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Vida Extra

Ainda há espaço para Salões

O pensamento, o ócio e a palavra neste século de vida frenética — ainda é possível habitar com eles? Há um salão à nossa espera, no aniversário do MAAT

Getty Images

Em Abril deste ano, visitei o Salão de Isabel Costa, uma criação desenvolvida na residência artística Interferências. “Salão para o século XXI”, é assim que ele se chama, e falo dele porque se há espaço artístico nos dias de hoje onde nos deveríamos focar, é aqui. Porquê? Porque o século XXI vive um tempo sem tempo, e esta é uma questão que nos devia preocupar: o pensamento precisa de tempo, o amadurecer das ideias também. Foi isso que Isabel Costa nos transpareceu.

Pegou em autores como Paul Lafargue, explorando ideias relacionadas com a desaceleração do pensar, passando por motes concernentes com o direito à preguiça. Oferece-nos num espaço amplo, que nos remete às salas dos eternos pensadores, nesta performance que é para mim uma ode ao pensamento.

Quatro intérpretes que circulam em movimentos lentos e que exploram os vários níveis espaciais: são eles a representação das obras estáticas que estamos habituados a observar nos museus. Aqui, somos convidados a aproximarmo-nos e a colocar o nosso ouvido junto à boca da obra (humana), somos então surpreendidos com palavras, frases e pensares escolhidas pela criadora.

Diria que é fundamental a forma como o Salão nos oferece esta brandura instável, essa atribulação das ideias que convoca à introspeção do espectador. É sobre o refinar das conversas, sobre a calma que tanto se tem perdido, devido aos rumos que o nosso quotidiano tomou: falar é abreviado, mensagens instantâneas e imediatas em quantidades ilimitadas. Falta-nos saborear as palavras, dize-las como quem dispara uma camara fotográfica de 35mm e sabe que tem de ser certeiro, que tem de preparar o plano antes de disparar, olhar, olhar de novo, pensar, ajustar e depois sim, o clique.

Tudo é tão efémero, tudo é tão apressado, tudo é com poucas falas, tudo é sem vagar.

Isabel Costa tem-nos habituado a pensar, tem-nos mostrado que uma artista tão jovem e tão completa que trabalha em áreas como o Teatro, a Curadoria o Cinema e a Performance, precisa de Tempo para criar aquilo que nos dá.

Esta herança judaico-cristã por vezes faz-nos ter receio daquilo a que chamamos ócio, mas acredito também que esse ócio, na sua prática, poderá ser um bom culpado do ampliar de pensamentos, que no fundo são eles a alavanca que nos fazem mudar o mundo.

Uma bela e subtil provocação de Isabel Costa, que pode voltar a ser vista este fim-de-semana, no aniversário do MAAT.