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O papel das séries. Eis a nova temporada de “La Casa de Papel”, a série light preferida da Humanidade

Pedro Boucherie Mendes acrescenta mais uma entrada a “Séries com História”. Sempre à segunda-feira, no Vida Extra

Tamara Arranz Ramos

Bem ou mal, há um modo espanhol e latino americano, de produzir ficção e que até alastrou a Portugal, que podemos ver em algumas telenovelas recentes. E que modo é este? Mulheres lindas de morrer, sexualizadas, maquilhadas e salto alto, galãs musculados morenos, de barba rala e vilões e vilãs de “banda desenhada”, intrepidamente maus, dispostos a tudo, até a matar para atingir os objetivos. Nessas novelas e séries há poucas ou nenhumas etnias não ocidentais e quando existem são criados ou motoristas.

A ficção local, quando minimamente bem executada, funciona melhor do que a ficção legendada ou dobrada, porque o público gosta de espreitar o seu país e os seus personagens, gosta das afinidades ou repulsas próximas, aprecia que aquelas pessoas falam a sua língua e estejam nos seus lugares. E depois há aquele apetite universal pelo produto americano, tanto que na indústria da televisão mundial há décadas que se parte do princípio de que o público alemão ou quer ver séries alemãs ou séries americanas (e algumas inglesas) dobradas em alemão. Idem para Portugal, Espanha, Itália, etc, onde é quase impossível assistir a séries faladas noutra língua que não o inglês, nos canais maioritários.

Entra The Killing

Durante anos, séries de outros países nem sequer eram consideradas, até que um certo produto escandinavo se impôs devagarinho por essa Europa fora. The Killing estreou em janeiro de 2007 na Dinamarca e seguia as aventuras de Sarah Lund, que no último dia do seu emprego vai investigar a morte horrenda da adolescente Nanna Birk Larsen. Em vez de se fazer à vida como previsto e ir viver com o namorado na Suécia, Lund permanece no trabalho e, com o seu substituto, vai investigar o crime. O resto é também a história de uma exportação. Os vinte episódios da primeira temporada de The Killing foram vendidos para mais de cem países e nem o cerrado e incompreensível dinamarquês afastou o interesse de um certo tipo de espetador mais culto e erudito, fascinados com Sarah Lund e o seu parceiro a descascarem a cebola da investigação muito devagarinho, numa série bem filmada que revelava um país e um tipo de pessoas (os dinamarqueses) com um olhar naturalista, real e verídico. Numa era pré Netflix e pré binge viewing, The Killing foi um ritual à semana de milhões de pessoas no Ocidente, Portugal incluído onde foi emitida nos canais Fox, e cimentou a ficção nórdica como uma alternativa mais negra, elaborada e real às produções americanas estereotipadas. Melhor, portanto. A série dinamarquesa teria três temporadas originais e direito a uma versão americana de quatro temporadas, uma das quais via Netflix.

Poucos anos depois, uma outra série, The Bridge cimentou a ficção televisiva nórdica como um produto de excelência, com várias outras séries ainda hoje a confirmarem que há mesmo uma fórmula que os escandinavos (suecos, dinamarqueses, finlandeses) aprimoraram. Apesar da língua, as produções são vendidas para televisões de todo o mundo ou para as plataformas e contribuíram para elevar a fasquia das séries americanas, inglesas e francesas porque revelaram que o público suportava e desejava mais exigência narrativa.

Novelas

The Killing foi uma série para países onde há largas fatias da população habituadas a ler livros policiais, como na Escandinávia, no Reino Unido ou nos próprios Estados Unidos, onde a série viveu através do remake (também haveria vários de The Bridge).

Em países mais pobres e menos instruídos, essas tramas de investigação necessitam das cores carregadas do drama amoroso e as motivações que impelem ao crime mais simples e menos sombrio. Se em séries como The Killing se mergulha no escuro da alma humana, se sujam mãos e pés no sadismo e perversão, nas novelas as motivações são quase sempre a elementar ganância, o ciúme ou a vingança. E se num primeiro caso, as pessoas (os atores) podem ser normais, sendo feios ou bonitos, vestidos com roupa comum ou informal, as novelas pedem mulheres lindas, decotadas e vestidas de outra maneira. Gostemos ou não, a ficção de grande público reflete a literacia do seu público ou pelo menos a perceção que existe dessa literacia.

Tanto The Killing como a afamada La Casa de Papel de que tanto se fala têm pontos de partida fortíssimos e facílimos de apreender, num caso descobrir quem matou Nanna e porquê, no outro o plano para assaltar a Casa da Moeda, mas o desenrolar narrativo e o modo como o jogo de sombras é manipulado levam-nas para lados opostos. The Killing é um slow burner, exige atenção, compromisso, gestão da frustração (do espectador), apreensão de nuances narrativas, um intenso e imenso denodo dos atores e uma escrita de personagens aprimoradas. Já La Casa de Papel chegou onde chegou (e chegou longíssimo) por uma habilidosa justaposição entre planos narrativos lineares (ou vemos o decorrer do assalto e sequestro, ou vemos o professor, ou estamos com a polícia) e com ambiguidade controlada, acomodados por uma voz off que nos vai ligando as pontas e situando a atenção.

Por mais que tenhamos olhado para o smartphone para um post qualquer, em La Casa de Papel apanhamos depressa o fio à meada e mergulhamos de novo naquele assalto. EmThe Killing, que chega a ser aborrecida, isso seria impossível.

Tamara Arranz Ramos

La Casa de Sucesso

A série espanhola La Casa de Papel foi originalmente produzida para o canal Antena 3 e emitida aos domingos à noite em fatias de 70 minutos em 2017. Começou com boas audiências, mas perdeu mais de metade, só se tornando este fenómeno mundial na plataforma Netflix. Os espanhóis funcionam muito com este paradigma, séries que duram umas doze semanas com doses de 70 minutos. Ou seja, a explanação da história foi pensada para esta posologia. Quando a Netflix adquiriu os direitos – como fez e faz com séries de todo o mundo – pediu uma remontagem para episódios de cerca de 45 minutos, dobrando-a também em inglês e chamou-lhe Money Heist. A fórmula simples (mas não simplista) de um génio que quer roubar a casa da moeda e instrumentaliza um bando de salteadores com fatos encarnados e máscaras de Dali acabou por ter efeitos extraordinários e hoje em dia a Netflix tem um centro de produção aqui ao lado, em Espanha. Note-se que em La Casa de Papel há crimes e malfeitorias, mas não encontramos sordidez moral gráfica ou violência sexual, o que higieniza (e de que maneira) esta série e outras análogas.

A nova temporada de La Casa de Papel acaba de estrear na Netflix e tudo indica que venha ter uma repercussão menor, apenas porque a vida é mesmo assim. Pelo que se vê no primeiro episódio, o tal molde espetacular latino americano, impera. Nas primeiras cenas, vemos um casal feliz numa ilha paradisíaca, com direito a close up de rabo atraente e câmara apertada no rosto da péssima atriz que faça chuva, faça sol, esteja na praia ou a fugir de terroristas, carrega sempre a mesmo expressão. Mas foi essa a chave do êxito anterior, agora é replicar.

Falando de qualidade, La Casa de Papel está muitos furos abaixo de The Killing, mas muitas vezes o que mais desejamos é qualquer coisa leve, que se digira bem. Nisso, a empolgante série espanhola é do melhor que há.

O desdém público e publicado pela literatura light de narrativa linear, com personagens arquetípicos, parece não ser ativado por quem vê séries e quem sobre elas escreve com entusiasmo a propósito de tudo e de nada. É engraçado ver jornalistas respeitáveis em todo o mundo, Portugal incluído, a glosarem séries que se fossem livros seriam tão light como os seus critérios editoriais.