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Svadhyaya – o estudo de si mesmo

A crónica de bem-estar de Cristina Diniz ganha nova entrada, sempre à quarta-feira, no Vida Extra

D.R.

Para a maioria de nós um novo ciclo está a começar, as férias terminaram e recomeça o trabalho, os deveres, a atividade física, a escola.

Para esta nova fase que se adivinha proponho que recomeçemos dando prioridade ao estudo e conhecimento de nós próprios, do que sentimos, do porquê de reagirmos de certo modo, de identificarmos as nossas forças e também as nossas fragilidades e a partir desse conhecimento de quem realmente somos talvez abrir caminho para um percurso de vida melhor.

Nunca é demais referir que o yoga não é só posturas físicas e que na sua base, nas suas raízes, estão as disciplinas éticas. De acordo com uma escritura antiga, os Sutras de Patañjali, a ética é o fundamento do yoga. São referidos os yamas (5 princípios éticos para com a comunidade onde nos inserimos) e os niyamas (outros 5 princípios éticos para connosco próprios).

Svadhyaya pertence à categoria dos niyamas, é um excelente ponto de partida e tarefa nada fácil de cumprir.

Sva significa eu, o próprio. Adhyaya significa estudo, educação. Portanto poderiamos contemplar este termo e traduzi-lo como a educação de nós próprios.

D.R.

Realmente aprendemos tanto do mundo de fora de nós, academicamente são tantas e tão diversas as matérias que estudamos, aprofundamos conhecimentos específicos sobre o que nos interessa, conhecemos a história, o mundo da política invade-nos a toda a hora, chegamos a conhecer, quer queiramos quer não, a vida pessoal de figuras públicas, mas e nós? Será que nos conhecemos o suficiente? Será que sabemos mesmo o que queremos? Avaliamos o nosso comportamento e as nossas emoções? O nosso autoconhecimento é suficiente para controlarmos uma ação nossa que se avizinhe?

Svadhyaya é o estudo que conduz ao conhecimento de si próprio, é a busca do saber interior, é o encontro com a intuição.

Não necessita de ser encarado apenas como meditação e parte integrante do yoga, qualquer atividade que cultive uma consciência de autorreflexão pode ser considerada Svadhyaya. Todos temos inclinações, gostos diferentes e atividades diversas como pintar, tocar um instrumento, fazer voluntariado, podem levar-nos a sentir e tomar conhecimento de aspetos mais escondidos de nós próprios. Estar atento a essas nossas particularidades é Svadhyaya e implica a intenção de descobrirmos, conhecermos e aprendemos sobre nós.

Implica estarmos atentos a nós nos bons e nos maus momentos, sabendo que é normalmente quando as coisas pioram que temos maior oportunidade de aprender sobre como e quem somos.

O estudo sobre si mesmo faz-nos ter consciência nos nossos pontos fortes, mas também das fraquezas, inclusive estudar os nossos hábitos, ou as tendências negativas.

Se descobrimos os pontos fracos é importante que não sejamos violentos para connosco, pelo contrário o convite é para aceitarmos as nossas limitações e chegarmos tão próximos de nós que possamos ver a raiz da nossa impaciência, das nossas falhas, da revolta ou aversão.

Cultivar o entendimento e a compaixão pelas condições que moldaram as nossas crenças e comportamentos é positivo e permite desenvolver competências para lidar com as situações e alterar tendências.

O grau de compaixão e aceitação que conseguirmos ter por nós é equivalente ao grau de tolerância que conseguiremos ter pelas falhas e limitações dos outros.

Com Svadhyaya compreendemos a natureza da nossa alma.

Contudo este conhecimento de quem somos tem também um significado mais profundo e aponta para reconheçer que somos parte do Todo e do universo, somos feitos da mesma matéria e não apenas seres individuais distintos. No mundo ocidental Svadhyaya é reconhecido como psicoanálise mas o yogi de tempos idos tinha mais em mente do que isso exclusivamente. Refere-se que temos a nossa identidade individual mas tal como se fossemos ondas de um oceano a consciência individual nunca está separada de uma Consciência infinita. No seu sentido mais profundo o objetivo de Svadhyaya é possibilitar essa experiência de união com o que é divino.

Assim, fica o convite a praticarmos yoga e ver o que sentimos e porque sentimos, vermos o que verdadeiramente queremos para nós neste momento da nossa vida, vermo-nos a nós próprios como realmente somos, tendo sempre presente que o autêntico conhecimento, as respostas veêm de dentro e não de fora.

Boas práticas.

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