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Vida Extra

De Terras do Bouro aos passadiços de Sistelo

Um passeio pela serra do Soajo entre santuários, aldeias serranas e os novos caminhos pedonais que ladeiam o rio Vez

D.R.

Este passeio de 70 km começa em Terras do Bouro, na orla ocidental do Parque Nacional da Peneda-Gerês, sede de concelho situada a meia hora de carro de Braga e das principais autoestradas portuguesas. Tem três partes distintas: a primeira, cruzando a Serra Amarela, na direcção do rio Lima; a segunda, atravessando este rio e subindo para a aldeia do Soajo; e uma última, descendo até Arcos de Valdevez e subindo o vale do Vez, afluente da margem direita do Lima, até outra aldeia pitoresca, Sistelo. O automóvel é imprescindível mas na parte final deste percurso há a opção de uma caminhada pelos já afamados Passadiços de Sistelo.

Saia de Terras do Bouro para norte, pela N307, direcção Covide e Campo do Gerês. Andado pouco mais de 1 km saia da estrada nacional cortando à esquerda para Gondoriz, Valdreu e Brufe. Cruzado o rio Homem, inicia-se uma subida interminável. Comece por seguir as indicações para Brufe e para o restaurante Abocanhado (o que implica cortar à direita após algumas centenas de metros a subir) mas já no alto, passe a ignorar estas indicações, bifurcando à esquerda para Santo António de Mixões da Serra.

Um Santo António diferente

Igreja de Santo António de Mixões da Serra

Igreja de Santo António de Mixões da Serra

Goze a paisagem serrana e não se surpreenda com a quantidade de animais que vai encontrar pelo caminho, desde encorpados bovinos a ágeis cabras, sem esquecer os garranos, cavalos semi-selvagens destas serras.

O santuário de Santo António de Mixões da Serra que encontrará a seguir tem a ver com isso, já que está associado a ritos ancestrais de bênção do gado, aqui realizados anualmente no último domingo antes do Santo António. A igreja não tem a rude autenticidade das capelas românicas minhotas nem a sofisticação dos santuários barrocos mas encanta pelo pitoresco de um desenho revivalista, executado entre 1906 e 1954. Na fachada, uma imagem de Santo António com o Menino, rodeado por uma concha estrelada que merece sempre uma fotografia.

Vistos o santuário e o vizinho miradouro, é tempo de começar a descer para a margem esquerda do rio Lima. Após um entroncamento à direita, o caminho torna-se labiríntico mas basicamente todos os ramais descem para Vila Chã e para um outro santuário, o de Nossa Senhora da Paz, associado às aparições de 1917 em Fátima. Tem como atracção complementar um Museu do Quartzo, tão abundantes e bonitos são os afloramentos desta rocha no local.

Desça sempre, estreito e entre casas, até ao encontro com a N304, onde deve entrar à direita, direcção Lindoso e Soajo. Menos de meia dúzia de quilómetros depois, corte à esquerda para o Soajo, onde chegará por estreita estrada que atravessa o rio Lima através de uma ponte antiga. Nesse local aprecie à direita uma antiga central hidroeléctrica que recebia a água para turbinar através de condutas montadas ao longo da íngreme encosta.

Aldeia de homens livres

Santuário de Nossa Senhora da Paz

Santuário de Nossa Senhora da Paz

O Soajo seria ponto de paragem obrigatório nem que fosse apenas pelo monumental campo de espigueiros que é monumento nacional. No topo de uma laje de granito pode ver umas boas dúzias destas construções em pedra onde se guardavam as colheitas ao abrigo da ameaça dos ratos. Um exemplo do engenho popular e uma marca arquitetónica notável.

Às tradições de autonomia municipal vindas da Idade Média que mantinham o Soajo longe da cobiça dos senhores feudais, autogerido pelos homens bons do concelho, referidas num monumento junto aos espigueiros junta-se uma curiosa disputa de direitos de autor com outro povoado serrano, Castro Laboreiro. Os daqui reivindicam como sua a criação da raça de corpulentos e infatigáveis cães pastores que nos habituámos a conhecer como “castro laboreiros” mas aqui chamados “cães sabujos do Soajo”.

Não falta onde comer mas a minha escolha vai para o Café Jovem, com bons preços, bom atendimento e boa comida, incluindo até – sinal dos tempos – um menu vegetariano. Uma vez vista a aldeia, siga para Arcos de Valdevez, tomando a direção Mezio, o que o fará passar junto ao portentoso campo megalítico homónimo.

Pelas margens do Vez

Logo à entrada de Arcos de Valdevez, entronque à direita, direção Monção (N101) mas logo a seguir bifurque também à direita para apanhar a N202-2, que, ao longo do rio Vez, o levará a Sistelo (a duas dezenas de quilómetros). Se quiser planificar o resto do passeio saiba que existe uma ecopista, praticável a pé ou de bicicleta, ao longo do curso do rio Vez, entre a confluência com o Lima (em Jolda de São Paio, a jusante de Arcos de Valdevez) e Sistelo, com uma extensão total de 32 km.

Se a quiser fazer inteira mas sem esforços excessivos, uma sugestão é dividi-la em três etapas com uma dezena de quilómetros cada: Jolda de São Paio-Arcos de Valdevez; Arcos-Ponte de Vilela; Vilela-Sistelo. Ao longo da N202-2 todos os ramais de avesso à Ecovia do Vez estão devidamente assinalados. Em Sistelo há informação com os números de telefone dos táxis locais, coisa sempre útil se estiver a caminhar sozinho ou fizer parte de um grupo dispondo de uma única viatura.

Vem sempre a propósito recordar um velho truque quando se aborda um percurso em linha com várias pessoas e mais que uma viatura. A solução mais prática consiste em dividir o grupo ao meio, estacionando nos dois extremos. Os dois sub grupos partem cada qual de seu extremo do itinerário e quando se encontrarem, além de confraternizarem, trocam as chaves dos carros e desta forma todos terão transporte garantido e prático no fim da caminhada…

Sistelo e os seus passadiços

Passadiço a jusante de Sistelo

Passadiço a jusante de Sistelo

Para quem queira ter apenas um primeiro contacto com as paisagens da beira-Vez o melhor é ir até Sistelo e fazer um pequeno mas interessante passeio circular. Trata-se de uma pequena rota (3 km de extensão e desnível total de 64 m) que desce daquela castiça aldeia pela margem esquerda do Vez, o cruza num açude e regressa pelo lado oposto, voltando a subir para o povoado.

A primeira parte da descida faz-se ao longo de uma vetusta calçada com lajes de granito desencontradas e nalguns casos sulcadas pela passagem milenar de incontáveis carros de bois. Razão mais que suficiente para usar botas de montanha e não calçado ligeiro para evitar tropeções e sobretudo entorses. Um bastão de caminhada – posso confirmá-lo – também ajuda a manter o equilíbrio…

Nem de propósito, passada a igreja da Senhora dos Aflitos o piso melhora e começamos a aproximar-nos do rio que cruzaremos logo a seguir, atravessando um açude num local convidativo a um mergulho, se for tempo disso, bem entendido. Já na margem direita e de regresso a Sistelo o percurso ganha uma feição comparável, ainda que em menor escala, aos passadiços do Paiva, com várias pontes e rampas de madeira habilidosamente montadas nos desníveis. Surgem mais locais convidativos para um banho e, logo a seguir apanhamos, vindo da nossa esquerda, o troço final doutra rota pedestre, a dos Moinhos da Estrica que, através de uma ponte antiga de pedra, nos levará de volta à calçada que antes descemos, sensivelmente a meio desta.

Lá em cima, a aldeia de montanha, com o seu pitoresco, os seus socalcos e algumas construções curiosas como o castelinho revivalista oitocentista com dupla torre, conhecido como Palácio do Visconde de Sistelo. Na praça principal da aldeia, não longe da estrada nacional, encontrará uma sucessão de placas informativas com uma descrição dos diversos passeios pedestres aqui existentes. Nada menos de dez, para todos os gostos e todas as compleições físicas. A escolha é sua mas não deixe de aqui vir.