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A responsabilidade sobre os monstros que criamos

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Martin Diebel / Getty Images

Foi semana de voltar a “Frankenstein” de Mary Shelley, e é sempre uma alegria ter essa obrigação, preparar o que quer que seja à volta desse marco literário. Um livro que começou a ser escrito no peculiar ano de 1816, quando o poeta inglês Lord Byron lançou o desafio ao seu grupo de amigos: escrever um conto verdadeiramente assustador.

Shelley cumpriu, e escreveu “Frankenstein”, que acabou por ser publicado em 1818 ( em nome do seu marido, Percy Shelley, devido à dificuldade que as mulheres tinham em se poderem assumir como autoras). O seu conto abriu portas à ficção científica, e popularizou os temas da ressuscitação e reanimação dos tecidos mortos.

Duzentos anos depois, para além de uma brilhante história que inspirou uma quantidade de outros autores, o que é que nela mais sobressai? - A responsabilidade sobre aquilo que criamos, ou talvez a falta dela.

Victor Frankenstein, um cientista ambicioso que criou o seu próprio “monstro”, satisfez o seu soberbo desejo de dar vida ao que está morto. Tornou-se criador de um ser do qual temeu. Victor sentiu medo daquilo que fez nascer, não aceitou a sua própria criação, lançou-a ao mundo e fugiu dela, descrevendo-a como aterradora.

As dúvidas surgem relativamente aos papéis dentro da história.

O monstro que não pediu para nascer, tentou a sua integração na sociedade que não o conseguiu aceitar . O criador do monstro falhou nas suas convicções, lançou para o mundo um ser sem bagagem social, com comportamentos e reflexos primitivos: defendeu-se através da morte de habitantes inocentes, depois de se ter sentido provocado com a não aceitação.

A ambição é talvez das coisas mais poderosas do mundo, mas se não for vivida em doses medidas, a possibilidade de ela ter efeitos catastróficos pode ser bem alta. Ambicionar deve ser um verbo livre mas democrático. Quando olho para o parlamento, e vejo uma cadeira que será ocupada por uma extrema direita que sugere um discurso xenófobo, racista e de ódio pergunto-me: ao lançar uma brutalidade como essa, há a possibilidade do seu criador a deixar correr à solta, sem responsabilidade sobre o que poderá acontecer, não há?