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Senhor Ford, senhor Ford, esta é para si!

A cinemateca portuguesa também é casa de Westerns, e ao ar livre! “Miallennial” entre tiroteio de filmes de John Ford

John Ford em “The Searchers”

A minha altura favorita do ano em Lisboa — a chegada das projeções ao ar livre na Cinemateca Portuguesa.

Vem julho e abrir o jornal da programação é das coisas mais deliciosas que podemos fazer: sextas e sábados, por norma, são sinónimos de cinema com céu. Uma tela no terraço, cadeiras alinhadas, algumas mesas e aquele som reconfortante das bobines a correr. É a isto que se chama ser sortudo, não é?

Há duas semanas, estava programado um filme do senhor John Ford, “The Searchers”, de 1956. Ver um Ford programado é motivo suficiente para me por a salivar, e depois é ver-me a correr para comprar um bilhete. Porquê? Bom, não fui eu quem disse, mas afincadamente concordarei, o senhor Ford foi provavelmente o maior realizador de Westerns que os nossos olhos e ouvidos olharam e ouviram. E como é verdade, aquele sentimento sôfrego de não querer perder pitada invade-me a vontade de forma exagerada, substituindo assim qualquer plano que já pudesse estar alinhado.

Sejamos honestos: já não é todos os dias que podemos ver projeções em 35mm, que honram cada frame, pensados pelos grandes mestres.

Os enredos de John Ford, elevam-nos constantemente a expectativa, somos frequentemente lançados para o cume da curiosidade, está sempre algo para acontecer, num ritmo e harmonia perfeitos. Os seus filmes dão-nos “luta”, ainda para mais no contexto atual, onde cada vez mais primamos pelo politicamente correto, e onde facilmente se lançam questões pertinentes relacionadas com o racismo ou o machismo. É importante olhar o contexto John Ford, perceber de onde chega aquele universo, conhecer os seus valores. Concordemos ou não com eles, é o ponto de vista de um autor, com uma obra claramente inigualável.

John Wayne e Maureen O'Hara em “The Quiet Man” (1952)

John Wayne e Maureen O'Hara em “The Quiet Man” (1952)

Das coisas que mais me arregalam os olhos nos seus filmes são os planos sempre certeiros, certeiros como os tiros de John Wayne em cena, que por sua vez nos encanta sistematicamente em cada papel: aquela voz seca, tão sedutora quanto altiva. É também em “The Searchers” que a certa altura somos prendados com um plano que revela luzes, projetores e toda a parte superior do cenário. Que bela fragilidade essa, se me permitirem, é claro, usar essa palavra, “fragilidade”. Quase que acredito que foi o senhor John a piscar-nos o olho: “Isto é tudo a fingir, estão a ver? É tudo uma brincadeira, somos só nós a brincar aos índios e cowboys”.

Neste filme em concreto, podia focar-me também na primorosa banda sonora de Max Steiner, e divagar sobre arranjos empolgantes que nos fazem criar outro filme sonoro na imaginação, mas não o vou fazer, porque antes de terminar, queria relembrar o “The Quiet Man”, de 1952. Não me vou alongar, mas acontece que depois de uma projeção destas, qualquer átomo adormecido em mim sobre o mundo de Ford foi acordado, obrigando-me a uma insónia histérica, que exigiu o vaguear noturno por imagens e excertos do mesmo autor. E sim, de um momento muito particular, que vem deste último titulo que vos escrevi.

John Wayne e Maureen O’Hara na rua, os dois apenas, sem mais ninguém à sua volta. Ele com o seu metro e noventa e três, ela com o seu metro e setenta, vestida de verde, bela, quase firme. Caminham como só nos filmes dos anos 50 se sabe andar e os seus olhares, tímidos, apaixonados, que insistem em estar ali, no meio de uma pré-tempestade que não é só temporal. Chega assim a chuva exagerada, como também só nos filmes sabe chegar: forte, pesada, em muita quantidade. As roupas molham-se, mas eles ficam parados, mantêm-se ali como se nem tivessem dado conta. Beijam-se, mas se puder dar uma opinião, tal beijo não era necessário, porque o que os seus olhos fizeram enquanto a chuva os molhava vale mais do que qualquer boca ou pele que alguma vez se tenham tocado. John Ford capta de forma tão poética os seus olhares, no tempo certo e suficiente para que percebamos que aqueles duas personagens vertem uma coisa chamada paixão.

Obrigada, senhor Ford, queria mesmo que esta fosse para si.

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