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Salto sobre Sainte-Mére-Église

Um dos episódios mais dramáticos do Dia D é evocado numa aldeia que se transformou num símbolo da solidariedade franco-americana

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É uma das tragédias do Dia Mais Longo. De noite, um grupo de pára-quedistas americanos é largado por engano sobre uma aldeia da Normandia onde havia um edifício em chamas e tropas alemãs. Poucos sobrevivem, um dos quais porque o pára-quedas se prendeu no pináculo da igreja e o soldado ali ficou horas pendurado, ferido num pé e fazendo-se de morto.

A aventura do pára-quedista John Steele, falecido em 1969, é evocada por um manequim em tamanho real, suspenso do campanário e que passou a ser a imagem de marca da localidade. O seu nome foi dado a um dos hotéis da aldeia e tornou-se cidadão honorário de Sainte-Mére-Église. Até na reconstrução dos vitrais do pórtico da igreja matriz se acrescentaram três pára-quedas a uma imagem de Nossa Senhora. O episódio é evocado no filme “O Dia Mais Longo” eventualmente com alguma fantasia à mistura.

A haver um museu dedicado aos pára-quedistas americanos que saltaram sobre a Normandia em Junho de 1944, só podia situar-se aqui. A localização não podia ser mais simbólica, uma vez que corresponde ao lote onde se situavam a casa e a quinta da senhora Julia Pommier, consumidas pelas chamas na noite de 5 para 6 de Junho de 1944 e cujo clarão induziu em erro os pilotos dos aviões de transporte C-47 que deram ordem de salto. Durante 20 anos o espaço devastado pelas chamas ficou vago até ser ocupado pelo museu.

Igreja de Sainte-Mére-Église, vendo-se suspenso da torre o manequim pára-quedista alegórico a John Steele

Igreja de Sainte-Mére-Église, vendo-se suspenso da torre o manequim pára-quedista alegórico a John Steele

Pixabay

O lendário Dakota

De facto, a peça central do Airborne Museum em Sainte-Mére-Église é um desses robustos, fiáveis e versáteis aviões que voaram até aos nossos dias. Tem a matrícula USAAF 42-100825 e participou de facto no Dia D, bem como em operações militares posteriores. Cedido à força área francesa foi abatido ao efectivo e para aqui transportado em 1982, suspenso de um helicóptero de carga. Chame-se-lhe DC3, C-47, Skytrain ou Dakota este bimotor a hélice é um avião lendário, capaz de aterrar e levantar em quase todo o lado e de transportar 28 soldados ou três toneladas de carga.

Entramos na aeronave, cheia de manequins de pára-quedistas e logo viajamos no tempo, voando no meio duma escuridão só quebrada pelo deflagrar das explosões dos tiros antiaéreos. Quando saímos do lado oposto, parecemos flutuar na direcção do solo onde não sabemos o que nos aguarda, tal como os homens das 82ª e 101ª divisões aerotransportada dos EUA em 1944, muitos dos quais largados sobre zonas arborizadas e pântanos que se revelaram fatais.

O espaço a bordo do C-47 era exíguo e as portas estreitas. Por isso, quem usasse a espingarda semi-automática Garand ou a metralhadora BAR tinha que as levar desmontadas em sacos de lona. Nos instantes a seguir à chegada ao solo, se houvesse luta, estes homens dependiam do Colt 45 que traziam à cintura ou dos seus camaradas equipados com armas mais curtas como a carabina semi-automática M1 ou a pistola-metralhadora Thompson.

Um Dodge WC 4x4 tendo ao fundo um avião de transporte C-47

Um Dodge WC 4x4 tendo ao fundo um avião de transporte C-47

A baioneta e a nota de dólar

Nem todos viveram histórias com um final tão feliz como a do soldado Steele. Numa das vitrinas vê-se uma baioneta ainda com a respectiva bainha. Foi doada ao museu após ter sido encontrada durante a demolição de uma casa. Através dos números de identificação, ainda bem visíveis, foi possível identificar o seu proprietário, o soldado Albert Tomory da 82ª divisão aerotransportada, morto a 6 de Junho de 1944 a oeste de Sainte-Mére-Église.

Outra peça exposta é um dólar dividido em três partes. Na véspera da largada, três amigos da 82ª divisão, Ralph Busson, Bill Farmer e Dan Furlong dividiram dessa forma uma nota para lhes dar sorte. Anos mais tarde, numa reunião de veteranos, Busson e Furlong encontram-se e reconstituem o que é possível da nota: falta o bocado central pois Farmer morrera em combate. Os dois terços restantes foram doados ao museu pelos próprios em 1997.

Albergue e restaurante “Le John Steele”

Albergue e restaurante “Le John Steele”

Prisioneiro do prisioneiro

Menos triste é a história associada ao pára-quedas do soldado Cliff Maughan, também aqui exposto. Largado sobre Sainte-Mere-Église, teve a sorte de cair no jardim da residência do dr. Monnier, onde hoje se situa o Café C-47. Ainda estava a tentar dobrar o pára-quedas e já ouvia o engatilhar da pistola do tenente Werner que ali estava aboletado. Este é interpelado em alemão pela filha do veterinário que lhe diz para não matar o americano e o fazer prisioneiro. Isso acontece mas quando os três chegam à rua, o céu parece cobrir-se de novos pára-quedas. Werner percebe que a situação mudou. Como não fala inglês pede à rapariga que lhe sirva de intérprete e declara-se por sua vez prisioneiro, estendendo a arma a Maughan…

Excluído o massacre de parte dos elementos da Companhia F que aterraram à 1.15 no centro da aldeia e foram metralhados ainda no ar ou se despenharam nas árvores, a conquista de Sainte-Mére-Église foi relativamente rápida, pois às cinco da manhã as tropas alemãs já tinham retirado.

Mais dura foi a luta nos arredores, pela conquista da ponte de La Fiére sobre o rio Merderet. Única via atravessando as zonas alagadiças da península de Cotentin, propositadamente inundadas pelos alemães, a sua posse era decisiva para dar passagem às tropas desembarcadas na praia de Utah, meia-dúzia de quilómetros a norte.

A luta em La Fiére durou três dias, até os americanos conseguirem consolidar posições. Quando terminou, havia centenas de cadáveres juncando o solo. A 4 km de Sainte-Mére-Église o memorial dos pára-quedistas evoca este sangrento combate. No museu está exposto o blusão usado pelo soldado Joseph Fitt, aqui condecorado com uma Estrela de Prata mas que morrerá uma semana depois junto à vizinha estação ferroviária de Montebourg. No final da guerra um dos seus camaradas trouxe dos EUA a peça de roupa e doou-a ao museu.

Quilómetro zero da Via da Liberdade (Normandia-Bélgica) junto aos paços do concelho de Sainte-Mére-Église

Quilómetro zero da Via da Liberdade (Normandia-Bélgica) junto aos paços do concelho de Sainte-Mére-Église

A chama do presidente Eisenhower

Bastaria este lastro de história para Sainte-Mére-Église se ter tornado um lugar simbólico para franceses e americanos mas há uma razão suplementar. Nos dias imediatos ao desembarque foi criado na aldeia um cemitério militar provisório que nas semanas seguintes haveria de chegar às 13 mil campas. Aqui foi sepultado o general Theodore Roosevelt Jr, primo do presidente dos EUA, que comandara o bem-sucedido desembarque em Utah e falecera de ataque cardíaco semanas depois. Com 56 anos e uma saúde frágil, chegara ao areal apoiado numa bengala e era seguramente o homem mais velho a ter desembarcado, além de ser também o mais graduado, o que lhe valia a admiração dos seus soldados.

A 7 de Agosto de 1944 o fotógrafo da “Life” Ralph Morse descobriu uma senhora fotogénica a pôr flores na campa do general Roosevelt Jr. Tratava-se de Simone, mulher do presidente da Câmara, Alexandre Renaud, um dos raros habitantes da região a falar bem inglês.

A foto deu a volta ao mundo e pôs Sainte-Mére-Église no mapa, tanto mais que Simone Renaud respondeu sempre às numerosas cartas mandadas por soldados americanos e suas famílias. Começaram a chamar-lhe Mãe Normandia e daí em diante multiplicaram-se as doações, tanto de fundos como de peças, na perspectiva de um futuro museu, acarinhado pelo novo presidente dos EUA.

Nas comemorações do 10º aniversário do Dia D, em 1954, Eisenhower, antigo comandante supremo aliado, ofereceu ao município uma chama simbólica em metal. Quando o museu foi inaugurado, em 1964, passou a albergar, entre muitas outras coisas, esta peça única.

Homenagem aos pára-quedistas americanos caídos na ponte sobre o rio Merdelet

Homenagem aos pára-quedistas americanos caídos na ponte sobre o rio Merdelet

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