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Os relógios de luxo usados são um negócio de milhões

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o crescimento da compra e venda de relógios de luxo usados e como a Boutique dos Relógios acompanha a tendência

Além de um expositor dedicado à venda de relógios que já tiveram um dono anterior, a loja da avenida da Liberdade (a que tem à entrada uma instalação de Joana Vasconcelos) tem também um serviço de avaliação e compra de relógios de particulares

D.R.

A crónica desta semana não é sobre casas de penhores ou relojoarias tradicionais que compram relógios usados. Mas elas são os primórdios daquele que é atualmente um negócio crescente e que se sofistica: a compra e venda, em lojas físicas e em plataformas digitais, de relógios de luxo que já tiveram dono. São os modelos pre-owned, a terminologia adotada para os distinguir dos relógios estacionados num canto das montras das relojoarias antigas, a par com o ouro em segunda mão.

A consultora de marcas de luxo Bain&Company estima que o mercado mundial de relógios usados valha cerca de 17 mil milhões de dólares (€15,4 mil milhões) e que poderá chegar aos 50 mil milhões de dólares (€45,2 mil milhões) nos próximos 10 anos. Este negócio tem por base as marcas de luxo suíças, as mais valorizadas e procuradas (sejam os modelos pre-owned ou os novos) e que, por isto, alimentam este novo mercado, que tudo indica que venha a superar o dos relógios novos. É só fazer as contas.

Na loja da avenida da Liberdade, os clientes são encaminhados para os serviços de relógios usados, no primeiro andar. Os restantes cinco pontos de venda Boutique dos Relógios Plus têm apenas o negócio de avaliação e compra de relógios de particulares

Na loja da avenida da Liberdade, os clientes são encaminhados para os serviços de relógios usados, no primeiro andar. Os restantes cinco pontos de venda Boutique dos Relógios Plus têm apenas o negócio de avaliação e compra de relógios de particulares

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A exportação de relógios suiços, em 2018, representa 21,2 mil milhões de francos suiços (€19,3 mil milhões), segundo os dados da Federação da Indústria Relojoeira Suiça, e é um valor não muito distante das projeções para o negócio dos usados. Mais. A indústria suiça de relógios de luxo vem de um longo período de quebra nas exportações e dá sinais de uma tímida recuperação: o primeiro semestre de 2019 representa um crescimento de 1,4% face ao mesmo período em 2018, para um total de 10,7 mil milhões de francos suiços (€9,7 mil milhões), de acordo com a federação do sector.

Estes números (preços de exportação sem taxas nem impostos, que aumentam o preço final de venda), mais as estimativas da Bain &Company indiciam, numa leitura simplista, que os consumidores estão a preferir cada vez mais os relógios pre-owned em detrimento dos novos, num contexto em que os telemóveis os substituem na função de ver as horas. A procura de modelos vintage em marcas de luxo, aliás, há muito que se faz sentir a nível mundial. Nos relógios em Portugal não é diferente e a Boutique dos Relógios Plus é a primeira cadeia nacional a posicionar-se, com dois novos serviços neste segmento.

Além de um expositor dedicado à venda de relógios que já tiveram um dono anterior, a loja da avenida da Liberdade (a que tem à entrada uma instalação de Joana Vasconcelos) tem também um serviço de trade-in, avaliação e compra de relógios de particulares, cujo valor é abatido na aquisição de um relógio novo (ou pre-owned) ou convertido num vale de compras. Nesta loja, os dois serviços estão concentrados no primeiro andar, enquanto os restantes cinco pontos de venda Boutique dos Relógios Plus têm apenas um balcão para o negócio de trade-in.

Um Audemars Piguet Royal Oak, de 2012, é um dos modelos já vendidos (€18.500) entre o portefólio de 30 relógios usados com o qual a Boutique dos Relógios Plus arranca

Um Audemars Piguet Royal Oak, de 2012, é um dos modelos já vendidos (€18.500) entre o portefólio de 30 relógios usados com o qual a Boutique dos Relógios Plus arranca

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David Kolinski, administrador da Tempus (empresa que detém a cadeia Boutique dos Relógios), tem estes dois serviços a funcionar há cerca de um mês e refere um Audemars Piguet Royal Oak, de 2012, como um dos modelos vendidos entre o portefólio de 30 relógios com o qual arranca. O stock inicial é o resultado do trabalho de curadoria de um especialista nos Estados Unidos, que seleciona os melhores relógios aqui apresentados. Os critérios seguidos, além do estado de conservação, são o nível de valorização e raridade da peça, bem como a procura. Aspetos que tornam este mercado dinâmico, variando em função destes fatores.

Kolinski reconhece que pode haver canibalização dos modelos novos, com os clientes que pagariam a pronto a passarem a amortizar o relógio que entregam, mas acredita que isto possa fazer subir o valor médio de cada compra, tendo em conta que o cliente fica com a sensação de que pode gastar mais, por contar à partida com o valor abatido com o relógio que entrega. Em termos de redução de preço de um usado face à versão nova, o responsável da Tempus que isso depende do modelo, mas é de 10%.

Um Omega Speedmaster de 1969, que vale entre €4500 e €18 mil (custava 185 dolares/€168 quando foi lançado) integra a gama de pre-owned

Um Omega Speedmaster de 1969, que vale entre €4500 e €18 mil (custava 185 dolares/€168 quando foi lançado) integra a gama de pre-owned

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Além do Royal Oak (vendido por €18500 e avaliado entre €21 mil e €35 mil), o portefólio de pre-owned da Boutique dos Relógios Plus inclui alguns dos modelos mais valorizados e procurados. Um Omega Speedmaster de 1969, que vale entre €4500 e €18 mil (custava 185 dolares/€168 quando foi lançado) e um Rolex Pepsi (a luneta bicolor tem o azul e o vermelho da Pepsi), dos anos 80, que pode custar entre €9500 e €32 mil, são duas preciosidades. Fora da oferta da Boutique dos Relógios está, por enquanto, o Patek Phillippe Nautilus, que no mercado de usados é considerado a ‘Birkin dos cronógrafos’, num paralelismo com o modelo de mala da Hermès mais valorizado em leilões.

Este relógio distingue-se pelo fundo azul do mostrador (que o torna inconfundível) e os valores estratosféricos que atinge quando vai a licitação, em particular desde 2016, data dos seus 40 anos. É neste ano que atinge, na Christie’s, a barreira psicológica dos 25 mil dólares (€22.500), mas é em 2018 que alcança o valor mais alto de sempre nesta leiloeira: 50 mil dólares (€45.200). Os especialistas acreditam que o Nautilus continuará a subir rapidamente, num fenómeno semelhante ao Rolex Daytona, o relógio de culto que facilmente ultrapassa as estimativas de preço em leilões.

Um Rolex Pepsi (a luneta bicolor tem o azul e o vermelho da Pepsi), dos anos 80, está avaliado entre €9500 e €32 mil

Um Rolex Pepsi (a luneta bicolor tem o azul e o vermelho da Pepsi), dos anos 80, está avaliado entre €9500 e €32 mil

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Para já, a Boutique dos Relógios Plus vai manter os relógios usados nas lojas físicas, à semelhança do modelo de negócio da Tourneau, a icónica (e centenária) relojoaria de Nova Iorque, que lhe serve de referência. No futuro, porém, este canal de venda não está excluído. O online é onde prolifera a transação de relógios usados, pela possibilidade de as várias plataformas de marketplace poderem intermediar potenciais compradores e vendedores, sem a necessidade de acumular stock. O negócio digital é tão apetecível que o terceiro maior grupo de luxo do mundo, o Richemont, adquiriu no início do ano a Watchfinder (por 325 milhões de dólares/€293 milhões), que é uma das mais reconhecidas plataformas de relógios usados.

O grupo focado em joias e relógios de luxo (detém a Vacheron Constantin, a Jaeger-LeCoultre e a Panerai, entre outras) encontra nesta compra uma forma de escoar stock e de gerir a base de clientes. Uma motivação que é comum a David Kolinski, cuja empresa que gere controla não só a rede de retalho Boutique dos Relógios como representa e distribui em Portugal algumas das principais marcas de relojoaria de luxo, como a Omega e a Audemars Piguet, por exemplo. Isto, no entanto, não exclui a transação de relógios usados de marcas fora do seu portefólio

O Patek Phillippe Nautilus, que no mercado de usados é considerado a ‘Birkin dos cronógrafos’ (num paralelismo com o modelo de mala da Hermès mais valorizado) já foi leiloado por €45.200

O Patek Phillippe Nautilus, que no mercado de usados é considerado a ‘Birkin dos cronógrafos’ (num paralelismo com o modelo de mala da Hermès mais valorizado) já foi leiloado por €45.200

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Mais recentemente, no final de julho, a fusão da Mondiamo (comércio eletrónico de joias com diamantes usadas) com a Circa (cadeia de lojas de joias e relógios vintage) reflete o caminho de consolidação entre o universo digital e o retalho físico, bem como o reforço da aproximação dos relógios às joias usadas. A motivação neste negócio é explorar o mercado de relógios e joias que ainda estão nas mãos dos consumidores, em boas condições e pouco usados, que está avaliado em cerca de 1 bilião de dólares (€901 mil milhões). As joias nestas condições também são bem- vindas na Boutique dos Relógios Plus, mas David Kolinski revela que até agora não há nenhum negócio fechado, apesar de aparecerem algumas peças de joalharia.

O reforço da credibilidade de quem opera no comércio eletrónico é mais uma das tendências. A Chronos24, outra das plataformas com mais notoriedade, é desde julho a proprietária da Zeitauktion, empresa alemã que negoceia relógios usados e que é um centro de serviços autorizado da Omega, Rado, Longines, IWC e Cartier. As questões de autenticidade e idoneidade das peças transacionadas são os aspetos que ainda criam barreiras aos consumidores, quando pensam em comprar um relógio antigo na Internet.

David Kolinski garante que os serviços que a Boutique dos Relógios disponibiliza são suportados por um trabalho de peritos em termos de autenticação e avaliação de cada relógio, para determinar o seu valor real e detetar falsificações. Em termos de relógios eventualmente roubados, os procedimentos incluem a assinatura de uma carta de quitação por parte da pessoa que está a entregar a peça, que é enviada para a polícia para fazer uma despistagem.

Só depois deste processo estar concluído (o que pode demorar cerca de um mês) é que o relógio é comercializado, com garantia de um ano.

A Omega prepara-se para comercializar em setembro uma reprodução do SpeedMaster Apollo 11, o primeiro relógio que foi à Lua no pulso de Neil Amstrong e de Buzz Aldrin e foi oferecido a Richard Nixon, presidente norte-americano na época

A Omega prepara-se para comercializar em setembro uma reprodução do SpeedMaster Apollo 11, o primeiro relógio que foi à Lua no pulso de Neil Amstrong e de Buzz Aldrin e foi oferecido a Richard Nixon, presidente norte-americano na época

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O crescimento destes formatos de transação, sejam particulares a venderem os seus relógios ou retalhistas a venderem relógios usados, é impulsionado pela vontade de diversificar aquilo que já se tem e o desejo de obter uma peça especial e rara. Desperta para este lado emocional dos relógios, a Omega prepara-se para comercializar em setembro uma reprodução do SpeedMaster Apollo 11, o primeiro relógio que foi à Lua, que celebra os 50 anos da primeira aterragem lunar.

Esta edição está limitada a 1014 unidades (a mesma quantidade produzida na edição original) e cada réplica oficial do relógio dos astronautas da Apollo11, que também foi oferecido a Richard Nixon, presidente norte-americano na época, custa €33.360. David Kolinski revela que apesar de ainda não ter sido lançado, o relógio que foi à Lua no pulso de Neil Amstrong e de Buzz Aldrin já tem um mercado informal de consumidores disponíveis para pagarem por ele €50 mil, quase mais €17 mil do que o preço marcado. Os relógios já não servem para contar o tempo, mas para contar histórias. E o vintage é o novo símbolo de estatuto.

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