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Vida Extra

Onde o sal brota da terra

Uma viagem às salinas de Rio Maior. A uma hora de Lisboa extrai-se sal tão puro que é quase todo exportado. Ao longo de oito séculos as técnicas de extracção pouco mudaram

Os condutores mais antigos lembram-se das salinas de Rio Maior, não por terem um interesse especial pela geologia mas porque o respetivo caminho de acesso funcionava como variante a um dos troços mais lentos e cheios de camiões da estrada Lisboa-Porto, a rampa entre Rio Maior e o Alto da Serra.

Agora que há auto-estrada e a viagem pelo IC2 (designação da N1 nesta zona) se faz perfeitamente, pelo menos entre Aveiras e Rio Maior, porque não vir descobrir esta curiosidade natural e este testemunho do engenho popular? Além do mais há onde comer e muito razoavelmente (nas próprias salinas o “Salarium” e na vila o “Recantão” com os seus portentosos grelhados).

Que encontramos quanto descemos de Rio Maior para as salinas? Uma aldeia com casinhas de madeira que, na verdade, são antigos armazéns de sal e se desenvolve em torno de uma zona com quase três hectares de tanques reticulados onde a água se evapora deixando os cristais de cloreto de sódio.

Prodígios da geologia

Sal, a 30 km da praia mais próxima? Nada mais verdadeiro! Por baixo deste vale, cuja parte central foi sendo desgastada pela erosão ao longo de milénios (enquanto as encostas, constituídas por rochas mais duras, se mantiveram), correm, como em boa parte do maciço calcário da Serra de Aire e Candeeiros, cursos de água subterrâneos. Um destes atravessa uma jazida subterrânea de sal-gema (que se estende daqui até Fátima) e, por conseguinte, ganha forte salinidade.

A partir do momento em que isso foi descoberto – talvez na época romana, seguramente na Idade Média – era só uma questão de elevar a água (que passa a 8,5 m de profundidade), fazê-la correr para salinas, deixá-la evaporar e recolher os cristais de cloreto de sódio. Já agora, extremamente puros porque esta água é sete vezes mais salgada que a do mar: cada litro contem 220 g de sal.

Dizê-lo é mais fácil que fazê-lo porque no tempo do primeiro rei de Portugal a ciência hidráulica romana caíra no esquecimento. Desde o documento de 1177 em que os fidalgos Pero d’Aragão e Sancha Soares cediam parte dos direitos de exploração das salinas de Rio maior aos cavaleiros templários até aos nossos dias, a tecnologia de elevação era à base de picotas, ou seja gruas em madeira movidas manualmente. Foram séculos de esforço físico titânico até surgirem as bombas eléctricas já nos nossos dias.

Tudo em madeira

Outro problema que o engenho popular teve que resolver foi o da corrosão. A água salgada dá cabo de tudo, em especial dos metais, pelo menos dos que se conheciam na altura. Por isso só havia, além da pedra, um material para a construção de ferramentas e também das casas: a madeira. Até as fechaduras eram de madeira, um prodígio de carpintaria cujos segredos poderá apreciar numa visita guiada às salinas. Para lhe abrir o apetite apenas lhe direi que as chaves, tendo dois palmos bem medidos, eram todas diferentes e as fechaduras também.

Era também em madeira que os donos dos tascos apontavam as despesas dos marnotos (aqui chamados marinheiros), numa mistura de algarismos e desenhos cifrados representando o volume e o conteúdo das bebidas fiadas. Estas réguas de um metro de comprimento, expostas à vista de todos, funcionavam como mecanismos de controlo social, desencorajando o calote.

Mais simpático que a perversidade alemã de designar dívida e culpa pela mesma palavra, ou seja schuld, o que transposto para os mecanismos económicos europeus deu o que sentimos na pele no tempo da troika. Escusado será dizer que nas salinas o pagamento era feito no bem mais precioso que por ali havia: o sal, extraído pelos próprios trabalhadores.

Seis dias a evaporar

Hoje, esta actividade económica gira em torno da Cooperativa dos Produtores de Sal de Rio Maior, criada em 1979. A safra faz-se de Maio a Setembro e a produção, muito dependente das condições climáticas, anda pelas 2500 toneladas anuais, boa parte das quais exportadas, destinadas a produtos de alta culinária ou (devido ao seu grau de pureza) à indústria química.

A água bombeada do rio subterrâneo vai para grandes tanques, os concentradores, com um milhão de litros de capacidade, onde sofre uma

primeira evaporação. Tornada ainda mais salgada, corre por sete regueiras para talhos de menor dimensão onde fica a evaporar no máximo seis dias, até se obter sal, raspado e amontoado (com ferramentas em alumínio que substituíram as de madeira que, ao longo do dia de trabalho, se iam molhando e tornando insuportavelmente pesadas).

Durante todo o ano, e por maioria de razão fora da época da safra, as salinas ganham uma vertente turística, com visitas, restaurantes, lojas de artesanato (e de produtos à base de sal, como os queijinhos ou a flor de sal). Desde 2012 que pelo Natal há presépios esculpidos em sal.

D.R.

De Nissan até Rio Maior

Já conhecia as salinas mas aqui voltei recentemente por ocasião da apresentação à imprensa das novas motorizações do Nissan X-Trail, o maior SUV desta marca nipónica. Esta espécie de Qashqai mais encorpado (sobretudo mais longo, permitindo ter cinco ou sete lugares) passa, a partir de Outubro, a ser vendido com duas motorizações: uma a gasóleo de 1700 cm3 com 150 cavalos e, sinal dos tempos, outra a gasolina com um motor tricilíndrico de 1300 cm3 e 160 cv desenvolvida em parceria com a casa Daimler (leia-se Mercedes) e o grupo Renault. Um e outro estarão disponíveis com caixa manual de seis velocidades ou caixa automática de sete.

Num primeiro contacto pareceram-me muito próximas, tanto em termos de desempenho como de consumo, ainda que, à evidência, o motor a gasóleo pareça ter (e tem) mais binário, nomeadamente a baixa rotação. Uma impressão que terá de ser aferida em futuros testes de maior duração.

À luz das novas regras fiscais e dos novos métodos de cálculo das emissões poluentes a motorização a gasolina sai beneficiada, apontando-se para preços da versão de entrada da ordem dos € 32 mil.