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Vida Extra

O filme ‘Cocktail’ está de volta. Mas não como imagina

No 'Sem Preço' desta semana, Catarina Nunes escreve sobre um filme que foi considerado o pior de Tom Cruise. Mas, para o caso, isso pouco importa

O bar Monkey Mash resgata o ambiente exótico do filme ‘Cocktail’

Jorge Simão

O argumentista do filme ‘Cocktail’, Heywood Gould, anunciou na revista ‘Esquire’, em janeiro, que está a trabalhar numa sequela do filme que, em 1988, pôs o mundo fascinado com os malabarismos com garrafas que Tom Cruise fazia atrás do balcão de um bar. Neste regresso (e nesta crónica), importa pouco que o filme tenha sido considerado um dos piores de sempre e o pior de Tom Cruise.

O enredo da primeira versão do ‘Cocktail’ começa em Nova Iorque e desloca-se depois para a Jamaica, para as praias paradisíacas desta ilha. É o ambiente quente de um bar de praia e os cocktails tropicais que o Monkey Mash resgata no antigo espaço do Fontória, também resgatado do seu passado mais sombrio. A cave localizada na Praça da Alegria, já a descer para a avenida da Liberdade, em Lisboa, é hoje um lugar onde a descontração do verão inspira cocktails, nos quais interessa mais a qualidade das bebidas e a sofisticação das preparações do que os dotes de malabarismo do barman.

Emanuel Minez e Paulo Gomes estão por trás do bar Monkey Mash e do seu ‘irmão’ mais velho, o Red Frog

Emanuel Minez e Paulo Gomes estão por trás do bar Monkey Mash e do seu ‘irmão’ mais velho, o Red Frog

jorge Simão

Para quem já tinha idade para beber bebidas alcoólicas nas décadas de 80 e 90, esta atmosfera remete para a onda de bares que, nesta época, trouxe para Lisboa o imaginário das ilhas da Polinésia. Na avenida Almirante Reis, os históricos Tangaroa e Bora-Bora (mais tarde abriu outro bar com esta denominação na rua da Madalena) faziam viajar no espaço e nas sensações, através da decoração exótica e dos cocktails esfumaçantes, servidos em recipientes com misteriosas máscaras tribais e enfeitados com sombrinhas e palhinhas coloridas.

No segundo bar de Paulo Gomes e Emanuel Minez (o primeiro foi o Red Frog, na rua do Salitre), as referências vêm também de geografias longínquas e são concretizadas num mural com macacos e vegetações pintados em cores vibrantes, pelo artista AKA Korleone, que materializa a denominação Monkey Mash. De trás do balcão saem misturas que têm como base os destilados de cana (rum e cachaça) e de agave (tequila e mezcal). É pelo rum que arranca a minha degustação, avisando de antemão que não sou apreciadora de cocktails, mas curiosa por desvendar os mistérios que se encerram dentro de um copo e que elevam o álcool à categoria de experiência dos sentidos.

Um mural do artista AKA Corleone ocupa uma das paredes do Monkey Mas, num ambiente tropical onde predominam as cores quentes

Um mural do artista AKA Corleone ocupa uma das paredes do Monkey Mas, num ambiente tropical onde predominam as cores quentes

Jorge Simão

O clássico Corn’n’Oil faz as honras da casa numa versão reinterpretada, com o milho transformado em pipocas, que são apresentadas num mini-cone pendurado no copo. Esta mistura, que leva também óleo de coco e casca de lima, integra a lista de cocktails ‘frescos e cítricos’, mas a mim sabe-me demasiado doce em relação ao esperado. Dizem-me que tenho um paladar sour, a família de cocktails mais azedos. De facto é o sabor adocicado que me faz evitar os cocktails.

O teste prossegue e apresentam-me uma combinação da categoria de ‘perigosos e quentes’. Com o East South Side continuo no rum (desta vez misturado com gin), mas o risco deste cocktail tem a ver com a guarnição que é suposto comer. A flor de szechuan (pimenta chinesa), que promete criar uma forte dormência na boca, mas que comigo fica-se por um ligeiro formigueiro. Por esta altura, o barman de serviço faz o derradeiro teste ao meu paladar e sentidos, com o Rip This Joint: rum artesanal produzido no Haiti, com semente de baobad misturada com leite de coco, curd de maracujá e caja.

O cocktail East South Side, à base de rum e gin, leva flor de szechuan, a pimenta chinesa que promete criar uma forte dormência na boca

O cocktail East South Side, à base de rum e gin, leva flor de szechuan, a pimenta chinesa que promete criar uma forte dormência na boca

Jorge Simão

Esta combinação surpreende por ser guarnecida com a polpa desidratada dos desperdícios produzidos com a elaboração do próprio cocktail. A sustentabilidade é, aliás, uma preocupação de Paulo Gomes e Emanuel Minez, a par com a qualidade das bebidas que estão na base das misturas, utilizando apenas as referências topo de gama das principais empresas distribuidoras com os quais trabalham: Diageo, Bacardi e Global Drinks. Uma exigência que talvez tenha contribuído para que, ao fim de três meses de existência, o Monkey Mash tenha sido distinguido com o Prémio de Melhor Abertura em 2019, na Península Ibérica, atribuído em julho nos Coaster Awards, em Barcelona.

Prémios é algo novo por aqui, mas que já é familiar no Red Frog, o primeiro bar da dupla Paulo Gomes/Emanuel Minez, que só no Lisbon Bar Show 2019 foi consagrado o melhor em três categorias: Carta de Bar, Equipa de Bar e Bar. A curiosidade leva-me a querer conhecer o espaço que se tornou conhecido não só por recriar o ambiente dos anos 1920 e 1930, como pelas longas filas de espera à porta. Esta é precisamente a razão que leva ao nascimento do Monkey Mash, a poucos metros de distância, enquanto destino alternativo quando o espaço do Red Frog tem todas as mesas ocupadas.

O Red Frog tornou-se conhecido não só por recriar o ambiente dos anos 1920 e 1930 como pelas longas filas de espera à porta

O Red Frog tornou-se conhecido não só por recriar o ambiente dos anos 1920 e 1930 como pelas longas filas de espera à porta

No Red Frog, que funciona à porta fechada, a experiência começa com um toque de campainha e a descida de uma escada sinuosa, até ao lugar onde no passado decorriam sessões de striptease (também como no Monkey Mash). Hoje, espera-nos um ambiente de média luz, pontuado com sapos vermelhos em loiça das Caldas da Rainha. O mais surpreendente é um espaço escondido, atrás de uma estante deslizante localizada ao fundo da sala, que é um revisitar da época em que o consumo de bebidas alcoólicas tinha de ser feito na clandestinidade, devido à Lei Seca.

Se no Monkey Mash a regra é fazer macacadas, aqui o tom é de speakeasy (fale baixo), o mesmo que era obrigatório quando o álcool era proibido, para evitar visitas das indesejadas autoridades. Neste bar que se assume como mais exclusivo, a exigência na qualidade das bebidas sobe bastantes degraus, o que leva Paulo Gomes a fazer um paralelismo com os conceitos de restauração de José Avillez, dizendo que o Red Frog é um Belcanto e o Monkey Mash é um Mini Bar. Uma garrafa de Pierre Fernand, um dos conhaques mais premiados de sempre (€180 uma dose de 50ml) e outra de Macallan nº4, considerado o Rolls Royce dos uísques (€45/50ml) são duas das preciosidades servidas.

O impacto maior do Mazagran Martini é o aspeto totalmente transparente, com o gosto dos seus componentes (uísque e café) suavizado

O impacto maior do Mazagran Martini é o aspeto totalmente transparente, com o gosto dos seus componentes (uísque e café) suavizado

Jorge Simão

Perante a minha declaração, taxativa, que não gosto nem de conhaque nem de uísque fui desafiada a experimentar o Mazagran Martini, uma base de Jameson Black Barrel com casca de café e óleo citrino. O impacto maior foi menos com o sabor e mais com o aspeto: um líquido totalmente transparente, igual a água, com o gosto dos seus componentes suavizado. A forma como este milagre é conseguido, isso, fica nos segredos de Paulo e Emanuel.

Saio desta maratona de misturas reconciliada com os cocktails, pelos seus mistérios e complexidades. O valor de algo pode não residir no prazer individual que proporciona, mas na singularidade da sua composição, que não tem preço. Tal como alguns segredos.

Monkey Mash

Praça da Alegria, 66B Lisboa
Preço médio por cocktail: €9,5

Red Frog Speakeasy

Rua do Salitre, 5ª Lisboa
Preço médio por cocktail: €12

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