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Vida Extra

O amor em frames de perdão

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Woody Allen e Mia Farrow em "Broadway Danny Rose" (1984)

D.R.

O amor é muita coisa, tem muitas cores, muitos lugares. É bonito, é feio, dói, deixa de doer, fala mas também ouve. Está em todo o lado, tem muitas caras, nomes, canções, ruas da cidade. O amor somos nós, amadores em duplo sentido que tropeçamos incansavelmente nessa matéria.

O amor não tem idade, não tem género, é uma força bonita que nos provoca dores de estômago e suores nas mãos. São olhares calados, risos desbocados, poemas construídos, sustos e medos exagerados, a família, os amigos, a vontade e o desejo. É carnal, é platónico. São dois segundos de “Olá, como estás?”, ou conversas eternas sobre o quotidiano. É um copo de whisky, é uma chávena de chá. É feroz, é belo, é confuso, mas acima de tudo é incansável.

Em semana de riscar da lista, filmes ainda não vistos de Woody Allen, vêm-me à cabeça as inquietações do amor, que o autor tão bem atira para os seus argumentos e frames. Personagens exaustas detalhadamente construídas com apontamentos de paixões confusas, é o seu forte: Allen adora brincar com o amor. As Gerações que se cruzam e que se apaixonam, as infidelidades punidas, as trocas e os mal-entendidos em cenário de América sempre tão cheia de Jazz.

Mas como o amor acontece também na amizade, não pude deixar de vos escrever sobre “Broadway Danny Rose” de 1984. Bem sei o polémico que pode ser, falar do senhor Woody, mas se há coisa que tento fazer, é separar o artista da obra: os seus filmes são excelentes pedaços de cinema que não devem ser escondidos das gerações futuras, são bem escritos e com um dom especial no que toca à banda sonora.

Em “Broadway Danny Rose”, mais do que o amor carnal, o amor da amizade é o mote de todo o argumento. Um agente que não desiste dos seus artistas decadentes e que embora a quase pobreza os ataque, existe sempre um abraço ou uma palavra de conforto para dar. Em romance confuso e trocas de esposas, um cantor romântico agenciado por Danny, fará com que se espelhe a sede do sucesso: nasce então a amizade entre o agente e a ex-amante do artista.

Fala-se de amar e perdoar durante o decorrer do filme, não fosse o perdão algo fundamental para sustentar o amor. Na cena final em dia de ação de graças, o auge daquilo que é amar acontece à entrada de porta de um apartamento, onde se refere a importância de perdoar. Dá-se o perdão, em fuga pela neve nas ruas de Manhattan, não fosse a amizade a maior prova de amor.

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