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Vida Extra

Carta sobre o festival

Uma aldeia que é uma festa, que é ponto de encontro, que é palco, que é festival. Uma carta que nos revela mais um episódio da vida da cronista Mia Tomé

Caríssimos leitores, tenho uma coisa para vos contar: estou num festival a ver concertos (outra vez). Eu sei, têm sido muitos, já me avisaram que a música nos pode deixar assim, viciados, dependentes, adictos, mas o que é que eu posso fazer? Desta vez não dava mesmo para faltar. Teria sido demasiado angustiante perder o concerto do Benjamim, que partilhou o palco com os seus bestiais músicos: o Pir, a Joana Espadinha, a Margarida Campelo. Perder os X-Wife, que assim que começam lembram-nos logo porque é que gostamos deles! Ou o concerto de Diabo na Cruz, que possivelmente foi o último que vi desta banda que anunciou recentemente a sua última tournée — e que concerto! Sabem aquele calor de agosto de que só sentimos saudades em fevereiro, porque já nos esquecemos de como é chato e abafado? Esse mesmo calor, brindado com uma subtil mas existente chuva, enquanto grandes batidas e guitarradas nos chegavam do palco.

É isso mesmo, escrevo-vos de Cem Soldos: podia mentir-vos para dar mais intensidade a esta crónica e dizer-vos que estou dentro de uma tenda cheia de calor, com 10% de bateria no computador, sem saber ao certo se vou conseguir entregar este texto a tempo, ou se alguma vez vocês o vão conseguir ler, mas não. Estou na Tonita, local nobre e acolhedor, desta aldeia que nos recebe de braços abertos, para vivermos o festival da forma mais bonita possível. Há caracóis, bifanas, pão com chouriço e ainda tive a sorte de me sentar a ver a banda filarmónica, ao fim do dia, como se a música fosse sinónimo de um por do sol que se esbatia num mural da Mariana Miserável.

Está tudo bem por aqui, na verdade sinto que não poderia estar melhor. Há sol, jogos, bebidas imperdíveis que matam a sede e gargalhadas de famílias como banda sonora da tarde. Tenho o meu copo reutilizável que me deram à entrada e estamos todos no mesmo espírito, de que queremos muito cuidar do nosso planeta.

Entretanto senti que ia sentir vontade de relacionar um filme qualquer com tudo isto, mas não foi necessário, porque aqui o filme acontece em cada olhar atento que deitamos, e fui presenteada com todo um momento John Ford de Cem Soldos, que ainda sem ação empolgante, me fez acreditar que era possível ser mesmo um. Ao longe, num parque de estacionamento que me oferecia vista alargada para os montes vizinhos, um homem parado conversava frente a frente com uma mulher, ele de chapéu de cowboy, ela com uma bata florida. O céu, esse, estava violento (palavras do meu amigo Sebastião, que sem querer partilhou o momento comigo). Não, não tirei fotografia para vos mostrar as cores, o céu e a moldura que rodeava aqueles dois seres. Por aqui ando a tentar usar a memória que não grita que está cheia quando fotografo com o olhar.

Espero-vos bem, adoráveis leitores, despeço-me com um abraço que tenho a minha boleia à espera para a próxima leva de roque enrole.

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