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Vida Extra

Da Lousã a Arganil pelos troços do Rali

Uma aventura fora de estrada pelas pistas serranas por onde o Rali de Portugal voltou a passar na edição deste ano, ao volante do Opel Mokka X

Foram precisos 18 anos para o Rali de Portugal voltar a alguns dos locais que o tornaram famoso em todo o mundo. Foi o caso, nesta edição de 2019, da Lousã, Góis e Arganil. Escusado será dizer que uma coisa é estar ver os melhores pilotos do mundo, outra é passar lá de carro.

E foi precisamente isso que fiz num destes fins-de-semana ao volante do SUV pequeno da Opel, o Mokka X. É um modelo que pouco vendera em Portugal devido a pagar Classe 2 nas portagens, e que, reclassificado em Classe 1 nos termos das alterações de Dezembro do ano passado, começou a revelar algum do seu potencial de venda.

A ronda da Lousã, disputada no primeiro dia do Rali, incluía duas passagens (de manhã e à tarde) pelos três referidos troços: Lousã, Góis e Arganil. Destes, apenas o de Góis corresponde, grosso modo, ao traçado antigo, ainda que feito no sentido Colmeal-Góis. O da Lousã é completamente diferente e o de Arganil é uma versão encurtada do troço dos velhos tempos e com um piso muito melhorado, disputado de Benfeita para Alqueve, às portas de Arganil.

Limpeza sem mácula

Em todos estes casos se utilizaram estradões florestais onde, pelo que foi possível constatar, após a passagem do rali houve recuperação integral dos pisos, muito especialmente nos dois primeiros quilómetros do troço de Góis onde, após a segunda passagem dos concorrentes já havia regueiras muito fundas. Num ou noutro local ficou uma leve sugestão das trajectórias seguidas pelos concorrentes mais rápidos.

Todo o lixo e estruturas provisórias foram recolhidos. E nota-se que há manutenção frequente nestes caminhos pois tanto em “Lousã” como “Arganil” havia sinais de árvores entretanto caídas e do respectivo corte e remoção.

O Opel Mokka X no troço da Lousã junto ao parque de merendas ainda relativamente limpo

O Opel Mokka X no troço da Lousã junto ao parque de merendas ainda relativamente limpo

O percurso desde Lisboa pela A1 e pela A13 até à Lousã não teve história, com o Opel Mokka X a despachar tranquilamente quilómetro atrás de quilómetro, mantendo velocidades de cruzeiro muito interessantes e fazendo consumos da ordem dos sete litros de gasóleo aos cem. Tinha deixado como primeiras impressões uma óptima posição de condução, alta e com muita visibilidade como se espera de um SUV, beneficiada por um banco francamente bem desenhado.

Verificou-se alguma falta de motor abaixo das 2000 rotações, defeito comum a boa parte dos carros a gasóleo das gerações mais recentes, o que obriga a recorrer um pouco mais à caixa manual de seis velocidades. A partir daquele limiar de rotação os 136 cv do motor 1600 turbodiesel estão de facto lá.

O antigo troço da Lousã, com a arrepiante descida final para Cacilhas através do estradão dos Serviços Florestais, foi asfaltado para facilitar a visita às aldeias de xisto (Talasnal, Casal Novo, etc), pelo que o rali já não passa lá. Em contrapartida pode servir como acesso ao novo traçado durante a prova, visto que o itinerário a seguir descrito está vedado ao público nessa altura por motivos óbvios. O novo troço do rali deriva da N236 a meia encosta e utiliza uma sucessão de estradões para descer até perto de Vilarinho na N342 (Lousã-Góis).

Para se chegar ao início do estradão usado este ano na classificativa da Lousã há que tomar a estrada desta vila para Castanheira de Pêra (N236). Uma vez passada a placa de Alfocheira tome atenção pois 4,3 km adiante surgir-lhe-á uma derivação para a esquerda a subir, em terra, com a indicação “São Lourenço”. Aqui começava esta classificativa de 12 km.

Rampas, ciclistas e corças

Inicia-se com uma subida não muito larga, que parece feita à medida dos 4 m de comprimento do Mokka X. Vai durar cerca de 3 km até uma antiga casa da Guarda Florestal, em ruínas e a pedir aproveitamento condigno. Saiba que dificilmente estará sozinho neste percurso, portanto prudência e respeito pelos outros frequentadores da serra, sejam grupos de ciclistas, sejam os cervídeos que por aqui vivem, caso de uma corça que cruzou a pista à frente do carro num elegante salto, digno de uma nova versão de “Bambi” de Walt Disney.

Da Casa da Guarda em diante a pista alarga e ganha a curva de nível, começando a ver-se a Lousã à nossa esquerda, coisa com a qual, quem aqui passou em competição não deveria estar ralado por aí além…

O traçado torna-se muito rápido depois do km 5 e do parque de merendas, começando a surgir as primeiras pedras traiçoeiras no piso. Ao km 8 tínhamos à direita o local da Zona Espectáculo 5, à qual se acedia descendo da cumeada perto de Santo António da Neve e logo depois da sua

congénere nº 6 iniciava-se uma descida alucinante de 3 km com uma interminável sucessão de ganchos no meio das árvores.

Foi aqui que após um erro de leitura do percurso derivei para a direita para uma pista mais estreita e degradada onde o Mokka X se portou com brio, permitindo-me regressar airosamente de uma rampa algo enlameada.

Por fim, o estradão nivela, começa a subir e termina nas primeiras casas da Póvoa do Fiscal, onde se situava a tomada de tempo desta especial.

Sucessão de ganchos

Nestes primeiros quilómetros em pista, o Mokka X portou-se bem, fazendo como pôde os ganchos e absorvendo na medida do possível as irregularidades do piso, enquanto eu ia dizendo para os meus botões: “saltita que nem uma batata frita…”

A ligação Lousã-Góis (N342) não é propriamente a estrada com o traçado mais agradável do mundo. Pior só a continuação desta estrada para Arganil, inspirado pela qual, algum bioquímico distinto terá inventado o dimenidrinato (habitualmente conhecido por nomes mais comuns, como Vomidrine).

Para chegar ao local onde se iniciava o troço de Góis é obrigatório, à entrada vila, passar a ponte medieval sobre o rio Ceira, local ideal para uns momentos de repouso ou uma fotografia.

Neste caso, e passe o pleonasmo, a tradição ainda é o que era. O troço de Góis é basicamente o dos velhos tempos, ainda que feito em sentido contrário ao de finais dos anos 90. O ponto de referência continua a ser o quartel dos bombeiros, devendo-se virar à direita na rotunda à vista deste para Cortecegas, Colmeal, Cadafaz e um sem número de outras povoações. Ao fim de 2 km de subida por asfalto, uma derivação para terra bem visível à esquerda marca o começo de “Góis”.

Um inferno de pó

É uma pista muito bonita que vai subir para a cumeada e depois acompanhá-la durante muitos quilómetros com vistas a condizer com a altitude, embora prejudicadas pelos incêndios de há dois anos.

Era a espinha dorsal de um passeio TT dos velhos tempos a que costumávamos chamar “Lousã-Serra da Estrela” pois permitia fazer isso mesmo, quase sempre pelas cumeadas, passando pelo Trevim, Santo António da Neve, aldeia da Pena, vértice geodésico da Gatucha (altitude

936 m), Selada das Eiras, Fraga da Pena, Piódão, Vide e Lagoa Comprida (110 km ao todo).

O início do troço (correspondente ao antigo final) é uma subida, por vezes larga, mas acentuada e sinuosa, que assim se manterá durante 2,5 km. O piso foi recuperado e o que mais impressiona nesta época de Verão é o pó: espesso, castanho e com consistência de talco que permanece longos minutos no ar e parece ter artes de se infiltrar por todas as borrachas e juntas do carro.

E aqui o Mokka X, não sendo um carro de ralis nem um SUV muito potente, cumpriu com distinção. Ainda que não passando da segunda velocidade amarinhou pela rampa acima, por vezes com as ajudas electrónicas a fazerem ouvir o seu desagrado. Para um 4x2, a tracção revelou-se irrepreensível e, embora escorregando bastante, deixou-me sempre controlar as trajectórias. Imagine-se o que terá sido a passagem dos carros mais potentes por aqui…

Atingida a cumeada, surgem os primeiros vestígios de bosques e da cobertura florestal antiga mas não muito mais que isso após décadas de incêndios. A pista alarga e torna-se muito rápida, assim se mantendo durante os 2 km seguintes. À passagem por um tanque de reabastecimento das aeronaves de combate aos incêndios (DFCJ 19) reconhece-se à direita a localização da Zona Espectáculo 7.

Sempre pela cumeada

Segue-se nova e forte subida, primeiro para uma torre de vigia dos fogos (que se apresentava devidamente guarnecida na altura da minha passagem) e logo depois para o marco geodésico de Capinhas (altitude 703 m).

Como tudo o que sobe normalmente desce, passa-se para uma acentuada e panorâmica descida que aponta a uma clareira arborizada com múltiplas derivações de pistas. É um local muito bonito, invariavelmente utilizado para os piqueniques no dito Lousã-Serra da Estrela. Aqui se situava a Zona Espectáculo 9, acessível por Celavisa, Pracerias e Adcasal.

Acessível é como quem diz, pois no dia da prova a afluência de veículos e a falta de policiamento transformaram a estreita estrada para Adcasal num parque de estacionamento anárquico 2 km antes da última daquelas aldeias, quer pelo caminho normal, quer pelo reservado aos jornalistas…

A caminho do Colmeal

Neste ponto a pista, da qual se cumpriram já 11,5 dos seus 19 km, deriva para a direita e segue pela curva de nível, começando a aproximar-se do Colmeal. A partir de Sobral o estradão começará a descer fortemente. Aqui se situava a zona espectáculo 10. Uma casa tradicional em xisto decorada com um azulejo e a reprodução de um poema sobre as belezas serranas apresentava-se, por via das dúvidas, protegida por barreiras de pneus velhos. A tomada de tempo já só estava a 3 km.

De regresso ao asfalto e atravessado o Colmeal sobe-se para a cumeada, direcção Cepos e depois Fraga da Pena e Benfeita. O início desta nova versão da classificativa de Arganil encontra-se junto à famosa Casa do PPD, uma ruína com pinturas de campanhas eleitorais doutros tempos, agora restaurada com o apoio da Câmara e do ACP.

Saltos, descidas e curvas

São 14 km na direcção de Alqueve, uma versão mais curta do troço dos velhos tempos, não passando em locais lendários como o cruzamento da Selada das Eiras. Logo aos 800 m uma lomba meio escondida pôs à prova a eficácia das suspensões do Mokka X. Findos os primeiros 2 km a pista começa a descer e a enrolar, fazendo sucessivas voltas à serra, na direcção da grande zona espectáculo desta classificativa, a nº 11, perto de Esculca e Pai das Donas.

Conforme escrevi na altura nas crónicas na Tribuna, tinha aqui estado com o meu camarada de trabalho João Garcia no primeiro dia do rali. E agora, chegado pelo troço, tive duas revelações.

A primeira foi deslindar a razão pela qual avistávamos os carros ao longe a descer mas estes demoravam tanto tempo a aparecer ao pé de nós: são quase 4 km sempre às voltinhas. Nesta parte com muita “mão-de-obra” o Mokka X surpreendeu pela positiva, escorregando de curva para curva no piso empoeirado mas sempre no limite do controlável.

A segunda foi o que se poderia chamar factor “antes e depois”. No dia 1 de Junho havia nesta Zona Espectáculo (ZE) milhares de pessoas, barracas de cervejas, tendas, chapéus-de-sol e uma algazarra infernal. Agora, no mesmo sítio, o vazio e o silêncio absoluto, dignos de um filme sobre uma tragédia pós apocalíptica.

Após dois ganchos pronunciados que atravessavam a ZE, segue-se uma subida fortíssima ao longo de 2 km que termina num apertado gancho à direita. Este assinala o início de uma descida sinuosa e muito escorregadia de 2 km, sempre com o precipício do lado direito, até à tomada de tempo em Alqueve, já perto de Arganil.

Passou a haver barreiras nas laterais das curvas mais perigosas e o piso é muito melhor que o do troço onde noutros tempos brilharam Markku Alen, Toivonen ou Michéle Mouton mas, para os pilotos e navegadores mais antigos com quem troquei impressões, o que se ganhou em rapidez perdeu-se em emoção.

Estava feito o circuito das classificativas da serra e confirmado que o Opel Mokka X está ali para as curvas, literalmente falando. No regresso a Lisboa o consumo acabou por estabilizar à volta dos seis litros e meio. Quanto a custo, a versão ensaiada (1.6 CDTI Innovation) fica pelos € 31250.