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ANIMA, o cinema que não nos deixa dormir

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Thom Yorke em “ANIMA” (2019)

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Escrever sobre insónias é algo que me apetece fazer com frequência. É-me fácil devido à regular convivência que costumo ter com as mesmas. As insónias têm coisas boas, as insónias não são só pesadelos vivos. É desconfortável não conseguir dormir, mas o que se pode fazer nessas horas extensas, também pode vir a ser do nosso proveito.

Em noite de pouco sono, chegou finalmente até mim esta semana a última curta-metragem do imbatível Paul Thomas Anderson, co-criada com magnifico Thom Yorke — ANIMA.

Não, ANIMA não é o videoclipe das composições de Yorke, ANIMA, que também dá titulo ao seu mais recente álbum, é um belíssimo filme que resulta obviamente do trabalho de equipa, de duas cabeças que vertem genialidade. Um filme belo, surreal, cheio de bom gosto, que curiosamente nos empurra para o universo do sono, ou talvez para a falta dele: abençoada insónia a dessa noite, é o que vos digo.

“ANIMA” (2019), curta-metragem de Paul Thomas Anderson

“ANIMA” (2019), curta-metragem de Paul Thomas Anderson

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O psiquiatra Carl Jung, no século XX, escreveu-nos sobre o conceito Anima: representação das tendências psicológicas femininas no inconsciente masculino. Ora, uma curta que é uma construção de duas cabeças no masculino, que nos criam uma ode sobre o sonho. Planos frenéticos e deliciosos sobre o surrealismo que o universo do sono pode ser.

Somos sempre surpreendidos com a elegante forma que Thomas Anderson tem de realizar, mas os temas que o seduzem a filmar são também aquilo que nos seduz nele: é um requinte intelectual sem pretensiosismo, mas que está em constante fuga do básico. Um realizador que prima autores como Thomas Pynchon, conhecido pelos seus livros extensos, ricos nas construções da psicologia das suas personagens (que podem ir até às centenas), é claramente um realizador que gosta de desafios, (e que muito provavelmente, pouco deve dormir).

Nunca vi o senhor Anderson tão experimental, por momentos senti-me capaz de afirmar que alguém foi matar a sede (e bem) ao senhor Lynch. Um grupo de bailarinos dançam-nos de início ao fim no ecrã, e somos quase hipnotizados pelos ângulos menos comuns da câmara, que se ligam perfeitamente com a música inquietante.

Seja ou não em noite de insónia, aconselho-vos vivamente a saborear ANIMA, mas depois não se queixem que não conseguem dormir porque querem divagar sobre a vossa Anima ou Animus .

Ciclos de sonos bem cumpridos não é coisa de millennial. Para Paul Thomas Andersen e Thom Yorke também parece que não.

Thom Yorke em “ANIMA” (2019)

Thom Yorke em “ANIMA” (2019)

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