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Sharon Tate viveu (feliz) para sempre

A ficção terá sempre o dom de criar acima da realidade. A subtil justiça de Tarantino à família Tate-Polanski

Era uma vez lá para os lados de Hollywood uma atriz que foi morta por um grupo de seguidores de Charles Manson, chamava-se Sharon e tinha 26 anos. Dos episódios históricos do século XX que mais me provoca náusea e desconsolo.

Sharon Tate não é da minha geração, já não faz parte da caderneta de cromos que eu deveria completar, quando ouvi falar de Tate pela primeira vez já ela tinha morrido há algumas décadas, mas o seu homicídio sempre me intrigou. Nutri uma pequena repulsa pelos membros da seita que lhe tiraram a vida, a forma violenta como foi morta deixa-me honestamente triste pela admiração que fui alimentando através dos seus filmes e fotografias. Posso chamar-lhe empatia, partilha de um sofrimento que não é meu, mas que foi certamente da família e da indústria cinematográfica. Não paro de pensar em Sharon desde esta quarta, depois da projeção do “Once Upon a time in…Hollywood”.

Sharon Tate em “Eye of the Devil” (1967)

Sharon Tate em “Eye of the Devil” (1967)

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Nascida em Dallas, com parte da infância vivida em Itália, foi uma das atrizes mais encantadoras que a década de 60 conheceu. Dona de uma beleza infindável, venceu alguns concursos de beleza ainda em criança, iniciando a carreira de modelo antes de trabalhar como atriz. Começou com pequenos papéis em séries de TV como “The Beverly Hillbillies”, mas foi no filme “Eye of the Devil” que teve um papel com maior textura, que a atirou para o estrelato. Foi várias vezes acusada pela crítica de ser extremamente bonita, com traços inigualáveis, mas muitas vezes pouco expressiva.

Não é isso que vemos em “The Wrecking Crew”, de 1968, filme escolhido por Tarantino para integrar o seu último filme, nas cenas em que Sharon Tate, interpretada por Margot Robbie, assiste ao seu desempenho na sala de cinema. Tate dá-nos a personagem da menina trapalhona, mas cheia de humor e o charme do costume, tinha o poder de nos deixar pávidos com o seu rosto iluminado e olhos brilhantes. Cresci a tê-la como ídolo, enquadrei-a no grupo de atrizes que me inspiravam, tanto que me lembro de ter um recorte dela colado no caderno do décimo ano que usava para a disciplina de História da Arte.

Em “Once Upon a time in…Hollywood”, Tarantino decidiu dar-nos parte da história de Sharon Tate e do seu marido Polanski. Porquê estas duas personalidades? Na minha inocência digo-o que o fez por justiça. Não, não somos sufocados com a biografia do casal, recebemos apenas alguns detalhes sobre as suas vidas, e somos até quase que assustados com a presença de Charles Manson, interpretado por Damon Herriman, que curiosamente também é Manson em “Mindhunter” da Netflix, quando este se aproxima da sua casa. O que é reconfortante neste filme é o cruzar da realidade com a ficção, que me ofereceu uma sensação de alívio e de doce vingança.

Tate, grávida de nove meses, foi morta no verão de 1969 por quatro membros da família Manson. Tex, nome de um dos autores do seu assassinato, é também personagem nesta ficção de Tarantino: vemo-lo em várias cenas a cavalgar com expressões desafiadoras onde se revela um valente provocador. Tex da vida real continua vivo e preso na Califórnia, livrou-se da pena de morte que lhe foi atribuída na época devido à mudança de lei no estado. Tex da ficção não teve a mesma sorte, e antes que pudesse enganar-se no portão e encaminhar a sua trupe para a casa dos Polanski, Tarantino oferece-lhes antes uma entrada para a casa dos vizinhos mais épicos do bairro, com direito a uma tareia (por mim) tão desejada na história do cinema.

Sharon Tate foi salva em “Era uma vez…”. Sem saber, em cena pós-apocalíptica, convida o seu herói para entrar em sua casa, numa cena que chega a ser comovente e afirmativa de uma nova esperança. A justiça a ser feita em grande pelas mãos de um realizador que não há muito tempo, também na ficção, deu uma valente tareia aos Nazis. Um filme que a meu ver prima por uma qualquer justiça, que é carta de amor a Hollywood com declarações de paixão à época dourada dos Westerns que já nos parecem longe demais. Para mim, o mais importante desta obra? Sharon Tate salvou-se, Sharon Tate viveu para sempre.

Margot Robbie, atriz que interpreta Sharon Tate em “Once Upon a Time... in Hollywood” (2019)

Margot Robbie, atriz que interpreta Sharon Tate em “Once Upon a Time... in Hollywood” (2019)

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