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VW, a reconstrução do mito

Com o ID3, modelo eléctrico projectado de raiz, a Volkswagen quer criar um carro que venha a ser tão marcante como o Carocha ou o Golf foram nos seus tempos. Consegui-lo-á?

“Now we can”, uma frase pedida emprestada a Barack Obama para decorar o espaço da VW no Salão de Frankfurt

D.R.

Os salões automóveis já não são o que eram. Desde logo porque uma parte das marcas opta por não estar presente. Foi o caso, neste mês de Setembro em Frankfurt, da Toyota, Kia, Mitsubishi ou Peugeot/Citroën. Depois, a própria imagem dominante nestes eventos mudou: adeus aos espaços de exposição cheios de carros sobre-motorizados e rodeados por meninas despidas a rigor.

Agora, a mensagem é outra: em tons de azul ou verde pinta-se o respeito pela natureza e o combate às emissões, seja de gases de estufa, seja de poluentes nocivos para a saúde. Não é que tenham deixado de estar expostos modelos desportivos ou motorizações a gasóleo. Mas o destaque vai para as versões híbridas ou eléctricas, sem esquecer a solução de amanhã: a pilha de combustível (o motor é alimentado pela corrente eléctrica gerada por uma reacção electroquímica envolvendo oxigénio e hidrogénio).

De resto, fora da Feira Internacional de Frankfurt um grupo ecologista aproveitava para fazer passar a sua mensagem: uma grande pick-up americana com o escape ligado a um balão gigante onde se lia em letras garrafais: “CO2”.

Expiar as culpas do dieselgate

Eis o contexto mais que perfeito para o grupo alemão que agrega 12 marcas, emprega 600 mil pessoas e vende dez milhões de carros anuais fazer a catarse do escândalo dieselgate que há quatro anos o abalou até aos alicerces. O virar de página é simbolizado por duas coisas: um novo logótipo, mais simples, para não dizer mais humilde, e o lançamento de um carro 100% eléctrico da gama média, projectado de raiz e que promete ser tão marcante como o Carocha ou o Golf o foram noutros tempos.

O ID3 apresentado ao mundo no Salão de Frankfurt lembra um VW Golf ainda que com a frente mais arredondada. Como a motorização eléctrica ocupa menos espaço que a térmica, transforma-se no sonho do projectista: o espaço interior aumenta e o habitáculo pode ser mais chegado à frente.

O construtor alemão chega atrasado à corrida eléctrica (ainda que já tivesse modelos electrificados resultantes de adaptações de carros existentes como o Golf ou o Up) mas promete fazer mexer as coisas. A começar pelos preços. Promete-se para a versão de entrada um custo semelhante ao do carro térmico equivalente, ou seja à volta dos € 30 mil que custa entre nós o mais barato dos Golf TDI.

Contudo, este valor diz respeito à versão equipada com a bateria de menor capacidade. Expliquemo-nos melhor. Por preços diferenciados a VW proporá três tipos de baterias com potências e autonomias crescentes: 45 kW e 330 km; 58 kW e 420 km; 77 kW e 550 km. Para todas haverá oito anos de garantia ou 120000 km.

Aspecto geral do novo VW ID3

Aspecto geral do novo VW ID3

Meia hora à carga

Todas estas baterias de iões de lítio estão associadas a sistemas de carga de última geração, o que significa que uma carga rápida de 30 minutos gera uma autonomia homologada (pela nova norma WLTP) de 270 km. Note-se que estamos a falar de cargas rápidas a 100 kW o que na rede portuguesa actual é pouco mais que uma miragem, circunstância pela qual o fabricante prevê associar-se a uma gasolineira (provavelmente a Cepsa) para instalar a sua própria rede de pontos de carregamento rápido.

Com carregamento de baixa potência será preciso uma noite inteira para recuperar a máxima autonomia, o que não é problema para quem tenha facilidade em carregar em casa mas poderá sê-lo se depender da saturada rede da Mobi.E na via pública, nomeadamente nos bairros residenciais.

A velha e a nova (por enquanto protótipo) carrinha pão de forma

A velha e a nova (por enquanto protótipo) carrinha pão de forma

D.R.

O regresso do pão de forma

Impressões de condução ainda não vos posso transmitir porque o carro só começará a chegar a Portugal no próximo Verão. Em contrapartida, a circunstância de a marca alemã ter criado uma nova plataforma (MEB) para todos os futuros veículos eléctricos abre possibilidades curiosas, como a revisitação da carrinha pão-de-forma com portas de correr laterais ou do buggy derivado do Carocha em futuros lançamentos.

Quanto ao resto do Salão Automóvel de Frankfurt, algumas pinceladas finais. A Honda lançou aqui o seu primeiro modelo eléctrico, o Honda E. Baseia-se numa filosofia talvez mais pragmática que a das outras marcas: no estado actual das coisas o carro eléctrico será sobretudo citadino, portanto vá de projectar um carro pequeno, ainda que de quatro portas, para a cidade com 220 km de autonomia e capacidade de recarga rápida em meia hora. Com a curiosidade de poder vir a ser carregado numa rede própria “pendurada” nos candeeiros da iluminação pública.

O mesmo fez a Mini com o seu primeiro modelo 100% eléctrico, enquanto a Opel lançou um Corsa E com 330 km de autonomia anunciada. Nada eléctrico mas arriscando-se a desiludir os seus fãs de décadas, o novo Land Rover Defender, aqui apresentado, ganhou em arrebique estético o que perdeu em imagem de simplicidade e robustez. É, decididamente, outro carro para outro público.

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