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‘Assobiar para o lado’, Jeffrey Epstein e abusos sexuais. Como caiu a Victoria’s Secret

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre como um ícone da lingerie é o último a perceber (da pior maneira) que o seu padrão de beleza e princípios estão ultrapassados

Na sequência do último desfile, em novembro de 2018, Edward Razek, diretor de marketing da Victoria’s Secret, manifestou ser contra a participação de modelos ‘plus-size’ e transsexuais

D.R.

Parece que o mês de agosto escolheu a Victoria’s Secret para mostrar ao mundo que ‘assobiar para o lado’ não é a melhor estratégia (muito menos para uma marca de lingerie), em plena era ‘Me Too’ e de inclusão de novos padrões de beleza e de género. A cronologia de acontecimentos que estão a derrubar a Victoria’s Secret é tão extensa que não cabe no primeiro parágrafo desta crónica. Começo pelos resultados financeiros mais recentes, por serem o reflexo objetivo do que há muito se passa por baixo da marca que durante anos quis definir o padrão feminino, através de mulheres esculturais a desfilar roupa interior.

No segundo trimestre do ano fiscal de 2019 (que terminou a 3 de agosto), a Victoria’s Secret diminuiu as vendas em 6% em relação ao mesmo período em 2018, com um total de 1,6 mil milhões de dólares (€1,4 mil milhões), entre o negócio das lojas próprias nos Estados Unidos e no Canadá e as vendas diretas através do catálogo, excluindo os pontos de venda em franchising e licenças que tem a nível internacional. As ações em Bolsa da Limited Brands, empresa que detém a marca, estiveram a cair durante o mês de agosto, chegando aos valores mais baixos dos últimos 10 anos.

Em agosto, a Victoria’s Secret totalizava 921 lojas nos Estados Unidos (com uma nova abertura), face às 957 que detinha em fevereiro, mês em que anunciou o encerramento de 53 pontos de venda, o que deixa em aberto o fecho de mais 16 nos próximos meses. Os resultados financeiros desastrosos e o acelerado fecho de portas são o espelho do que há anos corre mal em termos de estratégia e que a Victoria’s Secret se recusou a encarar.

A recente contratação de Valentina Sampaio, modelo brasileira transgénero, é o primeiro sinal de que a Victoria’s Secret percebeu que não pode continuar a ignorar as novas realidades de género

A recente contratação de Valentina Sampaio, modelo brasileira transgénero, é o primeiro sinal de que a Victoria’s Secret percebeu que não pode continuar a ignorar as novas realidades de género

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As críticas frequentes (e crescentes) aos estereótipos criados com o desfile anual da Victoria’s Secret, onde só entram ‘Bombshells’ e ‘Angels’, há muito que indiciavam que o posicionamento da marca tinha os dias contados. Os movimentos feministas, aliados às críticas nas redes sociais em relação à falta de diversidade nos tamanhos disponíveis nas lojas e à queda de qualidade da lingerie, foram a antecâmara que fizeram revelar o que se passa nos bastidores do maior retalhista de roupa interior nos Estados Unidos e ícone da beleza ultra-padronizada.

Na sequência do último desfile, em novembro de 2018 em Nova Iorque, Edward Razek, diretor de marketing da marca, manifestou ser contra a participação de modelos ‘plus-size’ e transsexuais, argumentando que o desfile é uma fantasia com o objetivo de entreter. Esta declaração acabou por o colocar em rota de colisão com Leslie Wexner, CEO da Limited Brands, que no início de agosto acabou por anunciar, num comunicado interno dirigido aos funcionários, que iriam ser iniciadas mudanças na estrutura e estratégia da empresa. Nesta altura, o ainda diretor de marketing acaba por sair pelo seu pé.

O primeiro sinal de que a Victoria’s Secret percebeu que não pode continuar a ignorar as novas realidades de género é a recente contratação de uma modelo brasileira transgénero. É um tímido primeiro passo porque Valentina Sampaio, na verdade, irá integrar apenas o calendário da Pink, sub-marca da Victoria’s Secret dirigida às adolescentes e não o núcleo duro da marca principal. Provavelmente é o passo possível, tendo em conta que o desfile deste ano está envolto em mistério, com algumas notícias a darem conta do seu eventual cancelamento e outras a indicarem que o formato está a ser reequacionado, nomeadamente a transmissão televisiva na CBS, que faz cada vez menos sentido na nova realidade digital.

Jeffrey Epstein, gestor financeiro da fortuna de Leslie Wexner, CEO da empresa que detém a Victoria’s Secret, apresentava-se como recrutador de modelos para a marca de lingerie, servindo-se desse estatuto para abusar sexualmente delas

Jeffrey Epstein, gestor financeiro da fortuna de Leslie Wexner, CEO da empresa que detém a Victoria’s Secret, apresentava-se como recrutador de modelos para a marca de lingerie, servindo-se desse estatuto para abusar sexualmente delas

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Se não bastasse a turbulência interna nos últimos meses, no final de julho explodiu a bomba que não permitiu mais à Victoria’s Secret continuar a ‘assobiar para o lado’, como se o universo que a rodeia fosse apenas lingerie sexy e supermodelos com asas. Denúncias de modelos indicaram que Jeffrey Epstein, que já se encontrava na prisão (onde se suicidou) por crimes sexuais e envolvimento no tráfico sexual de raparigas menores de idade, apresentava-se como recrutador de modelos para a Victoria’s Secret, atacando-as sexualmente. A legitimidade para este ‘cartão-de-visita’ prendia-se com a relação próxima com Leslie Wexner, de quem era o gestor financeiro da sua fortuna.

É neste contexto que os acontecimentos se vão sobrepondo, estando ou não diretamente ligados a este episódio. A modelo Karlie Kloss anuncia que vai deixar de ser um ‘Anjo’, por não se identificar com a definição de mulher que a marca apresenta (sempre o mesmo tipo de corpos); a conta de Instagram Diet Prada, feita anonimamente por figuras da indústria da moda, denuncia que a Victoria’s Secret plagia a marca britânica Agent Provocateur na nova coleção de outono; e a The Model Alliance, ONG que trabalha para melhorar as práticas na moda, emite uma petição (assinada por 100 modelos) em que exige à Victoria’s Secret que tome uma posição que sirva de exemplo na prevenção do assédio sexual.

Os casos de abusos sexuais são a face extrema do posicionamento da marca que nasce em 1977, com o objetivo de ser uma loja onde os homens se sintam confortáveis a comprar lingerie. Tão à vontade ao ponto de fazer parte do serviço a possibilidade de pedirem a uma empregada da loja que vista a roupa interior que querem comprar para as mulheres e namoradas, para confirmarem o tamanho mais adequado. Provavelmente não passou pela cabeça de Roy Raymond, o fundador da Victoria’s Secret, que a sua inovação em nome do conforto dos homens poderia criar situações desconfortáveis para as mulheres e abrir margem de manobra para eventuais abusos sexuais.

Em agosto, a Victoria’s Secret totalizava 921 lojas nos Estados Unidos, face às 957 que detinha em fevereiro, mês em que anunciou o encerramento de 53 pontos de venda, o que deixa em aberto mais fechos nos próximos meses

Em agosto, a Victoria’s Secret totalizava 921 lojas nos Estados Unidos, face às 957 que detinha em fevereiro, mês em que anunciou o encerramento de 53 pontos de venda, o que deixa em aberto mais fechos nos próximos meses

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O fim de Roy Raymond foi tão dramático como estes episódios: suicidou-se, atirando-se da ponte Golden Gate, em Nova Iorque, depois de ter vendido a Victoria’s Secret a Leslie Wexner, em 1982, quando a marca se encontrava na iminência de falir. É o novo proprietário e, atual CEO da empresa que detém a Victoria’s Secret, que transforma a lingerie (inspirada no segredo escondido por baixo das roupas sofisticadas da Rainha Vitória) numa marca com uma estética europeia, numa versão massificada da luxuosa e exclusiva lingerie La Perla.

É também com Leslie Wexner e com a sua empresa Limited Brands (dedicada à cosmética e a outras marcas de lingerie) que a Victoria’s Secret entra nos produtos de beleza e perfumaria e que surge o primeiro desfile como estratégia de marketing, para posicionar a marca num universo aspiracional, em 1995. Além das ‘Bombshells’ (denominação da maioria das modelos) e das ‘Angels’ (grupo de elite que desfila com asas), Leslie Wexner introduziu o conceito de ‘Fantasy-Bra’, que todos os anos se apresenta materializado numa autêntica peça de joalharia.

O ‘Fantasy-Bra’ desfilado por Gisele Bundchen em 2000 entrou no Guiness como a lingerie mais cara do mundo, por valer €15 milhões (€13,5 milhões)

O ‘Fantasy-Bra’ desfilado por Gisele Bundchen em 2000 entrou no Guiness como a lingerie mais cara do mundo, por valer €15 milhões (€13,5 milhões)

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Este soutien é o ex-libris do espetáculo (por ser feito com pedras preciosas) e um dos modelos já ganhou a entrada no Guiness como a lingerie mais cara do mundo, com a peça usada em 2000 por Gisele Bundchen, com 1300 pedras preciosas e 300 quilates de rubis. O valor? 15 milhões de dólares (€13,5 milhões). Gisele Bundchen, aliás, foi uma das primeiras a abandonar a Victoria’s Secret, em 2016, por alegadamente lhe ter sido negado o aumento de honorários que exigia. A saída de modelos é o menor dos problemas que John Mehas, CEO da Victoria’s Secret desde janeiro de 2019, tem para enfrentar.

A par com o envolvimento do CEO da empresa dona da marca, Leslie Wexner, com o seu ex-gestor financeiro e predador sexual, John Mehas tem entre mãos questões de gestão. A atual queda das vendas (em 2018 já tinha sido de 3%) e os acionistas a exigirem crescimento e adequação da marca à era da beleza inclusiva são duas realidades das quais não tem como fugir. As asas de cera, derretidas pelo calor do sol, fizeram Ícaro morrer no mar Egeu quando tentava fugir de Creta. As da Victoria´s Secret também não são salvação, porque estão cristalizadas no tempo.

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