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Sauchan — purificação

À quarta-feira, a crónica de bem-estar de Cristina Diniz ganha nova entrada

D.R.

Moro desde há uns meses em frente a uma simpática escola do primeiro ciclo. Uma das melhores coisas que o final de férias trouxe foi exatamente o início do ano escolar. Fico maravilhada e de coração cheio ao ouvir essas crianças tão novinhas a tagarelar, a rir, a brincar. Aquela gritaria solta e desenfreada, sinónimo de pura felicidade, é um chilreio despreocupado com o antes e com o depois, é pura vivência no presente. A alegria de viver que transmitem no recreio espelha bem os seus corações e mentes simples e puros, onde toda a fantasia é possível e poucos demónios existem. Que bom é viver rodeado e impregnado desse riso solto e genuíno.

Depois … as crianças vão crescendo e nas mentes e corações de adolescentes e adultos as coisas já não são bem assim. As crenças e vivências vão-nos moldando, somos imiscuídos na comunidade que tanto faz nascer em nós um sentimento agradável como um desgosto. A nossa noção da vida e a razão mudam e mudam-nos a nós próprios. Quando resultam em sentimentos e princípios bons, julgo eu que pouco há a modificar. Quando se multiplicam as teias de aranha no cérebro e os pensamentos impuros e se abre lugar a percepções distorcidas, pesares, ódios, orgulhos e sensações mais infelizes, penso eu que podemos limpar e melhorar.

E mais uma vez o Yoga pode ajudar.

Sauchan poderá ser traduzido como purificação. A palavra puro deriva do latin purus, que significa limpo e não adulterado, lá está … como a mente de uma criança.

A ética é o fundamento do yoga, Sauchan é um dos princípios que está na sua base. Descrito numa notável escritura antiga - os Sutras de Patañjali - faz parte do que se refere como niyamas (disciplinas ética para connosco próprios). Os niyamas são cinco, a saber: śauchaṅ - purificação; santośa - contentamento; tapas - autodisciplina; Īśvara praṇidhāna – entrega à Vida; svādhyāya - estudo das escrituras do Yoga e de si próprio.

Sauchan é a tentativa de afastar e de purificar pensamentos e sentimentos penosos. Sabemos que a mente é muito potente e o que decidimos fazer com ela poderá ter um grande impacto nas nossas vidas. Pensamentos “impuros” como julgar alguém ou a nós próprios, por exemplo por não conseguir atingir objetivos são de evitar até porque a energia flui para onde a atenção vai.

Sauchan implica também manter asseio no corpo, na mente e no ambiente envolvente de tal modo que possamos ter respeito por nós, pela prática de yoga e uma melhor experiência de nós próprios.

É tentar manter o corpo limpo e saudável, é evitar alienações e adições, é procurar fazer uma alimentação saudável sem conservantes e aditivos não naturais, é ser sadio e procurar ser o mais genuíno e puro possível, é expurgar de tudo o que é impuro, é escolhar as palavras evitanto incorreções e ter um discurso assente na vernaculidade.

No seu aspecto prático, Sauchan aponta para a limpeza. Além de que os exercícios de expansão da respiração e as próprias posturas físicas inerentes à prática de yoga purificam e limpam o corpo internamente livrando-o de toxinas, o yogui é asseado, ele toma o seu banho antes da prática de yoga; usa técnicas de limpeza apropriadas, os chamados kriyas (jala neti – limpeza nasal, dhauti – limpeza do trato digestivo, nauli – massagem abdominal, kappalabhati – purificação e vitalização dos lobos frontais, trataka – limpeza ocular); procura ter um lar, um local de trabalho

ou de prática elegante, organizado, arejado, limpo e convidativo; usa roupas asseadas; procura ser ecológico e respeitar o planeta; ler livros que o enlevem e ver filmes inpiradores; juntar-se a pessoas agradáveis.

Sauchan possibilita que se alimente pacífica e positivamente a mente e que não sejamos constantemente distraídos pela parafernália de projetos antigos ou de afazeres múltiplos. Uma mente lúcida, limpa e pura é mais fácil de se focar apenas naquilo que interessa.

A prática de Sauchan implica fazer escolhas do que queremos ou não para a nossa vida, permitindo experiências mais ardentes e vívidas, gerando benevolência e beleza à nossa volta e sabendo apreciá-la nas suas múltiplas formas e variantes.

Em sânscrito, Dukham-Eva-Sarvam significa que tudo é sofrimento, que tudo aquilo que amamos um dia nos vai trazer desânimo, desespero e tristeza. Todos os objetos e sensações do nosso mundo material e sensorial um dia trar-nos-ão sofrimento. Mesmo na prática do yoga por vezes existe um sofrimento psicológico, emocional e físico. É bom ter consciência disso. Mas melhor ainda é aprender a limpar, a purificar, a não valorizar, a sublimar. É por exemplo, focarmo-nos na doçura das palavras dum filho quando no final do dia somos confrontados com má notícia atrás de má notícia e ele nos sussurra num abraço envolvente “Mãe, és tão forte. Nunca desistes!

Viver em yoga é também purificar, energizar, encher o peito de ar e o coração de amor e seguir em frente, com confiança.

Boas práticas!

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