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Vida Extra

Uma câmara que não decide se está de férias ou não

Lourenço Medeiros, na crónica "Futuro Extra", fala-nos da nova Sony RXO II. Uma “boa máquina, sem dúvida, mas difícil de usar”. Descubra-a abaixo

A Sony lançou mais um concorrente de nova geração na área das câmaras de ação. Mais uma GoPro? Sim e não? Melhor? Sim e não, vamos lá por partes.

O que surpreende logo quando pegamos nela é o tamanho relativamente grande, apenas ligeiramente maior do que o habitual. Um paralelipípedo perfeito, sem protuberâncias, com os botões perfeitamente integrados, dá-lhe muito bom aspeto e ajuda à solidez desta Sony RXO II. Dentro dos nomes que a Sony escolhe, RXO II nem é dos piores. À prova de choque, à prova de água até 10 metros de profundidade e de pó, os textos que aparecem nas lojas dizem que é uma câmara sem limites, seja lá o que for que isso quer dizer. Não testei os limites de resistência da pequena máquina porque só me emprestaram uma, ainda assim mergulhei-a várias vezes em água a pouca profundidade, e fartou-se de apanhar pó, até agora sem queixas e sem caixas.

Sem caixas é precisamente um dos detalhes que impressiona quando vemos que o ecrã traseiro se move à maneira das máquinas fotográficas. Levanta e inverte para poder ser usado, quer para olharmos por cima quer até para fazermos selfies. Vai ser muito apreciada por vloggers. Quem vê todo este mecanismo não espera que a máquina possa mergulhar sem ter que ser colocada dentro de uma caixa protectora, mas é assim mesmo, o que permite malabarismos como por exemplo filmar com o ecrã fora de água e a objectiva dentro de água — se não houver ondas, claro.

O ecrã versátil ajuda às selfies, o meu companheiro, não. Da resolução não me posso queixar mas como em qualquer máquina complexa é necessário ter atenção aos parâmetros que estamos a usar

O ecrã versátil ajuda às selfies, o meu companheiro, não. Da resolução não me posso queixar mas como em qualquer máquina complexa é necessário ter atenção aos parâmetros que estamos a usar

Lourenço Medeiros

Numa situação destas, como em muitas outras, o ecrã versátil ajuda muito

Numa situação destas, como em muitas outras, o ecrã versátil ajuda muito

Lourenço Medeiros

O que surpreende a seguir, embora não seja a primeira destas máquinas a conseguir o feito, é mesmo a estabilização da imagem. A não ser para usos mais avançados, panorâmicas sofisticadas e por aí fora, justifica-se cada vez menos o uso de punhos estabilizadores “gimbles”, para gravações vídeo, com estas pequenas maravilhas. A andar, a correr, até quando caí dentro de água com a trela de um cão na mão e a RXO II na outra, fiquei surpreendido com a estabilização da imagem. Melhor que aquilo só se saísse da minha mão e ficasse a pairar e a filmar a minha figura.

Como é hábito, não me vou alongar em considerações técnicas. Fotografias e filmes correspondem perfeitamente à qualidade que eu esperaria de uma Sony mesmo com este alto preço: é um prazer usar e está muito bem desenhada. O problema, e já não é de hoje, está no software.

Se cair a única coisa que vai estragar é o vídeo

Se cair a única coisa que vai estragar é o vídeo

Lourenço Medeiros

Uma pequena maravilha técnica destas é obviamente uma máquina de um grande profissionalismo, mas não o deve parecer. Ou seja, deve ser fácil de usar por um amador, pelo menos parece lógico, a menos que os alvos da marca sejam apenas os profissionais de vídeo. Com este preço podia ser. Mas não é. O problema está nesta indecisão.

Até há uma tentativa de interface a simplificar o uso, que não chega. Na prática, esta minúscula máquina tem um menu tão complicado como as máquinas fotográficas topo de gama da Sony. O interface nas máquinas “grandes ” já não é o forte da marca, encaixar aquilo tudo num ecrã minúsculo é obra, e não nos facilita a tarefa. Linhas e mais linhas de comandos para escolher, muitas vezes com palavras incompletas e que explicam mal as funções a que dizem respeito.

Em alguns casos, quando estava muito sol, ao escolher algumas funções o ecrã ficava demasiado escuro, ainda estou para perceber porquê, porque de facto tinha luminosidade suficiente. E depois há o problema ao passar as imagens para o telefone ou para o tablet, que será a primeira tentativa de muitos dos utilizadores. Nada fácil e, mais uma vez, nada justifica que a Sony ainda não consiga fazer software decente. A marca está a dar cartas e de que maneira com excelentes hardware, mas precisa de dar um salto significativo no que diz respeito aos programas de acesso. Eu tenho uns aninhos destas coisas e chego a sentir-me embaraçado a dar voltas e mais voltas ao programa, quase como se fosse um hacker, e a tirar as fotos por um lado e os vídeos por outro, para conseguir simplesmente ver as imagens que fiz para os testes. Cheguei mesmo ao ponto de perder coisas que já tinha editado, uma confusão. Claro que ao fim de umas tentativas cada um conseguirá as suas rotinas que funcionam com os computadores, telefones e tablets que usa, fica a conhecer as manhas e o que funciona ou não em cada um, mas não devia ser assim tão complicado.

O vídeo que o programa diz que não é compatível… é um vídeo da Sony que fez o dito programa. No mínimo estranho.

O vídeo que o programa diz que não é compatível… é um vídeo da Sony que fez o dito programa. No mínimo estranho.

Lourenço Medeiros

Mais umas coisinhas: faz um super slow motion a 960 frames, mas é daqueles em que temos quase que adivinhar o momento que queremos ver em câmara lenta. Difícil de usar, pode ser frustrante quando ainda por cima não temos detecção de objectos a ajudar. O som de origem pareceu-me muito decente, há a hipótese de acrescentar um microfone para melhorar a captação, não testei mas também calculo que lhe limite em muito as capacidades de câmara de ação. Há a possibilidade de captações multicâmara, que também não usámos, e aqui sim, pode justificar o investimento, são filmagens muito usadas, por exemplo, em publicidade. O programa até inclui o sistema de focagem Eye AF, que a Sony aperfeiçoou ao ponto de se poder definir a focagem para o olho direito ou esquerdo, sendo impressionante. Noutros casos, tenho sérias dúvidas quanto à sua utilidade com uma objectiva grande angular deste tipo e com um pequeno ecrã destes, onde é difícil de configurar. Convém dizer, porque para alguns isso é expectável, que o ecrã não é touch.

A bateria dura pouco, muito pouco, nem pense em ir para a praia sem mais umas sobresselentes carregadas.

Tudo muito bem, se tivermos paciência para ultrapassar as dificuldades do software (a sério SONY ainda!!!) e para o preço. Cerca de 800 euros coloca a RXO II noutro patamar, muito acima da concorrência, tão acima que convém pensar duas vezes, ou três antes de gastar tanto dinheiro com uma máquina que é boa, sem dúvida, mas difícil de usar. Difícil não é o que queremos numa câmara de ação.

Algumas características, segundo a marca:

  • lente fixa grande angular ZEISS®Tessar T* de 24 mm F4

  • gravação interna 4K a 30p e novas soluções de estabilização de imagem

  • Para fotos, obturador anti distorção de até 1/32000 s e captação contínua até 16 fps

  • 59 mm x 40,5 mm x 35 mm e um peso de 132 g

O fundo na barragem não é o de uma ilha tropical, mas tinha que mostrar que esteve mesmo mergulhada

O fundo na barragem não é o de uma ilha tropical, mas tinha que mostrar que esteve mesmo mergulhada

Lourenço Medeiros

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