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Simhasana – A postura do leão. Uma boa oportunidade de afirmar e treinar a desinibição

A crónica de bem-estar de Cristina Diniz ganha nova entrada, sempre à quarta-feira, no Vida Extra

D.R.

O mundo do yoga tem variadas posições inspiradas na Natureza e também em animais. Estas posturas físicas trazem, por vezes, agregadas a elas variadas histórias da mitologia hindu. Gosto bastante delas e do mundo da mitologia, seja qual for a origem, desde a Grécia e Roma antigas à Índia e outras tantas. Só que é curioso, que a Índia em geral e o yoga em particular fazem perdurar esses mitos, quer através de rituais populares atuais, quer através duma prática física. E é interessante permanecer numa posição de yoga e ter presente a respetiva história que ainda vive.

Uma das supremas divindades da Índia é Vishnu, o protetor e aquele que preserva. Avatar é uma das encarnações de um deus, é um dos aspetos que essa divindade pode adquirir.

O Bhagavata Purana é uma crónica dos vários avatares e uma das principais obras da literatura indiana, que significa, na tradução do sânscrito, “o livro de Deus”. O texto relata que existem dez avatares de Vishnu e que os seus principais objetivos são salvar o mundo dos enormes perigos que o ameaçam, destruir os malvados e proteger os virtuosos. Uma dessas encarnações é Narasimha (o Homem-Leão) e o propósito deste avatar meio homem meio leão era libertar o mundo da opressão de Hiranyakasipu, um demónio terrível, pai de Bhakta Prahlada.

Reza a história que o rei demónio Hiranyakasipu obteve um magnânimo favor de Deus que assegurava que ele não seria morto nem de dia nem de noite, nem dentro nem fora de sua casa, nem em terra nem em mar e nem por Deus, homem ou besta. Descansado com esta sentença, perseguiu maleficamente deuses e homens, incluindo o seu próprio filho Prahlada, um fiel e ardente devoto da divindade Vishnu.

Prahlada foi sujeito a uma variedade de crueldades e provações, mas sob proteção de Vishnu permaneceu incólume e com grande fé rezava à omnipresença, omnisciência e omnipotência do seu deus adorado. Num rasgo de desespero e exasperação Hiranyakasipu pôs em causa a fé de seu filho, enfrentou-o uma vez mais e provocou-o argumentando que se Vishnu era omnipresente, então porque não conseguia ele vê-lo ali mesmo num dos pilares do seu sumptuoso palácio.

Prahlada implorou por ajuda ao seu protetor Vishnu, que nesse exato instante irrompeu do pilar numa configuração temível: a parte de cima do seu corpo na figura de um poderoso leão e a parte de baixo em forma de homem. Num ápice ergueu Hiranyakasipu no ar, sentou-o em suas pernas e destruí-o em mil pedaços.

Este avatar Narasimha aparece retratado em imensos templos e esculturas por toda a Índia, é ainda hoje adorado pelos povos e … como não podia deixar de ser, o yoga tem um asana (postura física) dedicada a ele. Explicando o termo, Nara significa homem e Simha leão.

Representação de Narasimba (o Homem-Leão)

Representação de Narasimba (o Homem-Leão)

D.R.

É uma postura bem irreverente e forte, difícil de fazer não pela sua complexidade física, mas pelo incómodo mental que poderá provocar a quem a faz. Fazer Simhasana (a postura do leão) é radical e leva-nos a perder a vergonha dos nossos atos, leva-nos a ser ousados, desinibidos e a aprender a lidar com o nosso corpo e com os sons que emitimos de forma extrovertida e até divertida. Além disso tem outros benefícios, físicos e neurobiológicos, que veremos mais à frente.

Há diversas variações do asana, descreverei uma das mais fáceis, convidando assim a que todos possamos encarnar a nossa faceta de leões e treinar o nosso carácter extrovertido, já para não falar dum papel defensivo do Bem e destruidor do Mal, pois, por vezes, quem somos para os avaliar …

Sentamo-nos sobre os calcanhares, dorso dos pés no chão, costas bem direitas. Esticamos ambos os braços à frente e mantemo-los rígidos. Palma da mão esquerda sobre o joelho esquerdo e a palma da mão direita sobre o direito, dedos das mãos bem alongados e afastados uns dos outros. Inspiramos profundamente pelo nariz e ao expirar abrimos amplamente as mandíbulas, tiramos a língua o máximo para fora, encaracolamos a ponta da língua para baixo e deixamos sair um som “Haaaaaaa” gutural e feroz tal como o rugido de um leão. Para dramatizar ainda mais, abrimos muito os olhos e fixamos o nosso olhar na ponta do nariz ou então no ponto entre as sobrancelhas. Mantemos a postura, deixando sair o som livremente, durante 30 segundos. Podemos esticar as pernas à frente um pouco fazendo um intervalo e depois voltar a repetir, alternando agora o ponto de fixação do olhar (drishti). E é assim que somos leões e leoas por um minuto ou as vezes que quisermos.

Benefícios da postura:

· Alonga os músculos da garganta;

· Fortalece garganta, voz e pulmões;

· Reduz o stress e a tensão no peito e na face;

· Reduz as rugas faciais;

· Desinibe;

· Estimula o platisma (músculo na parte frontal da garganta, abaixo da epiderme e da derme), mantem este músculo firme e evita o envelhecimento precoce nesta zona;

· Beneficia de modo geral a face, olhos, língua, garganta, cordas vocais, abdómen, trato respiratório, diafragma, peito, mãos e dedos;

· Ajuda a livrar-se do mau hálito;

· Relaxa os músculos do pescoço;

· Melhora o som e a textura da voz;

· Ajuda a circulação de sangue na face;

· Reduz os pés de galinha (rugas junto aos olhos);

· Reduz o queixo duplo;

· Reafirma e alonga a pele facial;

· Melhora a gaguez (os gagos tornam-se mais autoconfiantes, expõem-se mais e a gaguez tende a desaparecer, além disso relaxa os músculos que costumam ficar tensos no momento em que a pessoa fala);

· Reduz distúrbios na comunicação.

Vale a pena? Parece-me que sim. Vale sempre a pena se a alma não é pequena!

Boas práticas!