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É a marca da rainha de Inglaterra e quer ser plebeia

A renovação da Pringle of Scotland, marca de malhas de luxo que se democratiza com a associação à H&M, é o tema da crónica Sem Preço desta semana

A Pringle of Scotland tem uma história com 204 anos, períodos conturbados e um reposicionamento para todas as tribos da moda

D.R.

Os casacos de malha e as meias com losangulos estão para os anos 1980 como as calças skinny e o animal print estão para a década atual. A diferença é que o uniforme dos betos no final do século passado tem como inspiração uma marca centenária, que desde 1956 fornece a Casa Real britânica com os twin-set preferidos da rainha de Inglaterra.

A Pringle of Scotland tem um legado maior do que isto (nasce em 1815) e períodos conturbados, com mudança de dono e um reposicionamento para todas as tribos da moda. Mas já vamos a esta história. No outono de 2019, a marca de malhas de luxo lança-se mais uma vez na aproximação ao comum dos mortais, com uma colaboração com a massificada e popular H&M. A expetativa de ter, a preços da H&M, uma peça de caxemira com a marca da ‘mãe’ das caxemiras (a Pringle é a primeira a produzir estas malhas, em 1870), não é correspondida.

A colaboração com a H&M não inclui malhas de caxemira, mas reinterpreta a tradicional camisola de losangulos (€29,99)

A colaboração com a H&M não inclui malhas de caxemira, mas reinterpreta a tradicional camisola de losangulos (€29,99)

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A coleção de 40 peças desenvolvida pela cadeia sueca não contempla a matéria-prima mais luxuosa e sofisticada dos roupeiros de inverno. Lã, poliester reciclado, algodão orgânico e fibras de viscose são os materiais trabalhados em camisolas, casacos, vestidos, saias, cachecóis, luvas e até roupa para cães, que estão à venda nas lojas e no site da H&M desde dia 3 de outubro. A ponte com a Pringle é feita através dos padrões escolhidos (os losangulos), os casacos de malha e o símbolo desta marca britânica (o leão em posição de luta).

O rei da savana em atitude de batalha é introduzido como imagem de marca da Pringle em 1934 e é também o símbolo mais icónico da Escócia, fazendo parte do estandarte real, criado no século 13. É o mesmo leão erguido nas patas traseiras que figura no brasão de armas do Reino Unido, o que reflete a aproximação da Pringle à sua herança britânica. A coleção da H&M, porém, pega neste passado com um olhar renovado. O design da coleção reflete o estilo contemporâneo do streetwear, com camisolas largas e compridas ou cortadas pela cintura, leggings, vestidos com fecho e camisolas com capuz, além de acessórios

O leão em posição de luta, símbolo do estandarte real da Escócia e da Pringle, é recuperada numa camisola da coleção com a H&M (€39,90)

O leão em posição de luta, símbolo do estandarte real da Escócia e da Pringle, é recuperada numa camisola da coleção com a H&M (€39,90)

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Estas peças estão longe daquilo que Robert Pringle imagina quando começa a fazer meias e roupa interior na sua fábrica em Hawick, na Escócia, há 204 anos. A produção de caxemiras, em 1870, é o lampejo que dá à Pringle of Scotland o estatuto de marca de luxo. Mais tarde volta a ser pioneira com a criação dos conjuntos de camisola e casaco, os twin-set que agradam à rainha de Inglaterra e que a fazem atribuir à Pringle o ‘selo’ de fornecedora oficial da Casa Real. A combinação destas duas peças extravasa as terras de Sua Majestade e, nos anos 50, o twin-set faz moda em França e nos Estados Unidos, com as atrizes Brigitte Bardot, Joan Crawford e Grace Kelly, por exemplo. O cardigan (casaco de malha) é outra das peças que nasce com a Pringle.

São os losangulos, no entanto, que criam a aura em torno da marca, sendo o padrão preferido tanto do Duque de Windsor (desde os anos 30) e de jogadores de golfe (desporto nascido na Escócia), como de hooligans do Terrace Casuals, que nos anos 80 usam marcas de luxo para passarem despercebidos nos estádios de futebol. É esta história feita de realeza, ‘betos’ e rebeldes que a Pringle, na última década, tem vindo a recuperar. Na última edição da London Fashion Week, em setembro, não participa no desfile de Primavera/Verão 2020, por considerar que não faz sentido uma marca de malhas apresentar roupas para estas estações do ano.

A coleção Ressiued 1, lançada na última edição da London Fashio Week, é a reinvenção de 21 clássicos unissexo dos arquivos dos anos 80 da Pringle

A coleção Ressiued 1, lançada na última edição da London Fashio Week, é a reinvenção de 21 clássicos unissexo dos arquivos dos anos 80 da Pringle

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A resposta de Fran Stringer, diretora criativa da linha de mulher da Pringle, à semana de moda britânica, é dada com a reinvenção de 21 clássicos unissexo dos arquivos dos anos 80 da marca. Regressam os casacos de malha com decote em bico, as camisolas e as meias de losangulos, que dizem que o uniforme dos betos e dos holligans dos anos 80 faz sentido outra vez. Não fosse a inclusão de todos os estratos sociais e subculturas o mote atual das marcas de luxo. A coleção apresentada agora é o culminar da aproximação da Pringle às semanas de moda e às novas gerações consumidoras de luxo, que circulam mais pelas redes sociais do que por campos de golfe.

Na colaboração com a H&M há também um piscar de olho a estes contextos. A campanha publicitária da coleção Pringle of Scotland X H&M é protagonizada por Julia Sarr-Jamois, editora geral de moda da Vogue britânica e editora sénior geral da revista iD. Captadas nas ruas de Londres, as imagens da campanha seguem o estilo das selfies usadas nas redes sociais e o mood de street-style das bloguers. Na Pringle, o caminho da moda começa por ser feito por Claire Waight-Keller, diretora criativa entre 2005 e 2011 e responsável pelo vestido de casamento de Megan Markle. Capitalizar a tendência do novo luxo, que valoriza a autenticidade e o legado das marcas, é o que faz, baseando-se nos padrões de losangulos e nos twin-set. Em 2007, esta ex-diretora criativa da Gucci introduz ainda uma linha de acessórios de luxo.

A campanha da coleção Pringle of Scotland X H&M é protagonizada pela editora geral de moda da Vogue britânica e foi fotografada nas ruas de Londres

A campanha da coleção Pringle of Scotland X H&M é protagonizada pela editora geral de moda da Vogue britânica e foi fotografada nas ruas de Londres

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Nesta época, a Pringle vive o rescaldo da mudança de mãos e um novo rumo em termos de gestão. Depois de ter sido vendida, em 2000, à Fang&Sons, de Hong Kong, por 6 milhões de libras (€6,7 milhões) e com prejuízos de 4,5 milhões (€5 milhões), a marca deslocaliza a produção para fábricas fornecedoras da Fang&Sons, na Ásia. A sede mantém-se em Hawick, na Escócia, onde continuam a ser produzidas algumas edições limitadas. Sob a gestão dos filhos de Keneth Fang, a Pringle of Scotland sobe as vendas para 25 milhões de libras (€28 milhões) e os prejuízos para 8 milhões de libras (€9 milhões), devido à estratégia de expansão.

A colaboração com a H&M não será, provavelmente, a salvação financeira da marca escocesa, mas contribui para a colocar na cabeça dos millennials e da Geração Z, os jovens que todas as marcas de luxo querem cativar. O regresso do inverno não podia ser a melhor altura, principalmente quando as malhas de lã do tempo dos avôs enchem as páginas de Instagram de infuenciadoras e celebridades. A modelo Bela Hadid e a atriz Katie Holmes dão um novo papel aos cardigans, ao usá-los sem nada por baixo, ou, mais concretamente, com apenas um soutien ou um top minúsculo. Depois do Duque de Windsor a pôr na moda os losangulos, pode ser a nova realeza das celebridades a impulsionar o futuro da Pringle.