Perfil

Vida Extra

Respiração alternada - Nádi Shodana Pranayama

A crónica de bem-estar de Cristina Diniz ganha nova entrada, sempre à quarta-feira, no Vida Extra

D.R.

É uma prática respiratória do yoga que limpa e equilibra os canais de energia existentes no nosso corpo. Canais de energia?! Se a sua reação foi a de um certo espanto, podemos ver um pouco mais fundo.

Prána é um termo que existe desde tempos remotos e significa a força vital, a energia vital que sustenta não só o nosso corpo como também todo o tipo de criação. A palavra prána é composta pelas sílabas pra (que se pode traduzir como intenso, constância) e na (movimento) e significa uma força em constante mutação, movimento ou vibração.

É essa a energia a que me refiro, que por vezes está alta e outras vezes mais em baixo. Tal como nós nos sentimos, uns dias mais vigorosos e entusiasmados, outros com menos energia, menos vibrantes.

Sodhana significa purificar ou limpar.

Por outro lado, nádi é um termo sânscrito que significa rio ou corrente e corresponde ao conceito de meridianos na acupuntura e ao conceito de linhas sen da massagem thay yoga. São meridianos energéticos, canais subtis existentes em todo o corpo, por onde se faz a circulação do prána e sub-prána.

Os textos clássicos do Yoga mencionam 72.000 nádís, das quais 72 são muito importantes, 10 se destacam no transporte do prána e 3 nádís situadas ao longo da coluna vertebral são especialmente relevantes e são elas idá, pingalá e sushumná nádí.

Sushumná nádí – é um canal central que acompanha a coluna vertebral e ao longo do qual se situam todos os chakras principais.

Idá nádí - Tem início no chakra da raiz (múládhára), na base da espinha e ascende ao longo da coluna, atravessa os principais chakras até chegar à narina esquerda. A narina esquerda está ligada à parte direita do nosso cérebro. Esse é o nosso lado lunar ou chandra (lua, em sânscrito). É o lado feminino que todos temos (homens e mulheres) é o de maior suavidade, associado à introversão, passividade, intuição, feminilidade e atenção; esta nádi transporta e distribui a energia de polaridade negativa (apána). É simbolizada pela cor branca.

Pingalá nádí - Nasce logo acima do múládhára chakra e vai até à narina direita. A narina direita está conectada com o lado esquerdo do cérebro. Esse é o nosso lado solar ou súrya (sol, em sânscrito). É o lado masculino que também todos temos, em maior ou menor grau. Está associada a natureza ativa, forte, ascendente, ao calor, à extroversão, à energia, ao pensamento matemático, à objetividade, à lógica analítica; esta nádi transporta e distribui a energia de polaridade positiva (prána). É simbolizada pela cor vermelha, cor do fogo.

D.R.

Assim sendo, ao fazermos nádi shodana pranayama de certo modo equilibramos também o nosso lado lunar e o nosso lado solar, o feminino e intuitivo e o masculino e racional existentes em nós. A mim, parece-me bem!

Se estiver a fim de experimentar, segue abaixo uma maneira de o fazer:

Sentados numa posição confortável, com as costas direitas, coluna vertebral alongada, o topo da cabeça a apontar para o céu e o queixo mais ou menos paralelo ao chão, pousamos a mão esquerda no joelho esquerdo fazendo jñana mudrá (indicador e polegar unidos e os restantes dedos esticados) e usamos a mão direita para esta respiração.

Há vários tipos de mudrás (gestos simbólicos com as mãos) que podemos usar com este exercício de expansão e controlo da respiração; gosto de fazer com o indicador e dedo médio apoiados no ponto entre as sobrancelhas (nasagra mudrá) e usando alternadamente o polegar e o anelar direitos para tapar respetivamente a narina direita e a esquerda.

Prosseguindo:

- mão esquerda em jñana mudrá apoia no joelho esquerdo
- os dedos médio e indicador direitos apoiam no intercílio
- com o polegar direito tapamos a narina direita
- nexpiramos todo o ar primeiro e depois inspiramos longamente pela narina esquerda
- tapamos com o anelar a narina esquerda, libertamos a narina direita tirando o polegar
- expiramos pela narina direita
- no final da expiração, inspiramos pela narina direita à mesma, tapamos depois esta narina com o polegar
- tirando o dedo anelar da narina, expiramos pela esquerda

Assim se completa um ciclo deste exercício de expansão e controlo da respiração (pranayama).

Nota: a narina em atividade é alternada sempre com os pulmões cheios e nunca quando estão vazios.
Tente não inclinar a cabeça para nenhum dos lados e manter um verdadeiro alinhamento da coluna vertebral, desde o pavimento pélvico até ao topo da cabeça. As respirações devem ser uniformes, lentas e conscientes. Podemos fechar os olhos e mantermo-nos o mais relaxados possível.

D.R.

Devemos repetir vários ciclos, o que for confortável para si, uma proposta será uns 10 ciclos seguidos. Poderá até observar qual das narinas está mais obstruída nesse momento preciso, constatar por onde flui melhor a respiração, focar-se no ar a entrar e a sair das narinas, sentir a temperatura do ar mais fresco quando inspira e mais quente ao ser expirado.

De notar que existem também exercícios respiratórios para ativar um ou outro lado que esteja mais obstruído e consequentemente conseguir impulsionar mais o nosso lado contemplativo e poético ou, ao invés, despertar mais, aclarar mais a mente, ficarmos mais objetivos e racionais, quiçá para iniciarmos uma viagem longa em vez de bebermos mais um café.

E concluímos: temos tanto dentro de nós, tanto ao nosso alcance. Talvez este seja mais um convite à exploração deste belo mundo interno em vez de nos perdermos em consumir mais algo externo a nós.

É uma prática meditativa, purificadora e equilibradora do sistema nervoso. Rejuvenesce e mantem a mente serena.

Conseguimos assim regular a respiração, regular as oscilações da energia para assim estabilizar também a mente. Simultaneamente é grande o aporte de oxigénio ao sangue, o que permite uma sensação de frescura, calma e lucidez na mente.

Boas práticas!