5’ das raridades à venda na Wines by Heart

Hugo_Pinheiro

Desta forma ficam preservadas as características organoléticas e, segundos depois de ser perfurada, a rolha sela-se novamente graças à elasticidade deste material. O Coravin é também utilizado em outros vinhos de topo, aqueles com preços por copo entre os €34 e os €175. Nos restantes vinhos, o Le Verre de Vin, o mais comum a nível mundial, é o sistema utilizado na conservação a vácuo de precisão. No total são 80 vinhos disponíveis a copo e a tecnologia e sofisticação na hora de servir o vinho são acompanhadas por copos com o mesmo padrão.

A Wines by Heart é a embaixadora da Riedel em Lisboa, o que significa que todos os vinhos são apresentados em copos da marca austríaca que é a referência nesta matéria e que custam cerca de €20 a unidade. Na prática é apreciar cada néctar no copo que lhe é mais adequado, com diferentes larguras de aro e espessuras de vidro. O design e a produção de copos que retiram o melhor de cada vinho é, aliás, o que dá estatuto mundial à Riedel desde 1876. O ponto de partida do seu posicionamento é a teoria do mapeamento da língua e do palato, que sustenta que há zonas mais ou menos sensíveis a determinados paladares. Nesta lógica, o tipo de copo utilizado determina o fluxo do vinho, as localizações onde ele ‘toca’ e, por consequência, a experiência sensorial.

O taco de rojões (€16) é uma das propostas da cozinha de Rodrigo Osório, chef que passou por restaurantes com estrelas Michelin, como o Pizza Duomo, em Alba (Itália)

O taco de rojões (€16) é uma das propostas da cozinha de Rodrigo Osório, chef que passou por restaurantes com estrelas Michelin, como o Pizza Duomo, em Alba (Itália)

D.R.

O vinho é tratado com tanto rigor como a comida. Por isso, parte dos 290 metros quadrados da Wines by Heart é ocupada com duas salas de refeições, para 20 pessoas cada, uma no piso superior junto ao bar e a outra, mais privada, no piso inferior. A cozinha está entregue a Rodrigo Osório, chef brasileiro (como todos os sócios) formado em Itália, o mesmo país onde trabalhou em alguns restaurantes com estrelas Michelin, incluindo o Piazza Duomo, em Alba.

Guilherme Côrrea e os sócios, ligados igualmente ao estudo ou à importação e distribuição de vinho no Brasil, pensam o Wines by Heart como um espaço de encontro com a gastronomia. Baseada em ingredientes sazonais e sustentáveis, a cozinha de Rodrigo Osório inclui pratos principais como polvo com laranja e feijão-frade, e bacalhau com cebola e miso, por exemplo. Ostras frescas do Sado, taco de rojões e carapau fumado são algumas das entradas em sintonia com os paladares nacionais. Cheesecake de cereja e ovos-moles com sorbet de framboesa são duas das sobremesas que piscam o olho à portugalidade.

O wine bar e as salas de refeições ocupam grande parte dos 290 metros quadrados da Wines by Heart

O wine bar e as salas de refeições ocupam grande parte dos 290 metros quadrados da Wines by Heart

D.R.

Cada prato confecionado por Rodrigo Osório tem sugestões de vinhos a harmonizar, entre espumantes, brancos, tintos e colheitas tardias. Na longa lista de néctares oriundos de 14 países, a escolha é variada, seja com os servidos a copo ou em garrafa. Os vinhos que me despertam a curiosidade, porém, não são necessariamente os que podem ser mais adequados ao menu. São antes os mais raros entre as quase mil variedades que aqui se encontram. Rendo-me ao meu reduzido conhecimento e entrego essa tarefa a Guillherme Côrrea, que garante ter provado a maioria dos vinhos que tem à venda.

Itália, França, Espanha, Austrália e Portugal são os países de origem das escolhas deste sommelier. O Sangiovese Soldera 2015 (€485), o Puligny Montrachet “Les Folatiéres” 2017 (€269,8), o Rioja Alta 890 Gran Reserva 2005 (€158), o Ochota Barrels Grenache Fugazi 2017 (€39,9) e o Kranemann 20 anos (€45) compõem o ‘top 5’ dos vinhos que Guilherme Côrrea considera mais especiais. A garrafeira da Wines by Heart, onde estas garrafas estão incluídas, significa um investimento de €300 mil em stock. O objetivo, esse, não é ficar por aqui.

Guilherme Côrrea (segundo à direita) e os três sócios querem abrir a Wines by Heart noutras localizações na Europa

Guilherme Côrrea (segundo à direita) e os três sócios querem abrir a Wines by Heart noutras localizações na Europa

D.R.

Além de continuar à descoberta de novos vinhos nacionais e internacionais, Guilherme Côrrea quer levar a Wines by Heart de Lisboa até além-fronteiras, abrindo noutras localizações na Europa. Uma expansão que tem por base não só o conhecimento do modelo de garrafeira com wine bar e restauração, como do negócio da distribuição. É que os quatro sócios são também importadores exclusivos de 250 rótulos do total que comercializam em Portugal e fornecedores de restaurantes de topo, incluindo estrelas Michelin como o Alma e o Belcanto. Eurípedes dizia que onde não há vinho não há amor. A Wines by Heart é uma apaixonada que sabe de cor que a vida é demasiado curta para beber vinhos baratos.

Wines by Heart
Rua Rosa Araújo, 35 Lisboa
Das 10h às 23h (2ª a 4ª feira) e até às 23h30 (5ª feira a sábado)
https://www.winesbyheart.com/