Perfil

Vida Extra

Em Veneza estão as nossas atrizes

Ser atriz e ter voz: as mulheres estão no cinema e mundo está a ouvi-las

A semana passada, Alberto Barbera, diretor do Festival de Cinema de Veneza, explicou ao jornal Público, numa entrevista, o porquê da escassa presença de filmes portugueses em competição no seu festival. Uma das justificações relaciona-se com “falta de propostas que tenham uma respiração internacional”. Este ano, em competição, está o filme “A Herdade”, de Tiago Guedes, produzido por Paulo Branco. Um filme que respira mérito e um denso orgulho para este Portugal habitado por mulheres de talento soberbo.

Veneza é o festival mais antigo do mundo, mas mais do que termos um filme português em competição, temos um filme repleto de mulheres de gerações diferentes, a representarem as atrizes do nosso país, entre elas, a imbatível Sandra Faleiro, a Ana Bustorff ou a Victoria Guerra. Que mensagem se pode e deve levar para um festival como Veneza, que este ano tem como presidente do júri uma mulher, a realizadora Lucrécia Martel?

Em troca de palavras com a Ana Bustorff, atriz de uma geração diferente da minha, percebo o orgulho imenso que a sua voz verte ao falar deste projeto e das suas colegas. A Ana partilha da opinião que tanto no teatro como no cinema, as mulheres sempre foram pouco referenciadas e poucas vezes lhes foi dada a grandiosidade merecida. Concordo com a Ana, e acrescento ainda que a figura da atriz, que apesar de existir há já alguns séculos, nem sempre ao longo da história lhe foi atribuído o lugar digno de opinião, de criar ou de pensar. O papel de atriz não é fácil, nunca foi, é muito provavelmente o papel mais difícil de se interpretar. É uma batalha diária e constante contra estereótipos, ideias ou desvantagens, conjugadas com a parca atenção que se dá à cultura. Nos Gregos, as mulheres não faziam teatro, eram proibidas e substituídas por homens nos seus papéis. Hoje os tempos oferecem-nos outras justiças, outras vozes que podem ser escutadas, mas sabemos que ainda há um caminho longo a percorrer.

Sandra Faleiro em “A Herdade” (2019)

Sandra Faleiro em “A Herdade” (2019)

IMDb

A Sandra Faleiro está nomeada em Veneza, ao lado de atrizes como Juliette Binoche, Penélope Cruz ou Laura Dern, a Sandra atira-nos um encanto imenso quando está na tela. A Ana faz de mãe da Sandra e da Victoria, e o orgulho que elas nos fazem sentir com o seu trabalho é motivo de honra. Com personagens que vivem os anos pré e pós 25 de Abril, hoje, ao escrever este texto, é inevitável o pensamento escapar-me para a palavra liberdade. É sobre ser livre, isto de ser artista, isto de ser mulher.

O que me abrilhantou os olhos, na conversa com a Ana, foi a união e o extremo respeito com que me falou das suas colegas, a alegria inesgotável e a admiração. Disse-me ainda, com a voz mais calma do mundo: “Papéis de mulheres para o cinema, não se esqueçam, nunca são demais, as mulheres têm muita interioridade e uma capacidade de transformar as coisas”. Que bom ouvi-la falar e ter ainda voz para vos escrever, que isto de ter uma opinião, não foi assim de um dia para o outro que se conseguiu, é e também sobre isso que esta Herdade nos fala.

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.