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Vida Extra

O Algarve improvável onde há apenas um hotel de luxo

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes vai quase a Espanha para chegar à cidade algarvia que se posiciona como destino do novo luxo

Vila Real de Santo António tem o cognome de ‘Pequena Lisboa’ pelas ruas rectilíneas e perpendiculares, características do urbanismo de Marquês de Pombal

Tiago Paula de Carvalho

Rumo ao Algarve em contraciclo com os veraneantes, num final de agosto a sinalizar o regresso ao trabalho e o início improvável de um segundo verão. Ou o primeiro do ano, na perspetiva de quem exige temperaturas adequadas ao estatuto de estação quente. Andar ao contrário da regra significa também percorrer quilómetros adicionais até à ponta mais oriental do Algarve, que é também a mais esquecida pelo turismo de luxo.

Vila Real de Santo António é o destino, tendo como última memória de férias no Algarve uma fotografia na Praia da Rocha em pleno agosto (comigo acabada de celebrar três anos de idade), onde a única coisa que se vislumbra é um areal deserto. Agora, este regresso de dois dias ao Algarve não sabe a férias, nem me leva ao atual caos urbanístico da Praia da Rocha. É o centro de Vila Real de Santo António que me reaviva as memórias do Algarve pouco explorado dos anos 70, que a Praia da Rocha já esqueceu.

O Hotel Guadiana, de 1926, é hoje o renovado Grand Hotel, que mantém a fachada Arte Nova projetada nos anos 20 pelo arquiteto suíço Ernesto Korrodi

O Hotel Guadiana, de 1926, é hoje o renovado Grand Hotel, que mantém a fachada Arte Nova projetada nos anos 20 pelo arquiteto suíço Ernesto Korrodi

Tiago Paula de Carvalho

As ruas rectilíneas e perpendiculares, projetadas por Marquês de Pombal, fazem os lisboetas sentirem-se em casa e justificam o cognome da cidade: ‘Pequena Lisboa’. O espanhol é o idioma mais escutado, mas isto não invalida que aqui se preserve a autenticidade e a matriz portuguesa. A vista para o rio Guadiana (que separa Portugal de Espanha) e para a Isla Cristina são a perspetiva de Vila Real de Santo António, que mantém do passado as inúmeras lojas de atoalhados, que há décadas lhe dão fama. É na rua dominada pelos têxteis trazidos do norte do país, a avenida marginal, que o Hotel Guadiana renasce como Grand House, o primeiro hotel de cinco estrelas da cidade e que quer ser o ponto de partida na criação de uma nova centralidade de luxo.

Entre lojas que exibem na rua toalhas de praia com a imagem de Cristiano Ronaldo e paredes meias com antigos armazéns de conservas, de frente para a marina, o Grand House revisita a história mais requintada de Vila Real de Santo António. É construído nos anos 20 (inaugurado em 1926) para albergar empresários e comerciantes ligados à indústria das conservas de peixe, nesta época a mais pujante na região. Aliás, é um empresário conserveiro, Manuel Ramirez (o mesmo que dá o nome às conservas Ramirez) quem contrata o arquiteto suíço Ernesto Korrodi para projetar o edifício, que é o primeiro hotel a sul do Tejo (na época já tinha cinco estrelas) e marca o início do turismo no Algarve.

O Grand Salon, restaurante do Grand House, é liderado por Jan Stechemesser, alemão radicado em Portugal há 16 anos, que baseia a sua cozinha nos produtos algarvios

O Grand Salon, restaurante do Grand House, é liderado por Jan Stechemesser, alemão radicado em Portugal há 16 anos, que baseia a sua cozinha nos produtos algarvios

Tiago Paula de Carvalho

O Grand House mantém intactas desta época a fachada Arte Nova e a estrutura do interior, que, no entanto, teve de ser totalmente reabilitado por estar em muito mau estado. Do original sobrevive apenas o balcão de madeira do bar, localizado no primeiro andar e na continuação do restaurante, o atual Grand Salon. É neste espaço que decorre a narrativa que dá corpo ao livro do historiador algarvio Fernando Pessanha, especialista em História do Algarve, que cruza a realidade com a ficção, num registo que pode inquietar atuais hóspedes mais impressionáveis.

Os interiores dos 30 quartos, bem como todo o hotel, foram idealizados pela White&Kaki, empresa de design e decoração de Almancil

Os interiores dos 30 quartos, bem como todo o hotel, foram idealizados pela White&Kaki, empresa de design e decoração de Almancil

Tiago Paula de Carvalho

O livro ‘Hotel Anaidaug’ (Guadiana escrito ao contrário) conta a história de um marinheiro que, depois de uma longa luta com o mar, entra na foz do rio em busca de um sítio para recuperar as forças, aliciado pelo néon no topo do hotel. Atraca na marina e dirige-se ao Anaidaug, onde encontra um ambiente de festa ao estilo dos anos 20. No bar, conhece uma mulher sedutora e misteriosa que lhe diz que este não é um lugar para ele. O marinheiro não dá ouvidos a esta indicação e acaba por se dirigir ao seu quarto (número 308) onde adormece. Acorda no dia seguinte de manhã e não reconhece o espaço onde se encontra.

Os móveis estão cobertos de pó e as paredes com a tinta caída. Quando sai do quarto constata que o hotel está abandonado e que a porta de saída para a rua não abre. Bate no vidro e grita para pedir ajuda, acabando por perceber que as pessoas que passam na rua não o ouvem nem vêem. Diz o mito que desde esta altura não terá conseguido sair do hotel e há relatos de hóspedes que garantem ouvi-lo a andar nos corredores durante a noite. Por via das dúvidas, evitei o quarto do marinheiro (atualmente com o número 310) e pernoitei no 301, um dos 30 existentes no remodelado Grand House, que quer proporcionar aos hóspedes mais do que a história deste mito.

Com uma ‘piscina infinita’ (que se funde com o horizonte) e uma língua de areia com espreguiçadeiras, o Grand Beach Club está instalado numa antiga base militar

Com uma ‘piscina infinita’ (que se funde com o horizonte) e uma língua de areia com espreguiçadeiras, o Grand Beach Club está instalado numa antiga base militar

Tiago Paula de Carvalho

Assumindo-se como hotel histórico de cidade que é, o Grand House não tem piscina nem praia integradas na sua estrutura principal, mas oferece uma ‘piscina infinita’ (que se funde com o horizonte) e uma língua de areia com espreguiçadeiras. O Grand Beach Club está instalado numa antiga base militar e é acessível através de um transfer do hotel. A reconversão de edifícios é, aliás, a estratégia do Grand House, que vai recuperar a antiga Alfândega da cidade e convertê-la na Grand Gallery. Este espaço, que ainda não tem data marcada para inaugurar, terá um café, uma loja com artigos de decoração e peças de artistas locais, uma sala de exposições e um clube privado para tertúlias literárias e provas de vinho, por exemplo.

A envolvência com a história e cultura de Vila Real de Santo António marca o posicionamento do Grand House, que procura ir ao encontro do Algarve genuíno. É apanhar a boleia da tendência mundial no turismo de luxo, feita de vivências personalizadas que reflitam o espírito local. O Grand House apresenta cerca de uma dezena de experiências, às quais soma vários passeios a localidades nas redondezas (incluindo Ayamonte e Sevilha) e atividades desportivas. Uma das experiências mais extravagantes diz respeito, precisamente, à proximidade com Espanha: atravessar a fronteira em zipline, sobrevoando o rio Guadiana através de um cabo suspenso. Passeio de girocóptero ou a cavalo (na reserva natural de Castro Marim e na Ria Formosa) e tratamentos com flor de sal e argila (nas piscinas naturais da salina Água Mãe, em Castro Marim) são outros dos desafios.

Imersão nas piscinas naturais de salinas a 30 graus de temperatura, com tratamentos com flor de sal e argila, é um dos desafios do Grand House

Imersão nas piscinas naturais de salinas a 30 graus de temperatura, com tratamentos com flor de sal e argila, é um dos desafios do Grand House

Tiago Paula de Carvalho

Há mais um indício de que Vila Real de Santo António está a entrar no mapa do luxo focado no património e na cultura, com a renovação da pousada localizada na Praça Marquês de Pombal (antiga Praça Real), na Baixa Pombalina da cidade. O projeto, do Grupo Pestana, inclui a reabilitação da já existente Pousada de Vila Real de Santo António (entre outros edifícios da praça) e tem a reabertura marcada para o primeiro semestre de 2020. Assim, o Algarve menos massificado troca as voltas às localizações mais óbvias.

Grand House
Avenida da República, 171
Vila Real de Santo António
€200/€1080 (quarto duplo)
www.grandhousealgarve.com