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É possível ter 128 anos e alma de “millennial”

O Belmond Reid’s Palace, recém-adquirido pelo grupo LVMH, mostra como um hotel de luxo rejuvenesce, mantendo a tradição, escreve a jornalista Catarina Nunes na crónica ‘Sem Preço’ desta semana

As fotografias a preto e branco na sala de entrada confirmam o legado de 128 anos, que é construído com o luxo clássico, as tradições britânicas e a estadia de personalidades que figuram nos livros de história

Tyson Sadlo

Confesso que chego à Madeira certa de que vou instalar-me num daqueles hotéis centenários e tradicionais, repletos de hóspedes na terceira idade, e preparada para os códigos intrínsecos a este contexto. A expetativa não é totalmente falhada, porque o Belmond Reid’s Palace, no Funchal, faz jus à sua história e origem inglesas, mas surpreende pela quantidade de casais jovens que aqui circulam num ambiente de informalidade.

Uma viagem de iate até às ilhas Desertas, com mordomo a bordo (o sr. Celso, um dos mais antigos no Reid’s), é uma das aventuras que o hotel proporciona, a partir de €456 por pessoa (oito pessoas) até €1.336 por pessoa (duas pessoas)

Uma viagem de iate até às ilhas Desertas, com mordomo a bordo (o sr. Celso, um dos mais antigos no Reid’s), é uma das aventuras que o hotel proporciona, a partir de €456 por pessoa (oito pessoas) até €1.336 por pessoa (duas pessoas)

Tyson Sadlo

As fotografias a preto e branco na sala de entrada, e por todo o hotel, confirmam o legado de 128 anos, que é construído com o luxo clássico, as tradições britânicas e a estadia de personalidades que figuram nos livros de história. Numa parede, uma fotografia do escritor e dramaturgo George Bernard Shaw numa aula de tango no hotel. Noutra, Winston Churchill com a mulher numa varanda, no ano que antecede a sua segunda ascensão a primeiro-ministro britânico, em 1951, durante uma temporada de recolhimento a escrever e a pintar. A presença destas duas figuras é parte do património do Reid’s e está imortalizada nas denominações das suites presidenciais.

Ciriaco Campus, diretor-geral do Belmond Reid’s Palace desde 2013, recorda a época em que aterra aqui vindo de Itália e constata que o acesso ao mais icónico hotel da ilha da Madeira, em pleno século 21, ainda está vedado a homens que se apresentam sem gravata. Chega em 2008 para assumir a direção de marketing e eventos, mas só em 2012 é abolida esta norma, que fechava o Reid’s sob rígidas regras de indumentária. De lá para cá, não só os colarinhos masculinos estão mais abertos, como o próprio hotel alivia a carga tradicional que o hall de entrada traz do passado.

A suite presidencial (há duas, a Winston Churchill e a George Benard Shaw) tem 80 metros quadrados, papel de parede pintado à mão, casa de banho em mármore e azulejos portugueses

A suite presidencial (há duas, a Winston Churchill e a George Benard Shaw) tem 80 metros quadrados, papel de parede pintado à mão, casa de banho em mármore e azulejos portugueses

Cores claras, mobiliário contemporâneo, plantas luxuriantes e muita luz natural, que entra pelas janelas da varanda sobre o mar, alinham-se com o peso das memórias fotográficas, numa receção ao novo. O descontraído e bem-disposto italiano, que há 11 anos encontra na Madeira o seu novo lar, conta que a sua tarefa começa por pôr este destino no mapa do turismo de luxo, quando Portugal está a entrar em crise. Segue-se limpar a imagem de hotel para velhos e captar famílias novas (nomeadamente na Páscoa e no verão), capitalizando os vários quartos comunicantes existentes. A abertura à população local, enquanto destino do ‘Chá das 5’ ou de refeições no restaurante William’s (com uma estrela Michelin), é o passo que traz ao hotel a ambicionada renovação da frequência.

O ‘Chá das Cinco’ (€36) é a tradição que o hotel de origem inglesa mantém e inclui mini-pastelaria e finger-sandwiches, além dos tradicionais scones e chás

O ‘Chá das Cinco’ (€36) é a tradição que o hotel de origem inglesa mantém e inclui mini-pastelaria e finger-sandwiches, além dos tradicionais scones e chás

Tyson Sadlo

Os resultados traduzem-se na nova atmosfera que se respira hoje. Os casais estrangeiros hospedados, com e sem filhos, mais alguns clientes de há décadas, combinam-se com homens de negócios instalados noutro hotel (por o Reid’s estar com a lotação esgotada) que vêm beber um copo, e com os madeirenses que degustam as propostas do chefe Luís Pestana. Francês e inglês são as línguas mais escutadas durante o pequeno-almoço junto à piscina (a par com o característico sotaque madeirense do staff), mas a China, os Estados Unidos e o Brasil estão representados em força. Ciriaco Campus garante que estes dois últimos países são os que mais crescem em termos de clientes, em particular os Estados Unidos.

A vertente internacional do Reid’s não é propriamente novidade e há muito que os estrangeiros conhecem a Madeira. Aliás, a história deste hotel começa com a chegada à ilha de um dos muitos europeus, que procuram no clima ameno a recuperação de problemas de saúde. William Reid, nascido na Escócia, voa até ao meio do oceano Atlântico aos 14 anos, por recomendação médica, e começa por trabalhar numa padaria. Aos 25 anos, vê nos vinhos uma oportunidade de negócio e cria uma empresa de importação e exportação.

O Reid’s, idealizado por William Reid, está construído sobre uma falésia rochosa e foi inaugurado em 1891

O Reid’s, idealizado por William Reid, está construído sobre uma falésia rochosa e foi inaugurado em 1891

Giacomo Albo

Casa com a inglesa Margaret Dewey, com quem desenvolve um negócio de arrendamento de casas, que é a antecâmara do Reid’s. Compra o terreno conhecido como Salto do Cavalo, uma falésia rochosa onde ergue o hotel, com o objetivo de atrair e alojar os visitantes milionários. Pôr de pé o Reid’s é uma tarefa hercúlea e exige toneladas de terra fértil para construir jardins de buganvílias, gerânios, orquídeas e palmeiras sobre o terreno rochoso. A obra é iniciada em 1887 e a inauguração dá-se quatro anos depois, a 1 de novembro de 1891.William Reid, falecido em 1888, não presencia a concretização do seu sonho.

A gestão é assumida pelos seus dois filhos, Willy e Alfred, até 1925, ano em que o Reid’s é vendido à família inglesa Blandy, dona do Vinho da Madeira, que o mantém até 1996 quando passa o negócio ao grupo Belmond, que até 2014 opera com a denominação Orient-Express Hotels. O grupo, que inclui hotéis e os míticos comboios e cruzeiros de luxo Orient-Express, integra o grupo LVMH desde maio de 2019, num negócio avaliado em €2,8 mil milhões. Ciriaco Campus ainda não tem indicações sobre o futuro, mas acredita que o grupo Belmond vai continuar autónomo, apesar de deixar de ser independente.

Ir até à Ponta do Sol num Rolls Royce com motorista (€160 por pessoa) para assistir ao pôr-do-sol é uma das atividades para os hóspedes

Ir até à Ponta do Sol num Rolls Royce com motorista (€160 por pessoa) para assistir ao pôr-do-sol é uma das atividades para os hóspedes

Tyson Sadlo

Com esta ofensiva ao Belmond, que totaliza 49 propriedades no mundo, o LVMH já tem meio caminho andado na aproximação ao turismo de luxo, que cresce impulsionado pela geração de millennials endinheirados, que prefere mais gastar dinheiro em experiências do que numa mala Louis Vuitton. Em matéria de vivências, o Reid’s não deixa a tendência por mãos alheias, dentro e fora do hotel. Do bem-estar ao lazer, incluindo experiências de aventura ou de gastronomia.

Aos habituais tratamentos de spa, ginásio e aulas de hidroginástica, este hotel soma aulas de pilates e um serviço personalizado que disponibiliza tapete, swiss ball e pesos, para treinar no quarto ou no jardim, com uma aplicação que monitoriza o desempenho. Mais recentemente, desde 2018, os cães são recebidos com o mesmo tratamento de luxo dos donos, incluindo na hora das refeições, com um menu canino com uma estrela Michelin, preparado por Luís Pestana. Creche e piscina para cães, tratamentos de beleza e de fisioterapia, bem como passeios nos jardins do hotel e veterinário 24 horas por dia, são algumas das mordomias.

Um passeio nos jardins do Reid’s (€35) é uma das mordomias que o hotel tem para cães. A taxa diária por cão (€35) inclui três refeições por dia, preparadas pelo chefe Luís Pestana

Um passeio nos jardins do Reid’s (€35) é uma das mordomias que o hotel tem para cães. A taxa diária por cão (€35) inclui três refeições por dia, preparadas pelo chefe Luís Pestana

No universo dos humanos, as experiências variam entre o very typical (como provas de comidas e bebidas locais e caminhadas nas levadas) e passeios sofisticados. De barco até às ilhas Desertas, com mordomo a bordo, ou de Rolls Royce com motorista, para ir ver o pôr-do-sol, na Ponta do Sol. A herança inglesa mantém-se com o tradicional ‘Chá das Cinco’, servido na varanda do hotel e disponível também para visitantes, que representam 90% dos que marcam presença neste ritual. Na procura por manter as portas abertas a todos, o Reid’s reúne, uma vez por ano, chefes nacionais e internacionais com (e sem) estrelas Michelin, que durante três dias proporcionam uma viagem de sabores, com o festival The Art of Flavours, que recebe comensais de todo o mundo e, em particular, madeirenses.

Ciriaco Campus, diretor-geral do Belmond Reid’s Palace, acredita que a aquisição do grupo Belmond pela Louis Vuitton não vai interferir na autonomia do hotel que dirige

Ciriaco Campus, diretor-geral do Belmond Reid’s Palace, acredita que a aquisição do grupo Belmond pela Louis Vuitton não vai interferir na autonomia do hotel que dirige

Tyso Sadlo

Na edição deste ano, em junho, Ciriaco Campus e a sua mulher inauguram a maratona gastronómica e confecionam o primeiro jantar, na cozinha de um atrelado de street-food instalado, propositadamente, num dos jardins do hotel. A informalidade segue com as propostas do casal Campus, que honra as suas origens: arancini, o pastel frito recheado com risotto, típico da Sicília, e o pão focaccia, acompanhados com queijos e presuntos, entre outras especialidades italianas. Já é mais do que sabido que a simplicidade e a autenticidade são o novo luxo. No Reid’s, o luxo quer-se democrático e herdeiro da tradição. E o exemplo vem de cima.

Belmond Reid’s Palace

Estrada Monumental, 139 Funchal
Quartos entre €315 e €1875 (suite presidencial)
Restaurante William’s
Menus de degustação harmonizados com vinhos a partir de €155 (cinco pratos) até €240 (seis pratos)

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